Repórter mserrain@dcomercio.com.br
Grande parte do comércio paulistano passou quase cem dias com as portas fechadas. Agora, com a reabertura parcial desde o último dia 10/6, as vendas ainda estão longe de recuperar o volume esperado, mas já começam a sinalizar alguma melhora.
Dados do Balanço de Vendas da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) mostram que embora a comparação anual indique tombos históricos, o confronto mês a mês traz uma perspectiva de retomada.
O levantamento indica que na comparação de junho com o mês anterior, o resultado das vendas à vista tiveram aumento de 47,3%, e de 23% nas vendas à prazo. Um número esperado, segundo Marcel Solimeo, economista da ACSP, já que diferente da primeira quinzena, quando o comércio teve apenas cinco dias de flexibilização, os últimos quinze dias de junho foram totalmente beneficiados pela reabertura de lojas.
Na comparação anual, a queda média no movimento do comércio paulistano foi de 54,9% frente a igual mês de 2019 – pouco menor que o tombo de 67%, registrado em maio. O levantamento também mostra que o movimento de vendas à prazo caiu 48,3% em relação ao ano anterior, enquanto as vendas à vista recuaram 61,4%.
De acordo com Solimeo, as restrições para a abertura, especialmente a redução de horário de funcionamento, prejudica o desempenho do comércio, que tende a melhorar com a entrada de São Paulo na faixa amarela, quando haverá expansão no horário de abertura das lojas para seis horas. Por ora, para as lojas de rua, ficou determinado que devem funcionar entre 11h e 15h, enquanto as de shoppings podem optar por abrir as portas no período de 6h às 10h ou de 16h às 20h.
Solimeo argumenta que além de cautelosos em relação ao vírus, houve um empobrecimento geral dos consumidores em função do isolamento. Todos perderam renda - informais, trabalhadores registrados, profissionais liberais e os empresários, especialmente os das pequenas empresas. “A queda (54,9%) ainda é bastante expressiva, e nos mostra que o caminho para a recuperação do comércio ainda é muito longo”.
O Balanço de Vendas é elaborado pelo Instituto de Economia da ACSP, com base em amostra fornecida pela Boa Vista Serviços.
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“Mudanças de comportamento do consumidor que levariam anos para acontecer, entraram em ação no susto. Avançamos alguns anos em três meses”. A frase de Eduardo Kyrillos, CEO do Icomm Group, que detém as plataformas de moda premium Shop2gether, OQVestir e (2)Collab, traduz bem a realidade de muitos negócios que já vendiam ou não pela internet. Nos últimos meses, muitos cenários futuristas, previstos por especialistas, emergiram no ramo varejista e devem se impor no mundo pós-pandemia.
O mercado de luxo, nicho em que os negócios de Kyrillos estão inseridos, movimentou no Brasil R$ 26 bilhões, em 2019, segundo a Consultoria Euromonitor International. No mundo, o crescimento foi de 4%, no mesmo período. Neste ano, com o isolamento social e a paralisação de mercados importantes, como o turismo, a indústria do luxo enfrenta um grande desafio. Um estudo da Bain & Company revela uma queda global de cerca de 25% no primeiro trimestre de 2020. Mas, muita coisa pode mudar.
Assim como todo o mercado, os negócios do Icomm Group registraram queda de 20% na segunda quinzena de março, outra de 10%, em abril e teve sua demanda normalizada próximo ao Dia das Mães, nos primeiros 15 dias de maio.
De acordo com o empresário, desde o início da pandemia, o grupo avançou em volume de novos clientes atendidos por mês, e foi de 10 mil para 20 mil. Enquanto isso, o número de pedidos recorrentes caiu de 30 mil para 21 mil, com redução de tíquete médio de R$ 500 para R$ 350. Embora os valores tenham mudado, a grande mudança observada se deu no campo de buscas das plataformas. As categorias de home clothing, que envolvem pijamas e peças íntimas, tiveram um crescimento de 100% nas vendas.
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Com as compras on-line sendo basicamente a única opção disponível para muitos setores do varejo, há neste momento uma oportunidade ímpar de se ofertar esses produtos a uma nova gama de consumidores. E ao mesmo tempo em que muitos mudaram seus hábitos de consumo e migraram boa parte de suas compras para a internet, na outra ponta, os e-commerces precisaram se adaptar a uma nova rotina.
Sem muito tempo para se preparar, Kyrillos conseguiu se antecipar às medidas restritivas impostas pelo governo. O empresário diz que 15 dias antes de o Estado ser colocado em quarentena, se reuniu com sua equipe para tentar adivinhar o que estava por vir. Todo o planejamento do segundo trimestre foi refeito – com uma expectativa bem mais cautelosa, a ideia era acompanhar as novas demandas para entender se o cenário também se estenderia a partir de julho.
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De imediato, as primeiras mudanças foram focadas na adaptação do home office como um todo, especialmente para a área operacional, como logística, produção e atendimento ao cliente, que teve o canal telefônico desativado e ficou disponível via chat, whatsapp e e-mail.
“Nossos colaboradores já tinham certa flexibilidade para o trabalho remoto, mas não tínhamos essa política estabelecida e essa transição foi surpreendentemente simples”, diz.
Assim como o perfil de compradores se diversificou bastante, a busca por diferentes sortimentos fez com que linhas de peças mais confortáveis e de itens para casa se esgotassem rapidamente. A corrida por produtos de home design levou o empresário a reformular a categoria dentro do site. Além do aumento no portfólio, de 100 para 1,5 mil novas mercadorias, houve um reforço no time com a chegada de uma compradora especializada nesta seara.
SEM IMUNIDADE
Enquanto a normalidade parece estar cada vez mais distante, o impacto da pandemia vai consolidando mudanças em todos os setores. Comprar luxo pela internet tem se tornado muito comum até para quem era avesso à internet.
Uma pesquisa realizada pela McKinsey com mil consumidores de produtos de grife nos Estados Unidos e Europa revelou que 24% fizeram compras on-line pela primeira vez desde o início da pandemia.
Dentro do universo dos entrevistados, 76% classificaram como positiva a experiência da compra por meio digitais. O mesmo levantamento aponta que, até 2025, as vendas on-line serão 30% deste mercado.
No Brasil, o outlet de moda on-line Privalia incluiu novas marcas valiosas em seu portfólio nos últimos meses. Marcas como Victor Hugo, grife de acessórios do segmento de luxo nacional, chegam para integrar a plataforma da Privalia que conta com empresas de moda, como MoB, Salvatore Ferragamo, Osklen, Dudalina, Fila e Calvin Klein.
Segundo Fernando Boscolo, Country Manager da Privalia no Brasil, durante a pandemia, a empresa manteve o foco de seu atendimento nos canais on-line (chat e e-mail), e realiza as entregas dos produtos para todo o Brasil com maior prazo de devolução dos pedidos. Tem também publicando comunicados com orientações para seus consumidores se manterem informados e conectados.
"O momento atual fez com que muitas pessoas recorressem ao serviço digital. Como há 11 anos aproximamos marcas e consumidores, conseguimos prestar um alto nível de serviço agora que o e-commerce é a melhor opção, senão única, para impulsionar as vendas durante o período de distanciamento social", diz o executivo.
"Sabemos que o caminho digital é complexo e isso é um fator crítico para o sucesso dos players. Mas, como estamos habituados com toda a cadeia e o processo, disponibilizamos para as marcas a nossa plataforma, para auxiliar durante o período de isolamento".
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IMAGEM: Thinkstock
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O isolamento social também interrompeu a trajetória de recuperação da Livraria Cultura, que tenta negociar suas dívidas com editoras para sair do vermelho.
Com opções físicas cada vez mais restritas, a pandemia pode mudar de alguma forma nosso consumo e o mercado editorial. Segundo Marcelo Gioia, CEO da BookWire no Brasil, empresa especializada em produzir conteúdo digital para editoras, o leitor brasileiro foi rápido na busca por livros digitais desde o início do isolamento social.
Os números da empresa mostram que entre os dias 9 de março e 26 de abril, a distribuidora entregou a clientes finais 9,5 milhões de unidades de livros digitais, entre títulos pagos e gratuitos. O volume corresponde a 80% da performance total da Bookwire em 2019, quando houve um crescimento de 57% em faturamento em relação a 2018, com a distribuição de quase 12 milhões de unidades de e-books.
Tamanha popularidade pode ser explicada por um movimento ocorrido em diferentes setores quando as restrições sociais foram impostas. Assim como aplicativos e canais de assinatura passaram a disponibilizar conteúdo de graça, as editoras ofereceram muitos títulos a preços reduzidos ou até mesmo gratuitos. E para muitos, esse foi o primeiro contato com livros digitais que podem não se tornar unanimidade, mas sem dúvidas, passarão a ser mais valorizados pelos leitores.
Há também de se levar em conta a limitação de acesso aos livros e a própria agilidade inerente ao digital.
O confinamento também confirmou uma outra tendência do mercado editorial, o digital first, que consiste em lançar uma versão digital antes do livro físico. Com preço reduzido, os e-books reúnem uma série de facilidades que afastam as varejistas de problemas logísticos em tempos conturbados e garantem mais praticidade e agilidade ao consumidor que o recebe imediatamente.
Atendendo a mais de 500 editoras no Brasil, Gioia não acredita numa mudança radical de comportamento pós-pandemia, mas acredita que teremos um mercado editorial em um novo patamar.
“Tivemos um crescimento circunstancial, mas os números nos mostram que o interesse se mantem. Não sei o que o futuro trará, mas já há um volume menor de descontos e menor quantidade de e-books e audiobooks a custo zero”.
Na opinião de Gioia, as métricas de unidades pagas e receita parecem estar encontrando um novo platô na curva, pois hoje existem mais leitores digitais do que em fevereiro, por exemplo. A aposta do exectivo é de que teremos um volume maior de leitores multiformato e números um pouco mais acomodados quando a referência são números tão surreais quanto vimos acontecer no pico do isolamento.
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