A pífia sinceridade oficial na economia

O Planalto, a começar da presidente, admite ter cometido erros, mas não os especifica e continua a creditar aos fatores internacionais

João Batista Natali
04/Jan/2016
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É um comportamento verbal constante: o governo federal tem admitido com frequência que errou na economia, mas não especifica quais foram esses erros e, com isso, deixa de se comprometer claramente com um cenário político para as correções.

Ainda nesta segunda-feira (04/01), o ministro-chefe da Casa Civil Jaques Wagner declarou, pelas redes sociais, que tem “plena consciência de alguns erros que cometemos e das dificuldades que precisamos vencer na economia”.

Reconheceu que isso gerou impopularidade, mas disse que ela “não é crime”, para em seguida reafirmar que o impeachment da presidente Dilma Rousseff não é justificável.

A própria presidente, em texto que publicou sexta-feira na Folha de S. Paulo, disse que foi levada a uma “revisão da estratégia econômica do país”, que coincidiu com fatores internacionais, como a queda das exportações na direção de determinados mercados [menção à China].

No finalzinho de dezembro, Jaques Wagner atribuiu “parte das” atuais dificuldades econômicas a medidas adotadas durante o primeiro mandato da presidente.

Seu antecessor na Casa Civil, Aloizio Mercadante, dissera bem antes que os problemas eram reais, mas que eles se deviam sobretudo aos efeitos do desaquecimento chinês na economia brasileira.

Há nesse conjunto de declarações uma coerência pouco sincera. Para a abertura de algum diálogo com a sociedade, a reação deveria ser a oposta.

O governo precisaria admitir, por exemplo, que provocou uma crise fiscal aguda em razão de um modelo de
conduta incompatível com a arrecadação em queda. Ou que acelerou irresponsavelmente os gastos por conta do plano de reeleição da presidente em 2014.

Até as chamadas pedaladas fiscais são objeto de versões fantasiosas. O primeiro a admitir que elas existiram foi o ex-presidente Lula. Mas ele disse que elas foram necessárias para financiar os programas sociais.

O que não é verdade, retrucou uma ONG que acompanha as finanças públicas. Dos R$ 52 bilhões dessa forma registrados, dois terços se destinaram ao BNDES e ao financiamento de projetos com juros subsidiados.

É compreensível que nenhum grupo de governantes sinta prazer em confessar de modo aberto seus próprios erros. Mas a dimensão hoje patológica do discurso oficial consiste em dividir responsabilidades com parceiros externos – a China, que vem desacelerando desde 2012 – ou então em afirmar que em nada inovou ao fazer o que já era feito por governos anteriores ou que ainda é feito pelos governos estaduais.

Não se trata, aqui, de discorrer sobre a infalibilidade do Estado ou daqueles que detêm seu comando. O problema está na busca de uma porta de saída para a crise, que é econômica e, sobretudo, política.

A presidente pode perfeitamente frear ainda na Câmara dos Deputados o processo de impeachment. E, para tanto, precisa apenas de 172 dos 513 votos em plenário. Mas tudo indica que ela permanece distante de uma maioria relativa de parlamentares.

Ou seja, pode barrar o impeachment, mas não tem como governar.

Permanecer no governo pode ter sido um objetivo de curto prazo. A médio ou longo prazo estão em jogo são os interesses nacionais. O que implica abrir canais de negociação com a oposição.

Esse diálogo supõe certos pressupostos. O primeiro deles é a honestidade. Que é o que está em falta justamente nessa sucessão de afirmações genéricas, pelas quais o Planalto, em atributo que há 13 anos lhe é atávico, demonstra alergia em assumir explicitamente suas responsabilidades.

 

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