A torcida ainda é grande, mas Temer não ajuda

Presidente é prejudicado pela nomeação de mais um suspeito de corrupção para o Ministério do Turismo. Imagem de refém do Congresso é ruim para as reformas que ponham o país em pé

João Batista Natali
05/Out/2016
  • btn-whatsapp
A torcida ainda é grande, mas Temer não ajuda

O presidente Michel Temer deu posse, nesta quarta-feira (05/10), ao novo ministro do Turismo, o deputado Max Beltrão (PMDB-AL). Não foi um ato corriqueiro.

Tão logo assumiu suas funções, o ministro foi cercado por jornalistas, interessados em saber sobre o inquérito que ele responde no Supremo Tribunal Federal (STF) por peculato e falsidade ideológica.

Só porque, quando prefeito do município alagoano de Coruripe, ele teria fornecido documentos falsos para "provar" que estava em dia com a Previdência de seus servidores, para com isso desbloquear repasses federais.

Há mais de dez outras denúncias e inquéritos com o nome desse afilhado de Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, e, ele próprio, com amplo dossiê judicial e que está prestes a começar a ser julgao no STF.

O primeiro ocupante do Ministério do Turismo, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), pediu demissão em junho ao ser citado em delação na Lava Jato, por ter recebido R$ 1,5 milhão por corrupção na Transpetro.

O presidente da República deveria estar mais escolado para evitar a nomeação de um novo nome comprometedor. Ele pode até argumentar que Max Beltrão foi apoiado pela bancada nordestina do PMDB na Câmara, que ganhou o ministério em queda de braço com a bancada de Minas Gerais.

Mas não seria uma boa explicação. Mesmo porque o atual governo acumula precedentes desde a interinidade – o maior deles foi a saída apressada do do senador Romero Jucá (PMDB-RR), por alguns dias ministro do Planejamento – num período em que a exigência de honestidade seria o mínimo necessário para construir uma imagem oposta à do recém-defenestrado Partido dos Trabalhadores.

Temer trabalha contra si próprio, e os efeitos foram mais uma vez demonstrados pela pesquisa que a Confederação Nacional da Indústria (CNI) encomendou ao Ibope.

Anunciada nesta terça-feira (04/10), revela que somente 14% dos brasileiros consideram o governo ótimo ou bom, contra 39% que o avaliam como ruim ou péssimo.

O presidente da República teria hoje como bônus psicológico o vazio que vem sendo gloriosa e involuntariamente cavado por seus adversários.

Há fatores imensos como o derretimento eleitoral do PT nas eleições municipais de domingo (02/10) e o novo indiciamento de Lula pela Polícia Federal, em razão de operações nebulosas em Angola

Mas há sobretudo a decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) de desaprovar as contas de 2015 da ex-presidente Dilma Rousseff, o que comprovou – desta vez tecnicamente –as pedaladas que o Senado levou em conta, no plano político, para votar o impeachment dela, em 31 de agosto.

Com o circo pegando fogo do outro lado da rua, Temer teria condições para nadar de braçadas. Mas a impressão que ele transmite é de alguém bem mais comprometido com o PMDB de reputação duvisosa – a cassação de Eduardo Cunha não bastou! – e de refém de um grupo que se beneficiaria com a "sarneyzação" do atual governo.

É um clima muito ruim para levar adiante uma agenda ambiciosa de reformas que possam colocar a economia e o país novamente de pé. A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do teto dos gastos públicos será provavelmente votada pela Câmara sem maiores contratempos.

Mas o que dizer da reforma da Previdência, complemento inadiável do reajuste fiscal, da reforma política ou da Medida Provisória (MP) da reforma do ensino ? 

A campanha "Vamos tirar o País do Vermelho e voltar a crescer", lançada nesta quarta-feira, é correta e eloquente ao quantificar os prejuízos deixados por Dilma Rousseff. Mas ela não é suficiente para legitimar o atual governo. 

Caso ele permaneça sinalizando fraquezas, a campanha não passará de uma repetição, mas com sinais trocados, da hedionda tese da "herança maldita", que o lulopetismo construiu para reescrever a história, em nome de um projeto político em nada grandioso.

FOTO: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

O Diário do Comércio permite a cópia e republicação deste conteúdo acompanhado do link original desta página.
Para mais detalhes, nosso contato é redacao@dcomercio.com.br .

Matérias relacionadas

 

Store in Store

Carga Pesada