Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site varejoemdia.com
11/Ago/2015
Um dos maiores desafios do governo Temer -uma vez que o afastamento da presidente Dilma Rousseff já é tido como muitíssimo provável -será acertar nas medidas capazes de destravar a economia.
O Diário do Comércio perguntou para lojistas, consultores de varejo e economistas quais seriam as ações mais urgentes para tirar a economia brasileira do marasmo.
Veja o que eles dizem:
Romeu Zema (presidente Eletro Zema, rede mineira especializada em eletrodomésticos e móveis)
"O governo precisa dar um choque de credibilidade na economia, mostrando que vai cuidar imediatamente das contas públicas por meio de mudanças na Previdência, cortar custos da máquina estatal e ter propostas concretas para reformas dos sistemas tributário e trabalhista.
O governo precisa sinalizar que vai dar atenção às privatizações. O Banco Central e a Petrobras precisam também ficar livres de interferências políticas. Suponho que o efeito na economia de medidas como essas se daria entre quatro e oito meses".
Fauze Yunes (sócio-diretor da Confecções Dinhos, confecção e loja de roupas localizada no Brás)
"A saída para a economia reagir seria uma política de incentivo para a indústria -a verdadeira geradora de empregos-, com desburocratização dos trâmites contábeis e fiscais -simplificação da tributação-, diminuição da carga tributária, flexibilidade de negociação entre empresas e empregados.
Acredito que essas medidas tirariam muitas empresas da informalidade, gerando o recolhimento de mais tributos. Hoje, a maioria das empresas deixa de recolher tributos para sobreviver e, não para lucrar mais, que é o que muita gente pensa".
Alberto Serrentino (consultor especializado em varejo)
"O varejo brasileiro vem sofrendo desde o início de 2015. Para a retomada do setor é preciso estabilidade política, governabilidade, uma agenda positiva para a economia e para o mercado de trabalho, para que se restaure a confiança.
As vendas só começarão a melhorar quando houver reversão do nível de confiança dos consumidores e a volta do crédito.
Um eventual novo governo que consiga implantar medidas de curto prazo, que mostrem compromisso com equilíbrio fiscal e controle inflacionário e revelam uma base de sustentação política, podem ter efeito positivo para o varejo".
Nelson Barrizzelli (consultor especializado em varejo)
A saída da presidente Dilma vai provocar, no meio empresarial, uma grande sensação de alívio. Há cinco anos o governo vem intervindo na economia de forma atabalhoada.
O problema é que Michel Temer, se for presidente, será interino por até seis meses. Tudo, tanto nos próximos meses, como nos próximos anos, vai depender de como o Congresso vai se comportar, do que a Lava Jato vai descobrir mais sobre os políticos, da velocidade do Supremo em punir os que devem ser punidos e da capacidade de Michel Temer de dialogar com o Congresso.
Aos varejistas só cabe observar o ambiente. Nada vai mudar da noite para o dia. 2016 já está feito. O desemprego vai aumentar, continuará a queda na renda média e no consumo, a inadimplência tenderá a aumentar e a indústria não vai reagir. Vamos perder mais um ano em nossas vidas.
Os varejistas preparados não vão se endividar e manterão um fluxo de caixa positivo e continuarão controlando os custos fixos.
O momento não é para se estocar. O atendimento aos poucos clientes que entram na loja deve ser impecável. Não dá perder vendas por mau atendimento.
Emílio Alfieri (economista da ACSP)
O que pode destravar a economia é a melhora da confiança, que está hoje em um dos níveis mais baixo da história, e a queda de juros, com aumento do crédito.
O resto é por conta dos lojistas, que precisam evitar o repasse de preços, trabalhar com marcas de segunda linha, como uma forma de oferecer produtos mais baratos para os consumidores.
No caso de produtos eletroeletrônicos, se não dá para reduzir preços, o lojista pode pensar em alongar prazos, se tiver fôlego para isso.
A prestação de um produto no valor de R$ 1.000, financiado com uma taxa de juros de 5% ao mês, dá uma prestação de R$ 129,50, em dez vezes.
Se o financiamento aumenta para 14 vezes, a prestação cai para R$ 101. Isto é, o consumidor paga R$ 30 reais menos. É claro que isso é mais para redes grandes, mas são sugestões que podem ajudar o lojista a enfrentar este momento.
Mercedes Mosquera (diretora de operações do supermercado Madrid)
O que o país precisa e deseja é que o governo faça uma reforma tributária que permita a unificação de alíquotas entre os Estados, de modo que a tributação seja simplificada.
Nelson Kheirallah (coordenador do Conselho de Varejo da ACSP)
A saída da presidente Dilma só mudam as expectativas e a confiança se a economia tiver um novo rumo.
Para destravar a economia seriam necessárias as reformas tão esperadas e que o possível futuro presidente Michel Temer só conseguirá realizar algumas delas e, mesmo assim, em partes.
O consumo não volta a subir nos próximos meses, mas a queda poderá ser amenizada por um aumento na confiança de novos investimentos.
Este novo ciclo de desemprego vai continuar, mas também deverá ser menos acelerado.
Os varejistas precisam cortar todas as suas "gorduras", reduzir despesas, controlar seu caixa e seu estoque e mais, aqueles que deixavam o gerenciamento dos seus negócios em mãos de terceiros, devem reassumí-los imediatamente, inclusive com muito sacrifício.
Não existe milagre. Neste momento, só existe muito suor e muita dedicação.
Sandro Benelli, consultor (sócio da consultoria Enéas Pestana & Associados)
No curto prazo o governo precisa da simpatia dos agentes financeiros e isso ele pode conseguir se comprometendo com o ajuste fiscal (que será feito no médio prazo). Como ele faz isto?
Nomeando uma equipe econômica ortodoxa com Meirelles ou Ilan Golfajn, economista-chefe do Itaú, para o Banco Central, cortando ministérios e cargos comissionados. São medidas de baixo impacto fiscal, mas muito simbólica.
Com estas atitudes haverá uma melhora nas expectativas do mercado e assim o Real se manterá valorizado. Isto ajudará a controlar ou baixar a inflação. Com inflação caindo ou ao menos sob controle, o governo pode começar a baixar os juros, o que irá destravar o consumo e dar início à retomada dos investimentos e, consequentemente, à criação de empregos.
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Imagem: Thinkstock
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A previsão para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) caiu de 7,08% para 6,98% em 2016 e de 5,93% para 5,80% em 2017, de acordo com o boletim Focus, divulgado na última segunda-feira (25/04) pelo Banco Central (BC).
Quem frequenta os supermercados, porém, está longe de achar que a tendência é de queda de preços. Até mesmo para os supermercadistas, os economistas de bancos correm o risco de errar feio nas previsões de inflação, principalmente para este ano.
“Desde o início do ano, as tabelas de preços dos fornecedores apresentam reajustes da ordem de 15%. Até o ano passado, os aumentos eram de 2%, 3%, 5%, no máximo”, diz Luciana Yoneta, proprietária do supermercado Yoneta, localizado em Carapicuiba.
“Todos os fornecedores estão dando uma ‘beliscada’ nos preços”, diz Flávio Augusto Pandolfi, gerente-geral do supermercado Yamato, localizado no bairro do Jabaquara.
De acordo com ele, a maior pressão provém das indústrias de laticínios, com reajustes de 8%, em média, e de distribuidores de hortifrútis, com altas que superam 100%.
O vilão da vez, de acordo com Luciana e Pandolfi, é a batata. A saca de 50 quilos, que custava R$ 180 na semana passada no Ceasa ultrapassou os R$ 300 nesta semana.
O preço do mamão também deu um salto tão grande (R$ 12,00 o quilo), que o supermercado Yamato preferiu não comprar a fruta nesta semana.
“Não vou pagar este preço por um produto que terei de vender por mais de R$ 12 o quilo e que estraga em cinco dias”, afirma o gerente-geral do Yamato.
No supermercado Okane, localizado no centro de São Paulo, fornecedores chegam a elevar até R$ 2,00 o preço de um produto de um mês para outro, especialmente na linha de chocolates, de acordo com Jessica Ângelo, gerente da loja.
No caso de bebidas, produtos de mercearia, açúcar, molhos, enlatados e macarrão, diz ela, os preços têm subido entre R$ 0,30 e R$ 040 por unidade com a reposição de estoques, diz ela.
De fato, nos últimos 12 meses terminados em março, os preços dos supermercados na cidade de São Paulo subiram mais do que a inflação média.
Com base em um levantamento realizado em cerca de 70 supermercados da capital paulista, o Índice de Preços dos Supermercados (IPS), calculado pela APAS/Fipe, aumentou 13,69%, no período. O IPC/Fipe, o índice que mede a variação de preços em geral para o consumidor paulistano, subiu 10,74%, no período.
Há casos em que os preços explodiram. Os produtos in natura subiram 25%, em média. No caso de frutas, a alta foi de 30,97% e, de legumes, de 28,49%.
O preço do mamão praticamente dobrou em um ano. A alta foi de 94,63% nos últimos 12 meses terminados em março.
Outros aumentos de preços ainda na linha dos produtos in natura deixaram os supermercadistas e os consumidores assustados.
O preço da cenoura subiu 89,6%; o da cebola, 37,65% e o do tomate, 18%, no período.
Os reajustes de preços de produtos industrializados não ficaram para trás.
O aumento médio atingiu 11,61%, com destaque para o açúcar (50,99%), óleo de soja (21,95%), leite (19,69%) e feijão (24,99%).
O que explica a forte pressão que produz alta de preços em meio a uma das maiores crises da sua história e o consumidor viu a renda cair drasticamente em um ano?
Para Juarez Rizzieri, professor sênior da FEA/USP e pesquisador da Fipe, que coordena o IPS/APAS, os preços dos produtos vendidos em supermercados estão subindo por conta de uma combinação de fatores.
Primeiramente, ele cita razões climáticas. Boa parte da produção de mamão, por exemplo, diz Rizzieri, está concentrada na Bahia. A seca reduziu a oferta da fruta, provocando, como consequência, uma alta de preços.
Essa explicação vale também para outras frutas e legumes que tiveram alta de preços acima de dois dígitos por conta de quebra de safra ou retração de produção.
Com o agravamento da recessão, a indústria também reduziu a produção para evitar o acúmulo de estoques, na expectativa de uma queda de consumo, diz ele.
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“É preciso considerar ainda que os produtos vendidos em supermercado são basicamente de primeira necessidade. Se a produção diminui e a demanda não cai ou se mantém, os preços tendem a subir”, diz Rizzieri.
O que tem 'segurado' as vendas dos supermercados, diz ele, principalmente de alimentos, é o fato de o consumidor ter diminuído as idas aos restaurantes e estar comendo mais em casa.
Pode estar havendo também, na sua avaliação, um aumento de preços com base em expectativas. E o que está segurando uma escalada ainda mais intensa de reajustes neste momento é justamente a perda de poder aquisitivo do consumidor.
Nos últimos 24 meses, de acordo com o levantamento do IPS/Fipe, 20% das 230 categorias de produtos pesquisadas tiveram queda de preços. Esse percentual, de acordo com Rizzieri, é o menor da série histórica do índice.
Isto é, 80% das categorias tiveram aumentos de preços, no período.
MAIS REAJUSTES
“Ainda vamos ter alta de preços. A recessão não muda este quadro. O que pode mudar é um sinal de mudança política e de credibilidade na suposta política que virá”, diz.
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O menor índice de inflação (IPC) que a Fipe já registrou na cidade de São Paulo, de acordo com ele, foi em 2006, de 2,54%.
Para o que índice volte a se repetir, a seu ver, o país precisa ter uma política econômica bem conduzida e fazer o ajuste fiscal.
“O Banco Central precisa ter o compromisso de fazer com que a inflação volte para patamares mais civilizados”, diz ele.
Nos países emergentes, incluindo o Brasil, a inflação média é da ordem de 4% a 5% ao ano. Nos países ricos, de 1%.
“Se a política econômica estiver determinada a garantir a estabilidade e a colocar a inflação na meta (4,5% ao ano) e as contas do governo forem ajustadas, o país tem tudo para voltar a crescer com inflação cadente. Isso não muda de uma hora para outra, mas, com a confiança no governo, ela vai caindo”, diz Rizzieri.
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Foto: Divulgação
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Trata-se de um setor responsável por abastecer pouco mais de 50% do comércio de pequeno porte com produtos essenciais, como alimentos e artigos de higiene pessoal e limpeza.
No ano passado, porém, a tradição de crescer acima do PIB foi interrompida. Os atacadistas faturaram R$ 218,4 bilhões, que correspondeu a uma queda real (descontada a inflação) de 6,8% em relação a 2014. A receita nominal cresceu 3,1%, no período.
É o que revela levantamento da ABAD (Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores), junto a 544 empresas, que representam cerca de 42% do mercado atacadista distribuidor.
O aumento da inflação e do desemprego e o cenário político-econômico são as causas principais apontadas pelos atacadistas para explicar a queda de faturamento real do setor.
Em 2015, o consumo das famílias caiu 4% e a renda média real do trabalhador, 6%, de acordo com o IBGE. As empresas do setor tiveram de lidar, de acordo com a ABAD, com um consumidor mais seletivo e em busca de ofertas.
LEIA MAIS: A crise está acabando com a fidelidade às marcas e às lojas
“A necessidade impele o empresário a colocar a casa em ordem e a preparar o negócio para um novo salto de crescimento sustentado, assim que a economia mostrar alguma recuperação”, afirma José do Egito Frota Lopes Filho, presidente da ABAD.
O modelo de atacado de autosserviço, o chamado atacarejo, que atende empresas e consumidores, obteve, no entanto, crescimento no período.
De acordo com a ABAD, o faturamento nominal dos atacarejos cresceu 12% no ano passado sobre 2014. Considerando a inflação um pouco superior a 10%, os atacarejos ainda apresentam crescimento real de receita.
Apesar de ser este um modelo de negócio em crescimento, a diretoria da ABAD lembra que o consumidor continua racionalizando compras, trocando marcas mais caras por mais baratas e até deixando de adquirir produtos que aprendeu a consumir durante a expansão econômica.
De acordo com estudos de economistas da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), a contração das vendas é cada vez mais disseminada neste ano, com exceção de artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria, que, pelo fato de serem imprescindíveis, ainda resistem à crise.
Já o setor de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, que também pertence à categoria de itens de consumo básico, não está resistindo às expressivas diminuições da renda e do emprego e à elevada inflação dos alimentos.
A perspectiva para os próximos meses é de continuidade da contração das vendas do varejo, porém possivelmente de forma mais atenuada, devido principalmente à menor base de comparação do ano passado.
LEIA MAIS: Desemprego e inflação impulsionam os atacarejos
“Não é fácil um setor crescer com inflação de 10% em um ambiente no qual o consumidor troca produtos de preços mais altos por produtos de preços mais baixos. Mas o setor vai continuar tocando o negócio porque o Brasil não vai acabar”, diz Nelson Barrizzelli, consultor de varejo.
Das empresas que participaram do levantamento da ABAD, as localizadas na região Norte apresentaram maior crescimento médio nominal, de 9,8%, seguidas por atacadistas das regiões Centro-Oeste (7,9%), Sul (6,8%), Nordeste (6,3%) e Sudeste (3,7%).
Os pequenos atacadistas, com faturamento anual entre R$ 400 mil e R$ 163 milhões, obtiveram crescimento médio de 7,6%, no período. Aqueles com faturamento entre R$ 166 milhões e R$ 1,4 bilhão aumentaram a receita em 7,9%, em média.
No levantamento conduzido no ano passado, a ABAD constatou certo grau de otimismo em relação às projeções para 2015. A maioria dos atacadistas esperava aumentar o faturamento, o volume de vendas, a rentabilidade, a base de clientes e os investimentos.
Apesar de o desempenho dos negócios ter sido pior do que eles previam para 2015, neste ano, os empresários consultados pela ABAD ainda mantêm algum otimismo em relação a 2016.
A expectativa é de manter investimentos, em vez de ampliar, e obter menor aumento de rentabilidade.
"Não adianta o setor tomar decisões com base na conjuntura. Mesmo que demore um pouco, o país vai voltar a crescer, e as empresas terão de estar preparadas para isso", diz Barrizzelli.
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Foto: Thinkstock
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