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É falso o argumento de que o ex-ministro do STF, Joaquim Barbosa, seria o primeiro negro a ser presidente da República, caso se candidatasse e ganhasse a eleição, em 2018

Eymar Mascaro
08/Jan/2016
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Os defensores de sua candidatura admitem que Barbosa ganhou notoriedade como relator do Mensalão do PT e como presidente do Supremo, o que o tornaria em um  candidato imbatível ao Palácio do Planalto.

Caso se elegesse, no entanto, Joaquim Barbosa seria o segundo e não o primeiro negro a governar o País, porque antes dele foi presidente Nilo Peçanha, que exerceu o cargo por 17 meses, entre 1909 e 1910, após a morte do presidente Afonso Pena, ocorrida em pleno exercício do mandato.

Nilo Peçanha não conseguiu se eleger presidente, mas chegou ao Poder porque era candidato a vice na chapa do mineiro Afonso Pena.

Nascido na cidade de Campos, estado do Rio, Nilo se bacharelou em Direito pela Faculdade de Recife e, na presidência, ganhou o apelido de "moleque presepeiro", provavelmente pela prática de peraltices e presepadas condenáveis no Poder.

Exerceu um mandato sem muito brilho e sem a mesma expressão de seus antecessores, por isso, procurava criar factóides para ocupar espaços de destaque na imprensa. No cargo de presidente, ficou amigo do mais notório jornalista na época, o abolicionista José do Patrocínio, também negro como ele, e dono de jornal no Rio.

Tendo por objetivo tornar o governo de seu amigo Nilo Peçanha mais popular, José do Patrocínio criou para o presidente o slogan "Paz e Amor", que seria usado exaustivamente pelo PT, anos mais tarde, nas duas campanhas vitoriosas de Lula, as de 2002 e 2006, quando venceu nas urnas os tucanos José Serra e Geraldo Alckmin, respectivamente.

Depois da presidência, Nilo se elegeu governador no Estado do Rio de Janeiro, mas sua ambição era voltar a governar o País, tentativa que fez ao se lançar candidato na eleição de 1922, sendo derrotado por Artur Bernardes.

Nesta eleição, Nilo Peçanha foi acusado de praticar nova presepada: a de forjar durante a campanha cartas apócrifas com o nome do adversário, Artur Bernardes, que faziam críticas maldosas aos militares, fato que provocou rebeliões nos quartéis e início de um movimento que visava impedir a posse do presidente eleito.

A traquinagem de Nilo forçou Artur Bernardes a governar na beira do abismo e sob estado de sítio, motivando perseguições e prisões de adversários. O governo de Artur Bernardes foi tumultuado desde a posse, em 22, até o final do mandato, em 26.

Toda vez que se fala numa hipotética candidatura de Joaquim Barbosa ao Palácio do Planalto, políticos experientes aconselham os defensores do ex-ministro do STF, a não confiar 100% em sua vitória nas urnas, porque é muito raro ou praticamente impossível alguém ganhar eleiçaõ sem uma reserva de votos.

Ter prestígio ajuda o candidato na campanha, mas -via de regra- o voto é conquistado com a força de uma respeitável estrutura partidária, como as do PT, PSDB e também a do PMDB (em menor escala).

Para exemplificar, os marqueteiros voltam a lembrar que outros personagens na história confiaram demais no prestígio conquistado em suas atividades e se lançaram candidatos a cargos importantes, acabando por serem derrotados por falta de votos,tais como Winston Churchill, orgulho do povo inglês, que ganhou a guerra mas perdeu a eleição em seu País; também Rui Barbosa, orgulho do povo brasileiro, que perdeu duas eleições presidenciais (1910 e 1919); e Antonio Ermírio de Moraes, admirado pela população e considerado o empresário nº 1 do País, mas que foi derrotado na eleição de governador de São Paulo, em 1986.

A exemplo do que aconteceu com Joaquim Barbosa, durante o julgamento do Mensalão do PT, também o juíz Sérgio Moro, ganha notoriedade como presidente da Operação Lava-Jato, que apura corrupção no País e por ser responsável pelas prisões de políticos e empresários.

Não tardou para que surgissem vozes sugerindo que Moro ingressasse em um partido para se candidatar ao Planalto em 2018. Tal qual Joaquim Barbosa, Sérgio Moro procurou descalçar a bota eleitoral, rechaçando qualquer idéia de vir a disputar eleições, sobretudo a presidencial de 2018.

Se Joaquim Barbosa e Sérgio Moro descumprissem a promessa de não serem candidatos e resolvessem acatar a candidatura, a história teria tudo para se repetir: o povo declararia admiração pelos dois, mas elegeria ou Lula, ou Aécio, ou Serra, ou  Alckmin ou, ainda, Marina Silva.

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