Adhemar virou suco, e Lula virou sorvete
Aécio hesita em apoiar o impeachment para não esbarrar em 2018 com um Temer fortalecido pelo exercício da Presidência
Quando surgiu como um furacão e fenômeno político, ao assumir uma cadeira de vereador na Câmara Municipal de São Paulo, em 1947, Jânio Quadros escalou o governador na época, Adhemar de Barros, para ser a "escada" de que precisava para subir e chegar ao topo de sua ambiciosa carreira, começando pela Prefeitura da Capital em 1953, passando pelo Governo do Estado em 1954 e desembarcando na presidência da República, em 1960.
Jânio escolheu o tema da "corrupção" para destruir Adhemar, aproveitando a fama que o governador tinha do "rouba mas faz". Os janistas, como Oscar Pedroso Horta e Araripe Serpa, diziam que fariam suco de Adhemar, já que, na opinião de Jânio, de nada adiantaria combater o adhemarismo sem imolar o chefe:
Adhemar era o grande líder político em São Paulo que, com seu carisma, era capaz de eleger até "poste" com seu apoio.
Durante anos, Jânio e Adhemar se atacaram mutuamente. Os dois brigavam como gato e cachorro. Em l960, foram candidatos à presidência da República representando São Paulo.
Adhemar fazia um comício no Norte do País e prometeu à população local que, se fosse eleito, construiria na cidade um hospital com uma ala especial servindo como um hospício, para prender um louco que "na semana que vem " vai passar por aqui.
Adhemar se referia a Jânio, que tinha comício marcado no mesmo local, na semana seguinte.
Jânio, de fato, viajou para a mesma cidade para cumprir o compromisso de campanha, irritado com o adversário que o chamou de louco.
Recepcionado por grande público na praça em que fez o comício, Jânio respondeu a Adhemar, prometendo ao público que, na presidência, construiria uma penitenciária na cidade, para prender um ladrão que "na semana passada passou por aqui".
Se os janistas lutavam para fazer de Adhemar de Barros "um suco", o ex-prefeito do Rio, Cézar Maia, está pregando em seu blog que PSDB e outros partidos de oposição, precisam "derreter Lula"; como sorvete; caso contrário, pouco adiantará fragilizar o PT e destruir a imagem da presidente Dilma Rousseff.
Trocando em miúdos, o que Maia propaga, na verdade, é que se os tucanos não "matarem" Lula politicamente, a eleição presidencial de 2018 não pode ser considerada "favas contadas" pela oposição. A oposição, no momento, é favorita para ganhar a próxima eleição, mas ainda não está garantido o "já ganhou".
Se Jânio explorou durante toda sua trajetória política a imagem negativa de Adhemar de Barros, o PSDB está fazendo o mesmo, ao acusar os governos de Lula e Dilma Rousseff de serem os responsáveis pelo escândalo das propinas na Petrobrás, porque seriam os protagonistas pela indicação de diretores que se corromperam e que estão presos na Operação Lava-Jato.
A tática do PT, no entanto, é responder no mesmo diapasão, lembrando que o jornalista Paulo Francis denunciou em 1996/97 pela TV Globonews - primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso - que diretores da Petrobras estavam fazendo depósitos milionários em bancos suíços.
O ex-prefeito Cézar Maia é um dos mais categorizados especialistas em analisar pesquisas de opinião. As pesquisas atuais, do Ibope e Datafolha, apontam vitória de Aécio Neves contra Lula, num segundo turno.
É inegável que o senador mineiro esteja na frente de Lula na preferência da maioria dos eleitores, sobretudo devido ao recall da eleição do ano passado, já que a campanha de Aécio ainda está na lembrança dos eleitores.
Além disso, marqueteiros dizem que as pesquisas não podem ser feitas com apenas dois candidatos, porque podem apurar um falso resultado.
A previsão dos partidos é que a eleição de 2018 pode ser uma das mais concorridas dos últimos anos, devendo dela participar de quatro a cinco candidatos, como Lula (PT), Aécio Neves (PSDB), José Serra (PMDB), Geraldo Alckmin (PSB) e Marina Silva (Rede Sustentabilidade).
O PSDB, por exemplo, é o partido preferido pela maior parcela do eleitorado paulista, o que não deixa de ser um trunfo importante, porque São Paulo é o colégio número um do País, com cerca de 40 milhões de um total de 140 milhões de eleitores.
O ideal para os tucanos seria que o partido tivesse apenas um candidato disputando com os adversários os votos dos paulistas, mas se Aécio, Serra e Alckmin se candidatarem, haverá uma divisão de votos na área de influência dos tucanos no Estado, que pode beneficiar o principal adversário, o PT, e a própria Marina Silva.
A indecisão sobre candidaturas leva o senador Aécio Neves a ficar em dúvida se apoia ou não o impeachment da presidente Dilma Rousseff. A hesitação do senador decorre da possibilidade de Michel Temer - caso assuma a presidência- usar a máquina do Estado, a chave do cofre e a caneta cheia de tinta para fortalecer seu partido e seu candidato, uma vez que o PMDB já decidiu que vai lançar candidato próprio em 2018.
O ideal para Aécio e para o PSDB seria cassar simultaneamente a presidente e o vice, permitindo ao partido reivindicar a posse de Aécio na presidência com a justificativa de que ele foi o segundo colocado na eleição do ano passado; ou, então, pedir ao TSE a convocação de nova eleição.

