SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A Bolsa de Valores brasileira registra forte queda nesta quarta-feira (4), pressionada por ações de bancos e pela realização de lucros após o Ibovespa ter fechado em nível recorde na véspera (3).
O pregão também é marcado pela divulgação de balanços de empresas brasileiras e pela possível indicação de Guilherme Mello para o Banco Central.
Dados do mercado de trabalho dos Estados Unidos abaixo do esperado também repercutem entre os investidores.
Às 13h15, o Ibovespa, principal índice do mercado acionário brasileiro, recuava 1,91%, aos 182.121 pontos. No mesmo horário, o dólar subia 0,09%, cotado a R$ 5,253.
Nas últimas semanas, o desempenho da Bolsa tem sido impulsionado pelo maior apetite ao risco e pela entrada de capital estrangeiro no país. Segundo levantamento da consultoria Elos Ayta, o volume aportado por investidores estrangeiros na B3 em janeiro deste ano superou a soma total do ano de 2025.
Na véspera (3), o Ibovespa, índice de referência do mercado acionário brasileiro, subiu 1,57% e encerrou o dia aos 185.674 pontos, renovando o recorde de fechamento. O desempenho desempenho foi impulsionado pelo maior apetite ao risco e pelo fluxo de investidores internacionais.
Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, diz que o comportamento da Bolsa nesta quarta-feira é marcado pela realização parcial de lucros, isso é, investidores aproveitam uma alta recente para vender ações e embolsar lucro.
Alison Correia, da Dom Investimentos, concorda. “A gente tem Petrobras caindo e Itaú caindo 2%, o que, no meu entendimento, é uma correção”, diz.
Nesta quarta, os analistas também reagem a divulgação do relatório da ADP (Automatic Data Processing), em parceria com o Stanford Digital Economy Lab, de janeiro nos EUA, que estima a criação de vagas no setor privado.
O setor privado dos Estados Unidos abriu 22 mil vagas de trabalho em janeiro, segundo dados divulgados nesta manhã. O resultado ficou abaixo estimativa média dos analistas consultados pela Reuters, que previam a criação de 48 mil vagas.
“Menor geração de empregos sugere menor pressão inflacionária e aumenta as chances de cortes de juros nos Estados Unidos. Com juros potencialmente mais baixos lá fora e taxas ainda elevadas no Brasil, cresce o apelo do ‘carry trade’, o que pressiona o dólar”, diz Alison Correia, analista de investimentos e cofundador da Dom Investimentos.
Na prática, pega-se dinheiro emprestado a taxas mais baixas, como a dos EUA, para investir em ativos com alta rentabilidade, como a renda fixa brasileira. Assim, quanto mais atrativo o carry trade, mais dólares tendem a entrar no Brasil, o que favorece o real.
Os dados não mexeram com as projeções para a trajetória de juros americana, hoje entre 3,5% e 3,75%. Segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group, os investidores veem uma chance de 90% do Fed (Federal Reserve) manter a taxa na próxima reunião da instituição em março.
Na entrevista coletiva após a decisão, Jerome Powell, presidente da instituição, reafirmou a posição neutra, ressaltando a força da economia e dizendo que após os três cortes realizados em 2025, o banco está “bem posicionado” para tomar as decisões futuras de acordo com o comportamento dos dados econômicos.
O Fed sofre pressão de Trump, que já solicitou diversas vezes reduções imediatas e acentuadas na taxa de juros. Na última sexta-feira (30), Donald Trump indicou Kevin Warsh para substituir Powell.
O indicado deve assumir o cargo em maio, quando acaba o mandato de Powell. A indicação precisa ser confirmada pelo Senado dos EUA.
Warsh é visto como um defensor da postura “hawkish” (agressiva no combate à inflação e defensor de juros altos), que vai na contramão do que vem defendendo Trump.
Declarações de membros da Casa Branca e de Trump sobre o indicado ao cargo, contudo, defendem que Warsh poderá ser mais flexível na abordagem de juros do que o projetado. “Warsh deverá ter uma postura mais sensível ao crescimento econômico e menos inclinada à manutenção de juros elevados por tempo prolongado”, diz Gabriel Cecco, especialista da Valor Investimentos.
No ambiente doméstico, o foco está no início da temporada de balanços. Nesta manhã, o Santander Brasil revelou que teve um lucro líquido gerencial de R$ 15,615 bilhões em 2025. O resultado ficou próximo do projetado por analistas consultados pela Bloomberg um ganho de R$ 15,58 bilhões.
Por volta das 13h15, as ações do Santander caíam por volta de 2,30%, cotadas a R$ 35,05, em linha com o setor que cai em bloco. No pregão da véspera, os papéis da instituição financeira já haviam recuado 2,39% em antecipação ao resultado desta manhã.
Para Daniel Teles, especialista e sócio da Valor Investimentos, o movimento de queda dos papéis é de correção. “O setor bancário teve uma valorização nas últimas semanas e hoje é um dia de realização de lucros”.
O Santander Brasil é o primeiro banco brasileiro a reportar os números de 2025. Nesta quarta à noite, será a vez do Itaú.
Ainda no cenário doméstico, a possível indicação do secretário de política econômica da Fazenda, Guilherme Melo, ao Banco Central se mantém no radar dos investidores.
Pela manhã, as taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros) apresentavam viés de alta ante os ajustes da véspera. Às 10h43, a taxa dos DIs para janeiro de 2028 estava em 12,705%, ante o ajuste de 12,653% da sessão anterior. A taxa para janeiro de 2035 marcava 13,475%, ante o ajuste de 13,358%.
“Depois que o nome de Guilherme Mello passou a circular, a sensação predominante foi de desconforto e cautela, e isso costuma aparecer como juros mais altos nos prazos mais longos, ou seja, o mercado pede uma remuneração maior para emprestar dinheiro ao governo, porque fica mais inseguro”, diz Rafael Lima, CEO da fintech Ótmow.
Mello tem forte ligação com o PT trabalhou na formulação do plano econômico do governo Lula e sua indicação, se confirmada por Lula, sinalizaria influência não apenas de Haddad, mas do partido no órgão. Na terça, o ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) confirmou, em entrevista, ter indicado o nome.