Ariadne em Brasília
Nossa sociedade, como as demais, vive também de mitos, muito bem explorados pelos políticos da hora. E qual mito se adequa a esta hora brasileira?
O mito precede a História, mas dela continua a fazer parte, como narrativa original de tudo, ligando-nos permanentemente ao passado, não importa em que presente estejamos.
O mito tem “autoridade, emoções, força sugestiva própria: um sujeito autônomo, dentro dos acontecimentos... Um mito contém um destino, mesmo quando não o descreve” (ZOJA, Luigi. História da Arrogância).
Nossa sociedade, como as demais, vive também de mitos, muito bem explorados pelos políticos da hora.
E qual mito se adequa a esta hora brasileira?
Aquiles são muitos, heróis arrependidos flechados todos no calcanhar da corrupção. Ulisses extinguiram-se os poucos, hoje vozes distantes que teimavam em instilar algum bom senso ao poder.
E faltam Hércules na praça, diante das muitas dúzias de trabalhos para colocar este Brasil em ordem.
Na falta de mitos espetaculares, quando de espetacular só temos mesmo a bandalheira, talvez caiba melhor um mito mais melancólico, mas nem por isso menos eloquente.
Ariadne, Teseu, Minotauro e Dionísio cabem bem na comédia ou na tragédia brasileira? Na mitologia, quem mostrou ao herói a maneira de matar o monstro que iria devorá-lo? Quem abandonou a quem o salvou? Quem se ocultava no esconderijo perfeito, devorando todos que por lá se aventuravam? Quem salvou o salvador abandonado?
A comicidade dos personagens e suas falas não escondem a tragédia do Brasil. Responsabilidades são negadas à revelia dos fatos, posições se invertem ao sabor dos interesses e a verdade se dilui em labirintos.
E assim vai se alargando o abismo entre a realidade e a narrativa, entre a sociedade e o poder, a cada dia raptando-se a verdade e sequestrando-se o senso comum.
Na mitologia, é incerto o destino de Ariadne, a princesa de Creta que mostrou a Teseu como matar o Minotauro no Labirinto, depois abandonada pelo herói e desposada por Dionísio.
Dos seus muitos destinos, o melhor é a possibilidade de escolhermos qualquer um deles, a grande novidade do livre arbítrio por nós conquistada alguns milhares de anos depois.
Mas, qualquer que tenha sido o seu destino, ela terminou coroada com a obra-prima em ouro da forja divina de Vulcano. É o destino final e bom que o mito da princesa nos faculta.
Bem distinto do destino certo e trágico de Teseu, preso a uma rocha e condenado a repetir, por toda eternidade, às sombras do inferno: “aprendei com o meu exemplo a não ser injusto...”.
Oscila o Brasil entre um e outro, prestes a abandonar a única coisa que pode salvá-lo: Justiça.
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