SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – EUA de Trump é assunto do Fórum Econômico Mundial, Brasil tenta atrair investimentos (sobretudo em energia renovável) para si e outros destaques do mercado nesta quarta-feira (22).
**O ELEFANTE REPUBLICANO EM DAVOS**
Em janeiro, durante uma semana, acontece o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. O evento costuma ser ponto de encontro de líderes globais e um momento para selar parcerias e fechar negócios.
Em 2025, o protagonista do Fórum está em outro continente: Donald Trump.
Com as eleições presidenciais na Câmara e no Senado se aproximando e uma reforma ministerial no radar, o Brasil levou uma delegação magra no quesito autoridades sem Lula, nem Haddad, por exemplo.
Entre os presentes e aguardados estão o presidente argentino Javier Milei, a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, e Trump (virtualmente).
A repórter Luciana Coelho, da Folha de S.Paulo, que está cobrindo o Fórum (e vencendo o frio) em Davos, nos ajuda a explicar o efeito Trump no evento e o que mais importa por lá.
– Como a posse, as falas e as ações do Trump foram recebidas aí?
Não há uma reação à eleição ou à posse em si, ainda que haja quem se mostre pessimista e quem se mostre otimista. O que há é enorme apreensão em relação às promessas feitas por ele e sobretudo às primeiras medidas, que rompem com muito do que vem sendo a regra na comunidade internacional.
Mais importante nesse caso específico, a possibilidade de ele concretizar o que promete, ou a igual possibilidade de estar blefando, cria um ambiente de incertezas e imprevisibilidade e se há algo que trava investimentos é isso.
– Sobre a presença brasileira: você esteve em outras edições, é a mais discreta que você viu?
A presença brasileira é a menor das sete edições que cobri e menor do que outras que me lembro de ter acompanhado como editora. Apenas o ministro Alexandre Silveira veio representando o Planalto, e chegou na metade do evento. O Brasil suscitou pouco interesse neste ano como me disse um executivo, o Brasil é um não-assunto em 2025.
– O que deve ser assunto aí nos próximos dias?
Sem dúvida é um fórum em modo de espera, onde muitos governos, organizações e indivíduos estão evitando falar sobre o elefante republicano na sala para nem se atritarem, nem passarem pano precipitadamente.
De qualquer forma, apesar do temor e das críticas às medidas de Trump, não há quem aponte riscos à democracia americana. Ao menos não por ora.
**O PAÍS DA ENERGIA LIMPA (?)**
Em Davos, o ministro brasileiro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, quer trazer as empresas renegadas dos EUA para cá.
Ele tenta surfar na onda contrária do novo presidente americano e atrair investimentos em infraestrutura para o Brasil.
Renegadas por que? Donald Trump já deu o seu recado. Nos próximos anos, quer saber de petróleo e gás. A energia renovável fica, com sorte, em segundo plano.
Com a tendência anunciada, empresas americanas que investem em modelos sustentáveis viram os preços de suas ações caírem nas bolsas de valores.
No primeiro dia de mandato, Trump retirou os EUA do Acordo de Paris um pacto assinado em 2015 pela comunidade internacional em nome da redução de emissões de gases-estufa, que agravam o aquecimento global.
Joe Biden, seu antecessor, tinha a energia limpa como uma de suas principais bandeiras e fez investimentos na área em seu mandato. Essa estrutura não deve sumir do nada.
Nel, Bloom Energy, Plug Power, Ballard Power Systems e Green Hydrogen Systems estão entre as especialistas em geração sustentável no catálogo do ministro.
COMO?
No Fórum Econômico Mundial, ele pretende participar de encontros com autoridades, representantes da União Europeia e executivos de empresas.
Ali, reforça os novos marcos legais do hidrogênio, das eólicas offshore e dos combustíveis do futuro.
Pode dar certo? Sim. O Brasil é, de fato, um polo desse tipo de investimento.
Em 2023, 49,1% da matriz energética brasileira era composta por fontes renováveis de energia, como a hidráulica, a eólica, a solar e as derivadas de cana de açúcar. No mundo, a fatia era de 3,1%.
DELEGAÇÃO MINGUADA
A falta de colegas pode ser um problema para as intenções da pasta.
Com a ausência de Lula, Fernando Haddad (Fazenda) e Marina Silva (Meio-Ambiente), entre outros nomes, o ministro está sem um reforço que poderia ser bem-vindo nas negociações.
**NÃO PRECISA MESMO?**
Não precisamos deles, e o mundo todo precisa de nós.
Foi a resposta que Donald Trump, recém-empossado presidente dos Estados Unidos, deu à repórter brasileira Raquel Krähenbühl, da Globonews, durante suas primeiras horas no Salão Oval, onde despacha suas ordens.
Eles, no caso, somos nós, brasileiros.
CONEXÕES
Quando falamos de relações entre países, sejam econômicas ou diplomáticas, não dá para saber o que aconteceria ao tirar alguma peça do tabuleiro. O que podemos observar é como esses países interagem hoje.
Em 2024, as vendas dos brasileiros para os americanos bateram o patamar dos US$ 40,3 bilhões (R$ 241 bilhões) pela primeira vez, segundo o Monitor do Comércio Brasil-EUA, da Amcham.
Os EUA são o principal destino das exportações industriais brasileiras (recebe 17,4% delas), na frente da União Europeia e do Mercosul.
Os três produtos mais exportados pelo Brasil para eles são óleos brutos de petróleo, produtos semi-acabados de ferro ou aço e aeronaves e suas partes.
No mesmo ano, o Brasil importou US$ 40,6 bilhões dos EUA. Eles mantiveram-se como a segunda principal origem das importações brasileiras (a primeira é a China).
Os três produtos mais importados pelo Brasil dos EUA são motores e máquinas não elétricos, óleos combustíveis de petróleo e aeronaves.
O QUE DÁ PARA DIZER?
Apesar de a diferença entre o que o Brasil comprou dos americanos e o que vendeu para eles seja pequena, há uma diferença na magnitude do impacto.
Os EUA são o nosso segundo maior parceiro comercial, e o Brasil não entra nem na lista dos cinco maiores importadores deles.
MAS…
o Brasil não é um parceiro comercial a ser dispensado. Como a maior economia da América Latina, o país tem um potencial de exportação que interessa (e muito) aos americanos.
NEM LIGOU
Ele [Trump] pode falar o que ele quiser, ele é presidente eleito dos EUA, respondeu a secretária-geral do Ministério das Relações Exteriores, a embaixadora Maria Laura da Rocha.
**R.I.P HOME-OFFICE (2020 – 2025)**
Time dos casados e dos solteiros, dos que dizem bolhacha e dos que falam biscoito, dos que querem trabalhar em casa e dos que amam o presencial. Essas são formas de dividir a população.
Se durante a pandemia a balança pendia para o lado dos que gostam do teletrabalho mais por razões de segurança do que de gosto, ela está começando a cair para o outro.
NOVA ORDEM
Os funcionários da Amazon foram avisados em setembro de que teriam de trabalhar cinco dias por semana nas baias a partir de janeiro. O início da medida foi adiado por falta de espaço para todos os funcionários, mas a intenção permanece.
O movimento foi seguido por AT&T, J.P. Morgan, WPP e outras empresas de grande porte.
Donald Trump também colocou os funcionários públicos americanos no mesmo cesto: assinou na segunda-feira (20) uma ação executiva que instrui as agências federais a determinarem a volta dos funcionários ao trabalho presencial integral.
POR QUE?
Empresas argumentam que há melhor integração da equipe, maior produtividade e concentração com todos no mesmo local. Tem outro motivo
Reportagem do Financial Times relata que companhias querem mostrar suas sedes imponentes, com muitos prédios, locais para eventos e funcionários circulando, que são muitos.
Um exemplo disso seria o banco americano J.P. Morgan, que inaugura uma nova sede global em Nova York em um ano.
Os líderes detestam ver cadeiras vazias sabendo quanto custa esse espaço, diz Iain Shorthose, especialista em experiências de escritório da Paragon Workplace Solutions.
Contra a corrente. Falamos sobre o caso do Spotify na edição do dia 9 de janeiro desta newsletter. A plataforma de streaming optou por deixar seus funcionários livres para escolher entre casa e centro comercial.
MUDANÇAS
Pensar em retorno ao presencial também é pensar em mudanças na vida urbana. O perfil do trânsito em São Paulo mudou, por exemplo, depois da pandemia.
Os congestionamentos ficaram menos intensos nos dois primeiros dias úteis da semana nas rodovias que desembocam na capital.
As sedes das empresas, em geral, ficam concentradas em alguns bairros como o Itaim Bibi, em SP. Uma volta total às baias significa aumentar o fluxo de pessoas nessas regiões, que mudou nos últimos cinco anos.
**O QUE MAIS VOCÊ PRECISA SABER**
MINERAÇÃO
Mineradora saudita nega investimento de R$ 8 bi anunciado por Alexandre Silveira. Ministro de Minas e Energia falou sobre supostos recursos em evento na semana passada, em Riad.
FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL
Problema de déficit do Brasil é pequeno e só requer alguma disciplina, diz André Esteves. Em painel sobre endividamento no fórum de Davos, banqueiro disse não ver grande desequilíbrio macroeconômico.
CANADÁ
Canadá responderá com firmeza se EUA impuserem tarifas de importação, diz premiê. Premiê canadense promete resposta rápida e robusta caso Trump cumpra promessa feita na posse.
TIKTOK
Trump diz que está aberto à compra do TikTok por Musk se bilionário tiver interesse. Presidente dos EUA assinou na segunda medida que adia banimento do app em 75 dias.