A gafe de toga
De como um ex-ministro, que tinha ojeriza de repórteres, se traiu ao conceder uma entrevista por escrito
1-O ex-ministro da justiça de governos militares, Gama e Silva, entrou para a história da política brasileira pela porta dos fundos,como se dizia na época, por ter sido o pai do AI-5, lançado em 13 de dezembro de 1968, estopim que serviu de instrumento para fomentar cassações de mandatos de adversários do governo, prisões, torturas e mortes de "subversivos" que mofavam nos porões da ditadura.
Gama e Silva ficou em evidência e, por ser professor universitário, foi muito criticado nas concentrações de acadêmicos de duas famosas universidades, a do Largo São Francsico e a PUC.
Depois de deixar o principal ministério da ditadura militar, voltar a São Paulo, retornar à advocacia e reiniciar as aulas em universidades, o professor Gama e Silva instalou seu escritório em amplas salas de um edifício na Avenida Paulista, próximo ao Parque Trianon.
Era ali que ele se escondia da imprensa. O ex-ministro preferia encarar o diabo a ver em sua frente a figura de um jornalista.
Procurávamos diariamente o ex-ministro para falar de um aniversário importante do AI-5, mas ele se eaquivava sempre. Até o dia em que depois de muita insistência, Gama e Silva concordou em dar explicações sobre o significado do "filho bastardo" que criara, mas impondo uma condição: ele queria receber as perguntas por escrito e só aceitava dar as respostas também por escrito.
Ele temia que suas declarações fossem alteradas ou distorcidas pela imprensa.
O ex-ministro trouxe para São Paulo o hábito adquirido no ministério: não confiar em jornalistas, embora a imprensa vivesse sob a dura realidade da censura.
As perguntas a ele foram encaminhadas por dois jornais: O Globo e Jornal do Brasil, ambos do Rio Ele só atenderia as duas publicações ao mesmo tempo para evitar priorizar apenas um dos jornais.
Qual não foi a nossa surpresa quando recebemos as respostas de sua entrevista por escrito: constatamos, para espanto generalizado, que toda vez em que o ex-ministro se referia ao AI-5, por extenso, ele escrevia "Ato Inconstitucional nº 5", em vez de "Ato Institucional nº 5".
Provavelmente estivesse sob influência negativa por ter criado um monstrengo em uma das fases mais negras e cruel da política nacional.
À noite, Gama e Silva tentou "consertar" a gafe ou seu engano comprometedor, mas era tarde demais: o Jornal do Brasil já estava rodando com manchete de primeira página reproduzindo fac-simile a gafe de toga do ex-ministro.
Só que a gafe mudou de endereço, porque O Globo resolveu emendar e consertar o erro do professor. Foi o próprio Globo que alertou Gama e Silva do engano cometido.
2- Os jornais têm anunciado que o governo federal e os governos estaduais estão publicando editais de convocação de concorrência pública para a tomada de preços para a compra de alimentos e bebidas, com a finalidade de abastecer suas cozinhas.
Alimentos e bebidas são consumidos por pessoas que comem por conta do Estado e, em geral, os gastos com o abastecimento das despesas públicas são exagerados, merecendo reparos da imprensa.
É oportuno recordar, no entanto, que o Brasil já teve um presidente da República que impedia os filhos de comer e beber por conta do Estado, com a alegação de que só ele e a primeira dama tinham o direito de almoçar e jantar com dinheiro do contribuinte. Ninguém mais. Esse presidente era Rodrigues Alves, paulista da cidade de Guaratinguetá.
Como era viúvo ao assumir o cargo, o presidente escalou a filha mais velha para exercer a função de primeira dama. Os outros oito filhos é que eram impedidos de usufruir da mordomia alimentar. Como se vê, Rodrigues Alves tinha nove filhos.
Rodrigues Alves governou o Brasil de 1902 a 1906. Seu governo enfrentou uma perigosa epidemia de varíola. O presidente, porém, escapou ileso de contrair a varíola. Mas, ao se eleger presidente pela segunda vez, em 1918, ele não teve tempo de assumir o cargo, pois morreu antes da posse vítima de outra epidemia devastadora: a da gripe espanhola.
As epidemias perseguiam o presidente que, ao término de seu governo, em 1906, deixou o Palácio do Catete para voltar a São Paulo ovacionado pela população.
3- Quando Getúlio Vargas foi deposto pelos militares, em 1945, depois de imperar como ditador por 15 anos, assumiu a presidência da República o presidente do Supremo Tribunal Federal, José Linhares, o primeiro cearense a chegar à presidência.
Getúlio não tinha vice porque assumiu o governo com o golpe de 1930, quando recebeu o apoio dos estados de Minas, Paraíba e RS, para impedir a posse do presidente eleito democraticamente, o paulista Júlio Prestes. A história, portanto, registra que os mineiros, paraibanos e gaúchos trairam São Paulo e apoiaram o golpe.
José Linhares governou o País por três meses, mas teve tempo suficiente para nomear inúmeros parentes no seu governo. Ele era um amante desavergonhado do nepotismo exagerado.
Perguntado por um jornalista se não temia ser tão criticado pela imprensa por nomear tantos parentes no serviço público, José Linhares deu uma resposta corajosa, sem nenhum acanhamento, dizendo que tinha duas opções: nomear os parentes e ser criticado por um tempo pela imprensa ou não nomear ninguém e ser cobrado a vida inteira pela família.

