A Europa não aprendeu nada
Se todos os países decidirem cortar gastos e tentarem, ao mesmo tempo, pagar suas dívidas, a renda despencará e o problema da dívida provavelmente ficará pior
Se quiser perder de vez a esperança na Europa, leia primeiro uma apresentação recente de Peter Praet, economista-chefe do Banco Central Europeu (aqui); depois, leia no Financial Times o texto de Ludger Schuhknecht, economista-chefe do ministério da Fazenda da Alemanha (aqui).
Praet nos oferece o retrato de um continente travado por uma demanda inadequada e com uma forte corrente descendente de deflação. Schuhknecht, por sua vez, diz que temos de cortar estímulos para reduzir a dívida — em outras palavras, todos os países deveriam ser como a Alemanha, que administra um imenso superávit comercial.
Se há uma coisa que deveríamos ter aprendido com a experiência dos últimos sete anos é que acumular é realmente importante. Meu gasto é sua renda, e seu gasto é a minha renda. Se todos os países decidirem cortar gastos e tentarem, ao mesmo tempo, pagar suas dívidas, a renda despencará e o problema da dívida provavelmente ficará pior.
O índice da dívida da Europa em relação ao seu PIB não está aumentando porque ela está gastando mais do que gastou durante os bons tempos. O déficit estrutural geral na zona do euro é bem pequeno hoje, muito menor do que em 2005-2007. No entanto, baixo crescimento e inflação significam que o PIB não está indo a parte alguma.
Para as autoridades alemãs, tudo isso é prova da sua virtude e da falta de virtude de todos os demais.
Isso quer dizer que ninguém fará nada diferente do que prescrevem as autoridades do BCE, as quais estão perto de descobrir como é de fato limitada a política monetária quando as taxas de juros estão muito baixas e a política fiscal segue na direção errada.
Um acordo melhorado
Já disse faz algum tempo que não vejo com muito entusiasmo a Parceria Transpacífico [TPP]. Embora não compartilhe da imensa antipatia pelo acordo demonstrada por inúmeros progressistas, para mim ele não tem tanto a ver assim com o comércio, e sim com algo que poderá fortalecer os monopólios da propriedade intelectual e a influência das empresas na solução de disputas — duas coisas, evidentemente, ruins, inclusive do ponto de vista da eficiência.
Contudo, a Casa Branca me diz que o acordo finalizado pelas autoridades é bastante diferente daquele anunciado anteriormente — o que a reação destemperada dos representantes da indústria e de parlamentares republicanos parece confirmar.
O que eu sei até agora: a indústria farmacêutica está furiosa porque a extensão dos direitos de propriedade no setor biológico é bem menor; a indústria tabagista está furiosa porque foi excluída do acordo que dirimiu a disputa; e os republicanos estão furiosos porque a proteção dada aos direitos trabalhistas foi muito maior do que eles esperavam.
Tudo isso é muito bom do meu ponto de vista, embora eu tenha de estudar com mais afinco a questão logo que os detalhes fiquem mais claros.
O que vimos até agora, vale a pena notar, é uma reação dura dos conservadores contra as melhoras obtidas. Isso me faz lembrar o trabalho de Gene Grossman e Elhanan Helpman sobre a economia política dos acordos de livre comércio (leia aqui), no qual os dois economistas concluem, com base em um modelo altamente estilizado —mas nem por isso desinteressante— sobre políticas de interesses especiais, que: "Um FTA [acordo de livre comércio] será, tudo indica, mais viável politicamente quando for, do ponto de vista social, mais danoso."
O TPP me saiu melhor do que eu esperava, o que deixou irada boa parte do Congresso.
TRADUÇÃO: A.G.MENDES


