A próxima ideia ruim: chamar os tecnocratas
Aquilo que a Europa chama de tecnocratas não são pessoas que sabem como o mundo funciona. Trata-se de pessoas que nunca mudam de opinião, por mais que as coisas deem errado
Uma das ideias que vêm circulando depois do saque de Atenas é a derrubada do partido Syriza de fora para dentro e a instalação de um governo “tecnocrata” na Grécia.
Porém, se me permitem notar, conforme já fiz anteriormente, aquilo que a Europa chama de tecnocratas não são pessoas que sabem como o mundo funciona.
Trata-se, antes, de pessoas dispostas a ratificar as fantasias já sancionadas e que nunca mudam de opinião, por mais que as coisas deem errado.
Apesar das evidências avassaladoras de que a austeridade teve precisamente o efeito devastador que os manuais de macroeconomia disseram que teria, os tecnocratas se apegam à crença da fada da confiança.
Apesar de não haver evidência alguma de que a “reforma estrutural” produz um surto significativo de desenvolvimento, sobretudo em uma economia que padece de um enorme gap de produção, eles continuam a apresentar a reforma estrutural ? principalmente sob a forma de retirada de direitos dos trabalhadores ? como panaceia para todos os males.
Apesar de um histórico evidente de insucessos no passado, essa gente continua a insistir na venda dos ativos gregos como pretensa resposta ao excesso de endividamento do país.
Em suma, aquilo que a Europa normalmente chama de tecnocrata é o que chamo de Pessoa Muito Séria, alguém que se distingue por sua fé na ortodoxia que herdou, não importam as evidências.
É como escreveu John Maynard Keynes: “Diz o senso comum que é melhor para uma reputação fracassar do jeito convencional do que ter sucesso de um modo não convencional”. Tudo indica que haverá muitos outros fracassos convencionais no futuro da Europa.
Fúria teutônica
Jacob Soll, professor da Universidade da Carolina do Sul, escreveu recentemente um artigo no New York Times sobre a ira destrutiva que viu em uma conferência alemã sobre as dificuldades do euro. Assino embaixo do que ele escreveu.
Tenho recebido ultimamente muita correspondência da Alemanha, para variar. No entanto, posso perfeitamente somá-la à cota gigantesca de correspondência cheia de ódio que a direita costuma me enviar.
Sei perfeitamente que se trata de um exemplo bastante distorcido, já que as pessoas que me escrevem são exclusivamente aquelas iradas e irracionais o suficiente para mandar as coisas que me mandam ? pensando bem, o que elas esperam conseguir com isso? Seja como for, o conteúdo é impressionante.
Basicamente, esse tipo de correspondência apresenta duas vertentes:
1. Obscenidades, tanto em inglês quanto em alemão.
2. Acusações ferozes de perseguição do tipo “você, como judeu que é, deveria saber como é perigoso demonizar um povo”. Isto porque criticar a ideologia econômica de um país seria o mesmo que declarar seu povo sub-humano.
Insisto que essas pessoas não podem ser tomadas como parâmetro. No entanto, percebe-se aí um sentimento de vitimização que me parece bastante real, o que é um problema para seus vizinhos.
TRADUÇÃO: A.G.Mendes


