A diplomacia de Dilma: uma reconstrução inacabada e imperfeita

Comparada às expectativas de mudança, a diplomacia de Dilma deixa a impressão de obra de reconstrução parcial e frustrante: retificou alguns aspectos, mas no essencial, não soube aproveitar as oportunidades para alcançar resultados concretos e duradouros.

Rubens Ricupero
31/Out/2014
  • btn-whatsapp

Embora Dilma não pudesse se dissociar da diplomacia de Lula de modo explícito, parecia claro, no início do governo, que ela buscaria corrigir o que já em 2010 se tornara alvo de crítica geral: o excesso de protagonismo presidencial, a diplomacia de gestos publicitários e vazios de substância, as iniciativas temerárias em áreas distantes das prioridades brasileiras, o silêncio cúmplice em relação a regimes notoriamente ditatoriais e violadores de direitos humanos, a inspiração ideológica e sectária da política externa.

Adivinhava-se também a intenção de consertar os estragos no relacionamento com os Estados Unidos e interpretava-se nesse sentido a escolha como novo chanceler de Antonio Patriota, então embaixador em Washington.

Dando balanço no quadriênio, reconheça-se que algo foi feito na direção certa. Parte disso não resultou de escolha, mas foi imposição da própria mudança. O exemplo mais claro decorre da retirada de cena de Lula, cujo carisma não tinha como transferir-se à sucessora. Desapareceu o protagonismo, o personalismo exagerado, a diplomacia centrada na figura e na biografia do presidente. O estilo diplomático tornou-se em geral mais sóbrio. ?Outra modificação bem-vinda consistiu no retorno (relativo) à defesa dos direitos humanos e no distanciamento de regimes como o do Irã. Esboçaram-se passos positivos para renovar o relacionamento com os EUA na base, entre outras, do programa Ciência Sem Fronteiras e colaboração em ciência e tecnologia.

A aproximação com Washington, que deve- ria constituir o carro-chefe da nova diplomacia e culminar com a visita de Estado da presidente, foi vítima da espionagem da National Security Agency. Não havia condições políticas para a visita e nesse caso não se pode censurar a decisão de suspender o esforço até que se restabeleçam condições mais propícias.

A frustração do elemento mais importante da reconstrução diplomática projeta a imagem de projeto inacabado. Dos dois elementos da fórmula de “destruição criativa” de Schumpeter, fica a sensação de que se destruiu bastante, mas não se criou o suficiente.

Da obra de demolição, resta ainda parte considerável, em especial na ideologização da política sul-americana. Não só sobrou o entulho do eixo bolivariano; acrescentaram-se monstrengos novos: a suspensão arbitrária do Paraguai do MERCOSUL como pretexto para precipitar o ingresso da Venezuela; o falso “asilo” ao senador boliviano Roger Pinto.

O que faltou edificar, porém, supera em muito o que ficou sem demolir. Esperava-se que Dilma, com fama de tecnocrata competente e objetiva, imprimisse pragmatismo a uma diplomacia visando resultados tangíveis. Des- se ponto de vista, infelizmente o panorama deixa a desejar. Nada se fez, nem mesmo em termos de tentativa, para renovar o MERCOSUL, abalado por crise de credibilidade terminal. O relacionamento comercial com o principal parceiro dentro do bloco, a Argentina, se não piorou, tampouco apresentou qualquer melhora.

Em lugar de esboçar um gesto decisivo em direção a países como o México e seus companheiros da Aliança do Pacífico – a Colômbia, o Chile, o Peru – Dilma impôs aos mexicanos uma limitação da cota automobilística similar à que os argentinos nos obrigam a engolir! É óbvio que se queremos nos integrar às cadeias mundiais de produção, temos de fazê-lo a partir de países que dispõem já de acordos de acesso aos mercados dinâmicos dos EUA e países avançados.

Nesse particular, a diplomacia sofre de paralisia e falta de imaginação criativa. Não tem outro horizonte além de uma imperfeita união aduaneira que nada fazemos para aperfeiçoar e não nos dá acesso desimpedido nem aos parceiros, quanto mais a terceiros. Somente no apagar das luzes do governo, se decidiu a retomada de negociações, iniciadas há mais de 10 anos, para um acordo de livre comércio com a União Europeia. Apesar de anunciada várias vezes, nem se conseguiu definir até agora comum posição negociadora, nem foi possível dar início efetivo às tratativas.

É verdade que deixaram de existir as condições econômicas externas e o crescimento interno que haviam criado para o Brasil na era Lula o prestígio ilustrado na famosa capa do “Economist” sobre o Cristo do Corcovado. Parcela da culpa pela destruição da imagem do País cabe ao próprio fracasso da política econômica e à aguda cri- se de competitividade a que nos conduziu.

Para terminar com nota positiva, resta esperar que os BRICS, bloco de companhias às vezes pouco frequentáveis em termos de aventuras milita- res, se resolvam na reunião de julho em Fortaleza e criar o banco de infraestrutura e o fundo de reservas em estudos. Teríamos afinal algo de pragmático e concreto a comemorar!

O Diário do Comércio permite a cópia e republicação deste conteúdo acompanhado do link original desta página.
Para mais detalhes, nosso contato é redacao@dcomercio.com.br .

 

Store in Store

Carga Pesada