A queda de Roma: esclarecendo mal-entendidos

Guerras santas, ontem e hoje

Paul Krugman
11/Dez/2015
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O Financial Times publicou recentemente uma carta magnífica do historiador David Potter corrigindo uma história mal contada em novembro pelo primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, segundo a qual os imigrantes foram os responsáveis pela queda de Roma.

De acordo com Potter: "Os 'bárbaros responsáveis' pela 'queda' do Império Romano do Ocidente no século V a.C. não eram um bando de imigrantes desesperados. Eles eram um contingente de empregados insatisfeitos."

É verdade. Vários dos grupos que invadiram o Império Romano eram originalmente clientes que haviam sido contratados, subsidiados ou subornados (é difícil saber a diferença) para servir ao império em uma época em que sua capacidade militar estava minguando.

Essa, porém, não é apenas uma história que se restringe ao império do ocidente, ou a Roma.

NADIA SHIRA COHEN/NEW YORK TIMES

Estou lendo atualmente "No caminho de Deus: as conquistas árabes e a criação de um império islâmico" [In God’s path: the Arab conquests and the creation of an Islamic Empire], de Robert G. Hoyland.

Li recentemente do mesmo autor "À sombra da espada" [In the shadow of the sword]. Os dois livros mostram a ascensão do islã como algo muito diferente do que eu e, creio também, muitas outras pessoas imaginavam.

Ocorre que, em relação ao Império Romano, não estamos falando de beduínos que, inspirados pela fé, de repente se precipitam do deserto em direção a terras desprevenidas.

Os soldados e generais que conquistaram a Pérsia e boa parte do Império Bizantino eram oriundos, muito provavelmente, sobretudo de estados-clientes há muito estabelecidos nas fronteiras persas e bizantinas ? homens que aprenderam a arte da guerra e muitas outras coisas com o povo que os havia contratado.

Primeiro, foram saqueadores atraídos pela debilidade do Império Romano; depois, conquistadores quando aquela debilidade ? exacerbada por uma guerra extenuante e destrutiva entre a Pérsia e Bizâncio ? adquiriu proporções tais que a resistência às suas incursões entrou em colapso.

Em outras palavras, as conquistas árabes foram muito parecidas com as conquistas dos visigodos no ocidente, ao menos inicialmente.

Conforme salienta Hoyland, os árabes não eram as únicas forças que faziam grandes incursões na época. Os avares, por exemplo, chegaram às muralhas de Constantinopla alguns anos antes da conquista árabe. Além disso, vários grupos turcos assolaram a Pérsia.

A diferença em relação aos árabes foi a forma como eles chegaram à unidade política e religiosa. Contudo, embora isso tenha sido uma façanha monumental de enormes consequências, foi provavelmente um processo muito mais confuso e demorado do que costumamos imaginar e que ocorreu, principalmente, depois, e não antes das conquistas iniciais.

Essa ideia de uma grande guerra santa é provavelmente uma história inventada séculos mais tarde. 

Portanto, em que medida tudo isso ajuda a esclarecer os eventos atuais? Pouco, se é que ajuda.

Estou lendo atualmente "No caminho de Deus: as conquistas árabes e a criação de um império islâmico" [In God’s path: the Arab conquests and the creation of an Islamic Empire], de Robert G. Hoyland. Li recentemente do mesmo autor "À sombra da espada" [In the shadow of the sword].

Os dois livros mostram a ascensão do islã como algo muito diferente do que eu e, creio também, muitas outras pessoas imaginavam.

Ocorre que, em relação ao Império Romano, não estamos falando de beduínos que, inspirados pela fé, de repente se precipitam do deserto em direção a terras desprevenidas.

Os soldados e generais que conquistaram a Pérsia e boa parte do Império Bizantino eram oriundos, muito provavelmente, sobretudo de estados-clientes há muito estabelecidos nas fronteiras persas e bizantinas ? homens que aprenderam a arte da guerra e muitas outras coisas com o povo que os havia contratado.

Primeiro, foram saqueadores atraídos pela debilidade do Império Romano; depois, conquistadores quando aquela debilidade ? exacerbada por uma guerra extenuante e destrutiva entre a Pérsia e Bizâncio ? adquiriu proporções tais que a resistência às suas incursões entrou em colapso.

Em outras palavras, as conquistas árabes foram muito parecidas com as conquistas dos visigodos no ocidente, ao menos inicialmente.

Conforme salienta Hoyland, os árabes não eram as únicas forças que faziam grandes incursões na época. Os avares, por exemplo, chegaram às muralhas de Constantinopla alguns anos antes da conquista árabe. Além disso, vários grupos turcos assolaram a Pérsia.

A diferença em relação aos árabes foi a forma como eles chegaram à unidade política e religiosa.

Contudo, embora isso tenha sido uma façanha monumental de enormes consequências, foi provavelmente um processo muito mais confuso e demorado do que costumamos imaginar e que ocorreu, principalmente, depois, e não antes das conquistas iniciais.

Essa ideia de uma grande guerra santa é provavelmente uma história inventada séculos mais tarde. 

Portanto, em que medida tudo isso ajuda a esclarecer os eventos atuais? Pouco, se é que ajuda.

TRADUÇÃO: A.G.Mendes

CLIQUE ABAIXO PARA LER A PÁGINA DE PAUL KRUGMAN NO THE NEW YORK TIMES [EM INGLÊS]

Krugman 12/11

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