Boca torta
FHC, Lula e Dilma Rousseff na presidência da República nada fizeram para tocar em frente o pedido de taxação das grandes fortunas
"Andarilhos" tucanos ou coxinhas -como dizem os petistas- que estiveram recentemente no Congresso para referendar o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff e que continuam engrossando as manifestações contra o governo do PT, pensam agora em promover uma nova empreitada de protestos, em Brasília, caso deputados e senadores ameaçem votar o projeto que taxa as grandes fortunas. O alvo dos "andarilhos" são os parlamentares indistintamente, mas de preferência colocando na alça de mira os deputados e senadores do PT.
Desconhecendo a verdadeira origem do fantasmagórico projeto, os "andarilhos" cometem um grande equívoco acusando o PT de ter tido a idéia de arrancar mais dinheiro em impostos dos brasileiros endinheirados.
Bater panelas, nesse caso, contra os petistas,é dar razão àqueles que acusam o PSDB de perseguir o PT, endossando o ditado de que o uso do cachimbo faz a boca torta.
Antes de se reunir nos gramados do Congresso, para dar vazão a seu protesto, o grupo deveria se concentrar, primeiro, na rua Rio de Janeiro, a mais procurada e cobiçada pelos milionários, que fica no aristocrático bairro de Higienópolis, em São Paulo, de preferência em frente ao prédio onde mora o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Foi FHC que, em 1989, como senador eleito da República, decidiu ser o autor do projeto que "esfola" os "donos" de grandes fortunas. Nessa época, ele gozava da fama de ser um brilhante intelectual e professor emérito da USP, que trazia das reuniões que presidia no Cebrap, a fama de conduzir com competência as célebres reuniões de inteletucais que debatiam temas polêmicos, como, por exemplo, o marxismo. O Cebrap é um centro de inteligência por excelência que reúne a nata dos intelectuais em São Paulo.
Ter sido presidente do Cebrap por muitos anos, levou FHC a se auto-exilar em Paris para fugir da fúria dos militares "revolucionários" de 64, que caçavam "subversivos" por todos os lugares. Em Paris, Fernando Henrique estreitou suas ligações com outros intelectuais de esquerda de outros países, como com o ex-1º ministro de Portugal, Mário Soares, e com o ex 1º ministro da Espanha, Felipe Gonzalez. Todos eles deram aulas na Sorbone dos grandes mestres.
O mundo girou e, em 1994, Fernando Henrique se elegeu presidente do Brasil pela primeira vez, impondo a primeira derrota a Lula, e repetindo a dose quando se reelegeu em 1998; mas, em nenhum momento nos oito anos em que respondeu pelo poder, FHC tomou a iniciativa de usar o cargo e a força política que todo presidente conquista, para estimular a aprovação de seu polêmico projeto no Congresso.
O então presidente Fernando Henrique sucumbiu às pressões que vieram de fora contra a taxação das grandes fortunas. Ele passou os oito anos na presidência ignorando seu odioso projeto.
O projeto de Fernando Henrique chegou a ser aprovado no Senado; mas, há 15 anos, espera por votação na Câmara. Depois de sua iniciativa, em 1989, outros três projetos semelhantes foram encaminhados no Congresso: em 2008, um de autoria da deputada Luciana Genro, do Psol do RS; outro em 1912, encaminhado pelo deputado Paulo Teixeira, do PT de SP; e, finalmente, o mais recente deles apresentado pela deputada Jandira Feghali, do PC do B do RJ, já em 2015.
Ainda está na memória dos eleitores a célebre frase de Fernando Henrique dita após ser eleito presidente da República: "esqueçam o que escrevi". A frase, portanto, pode ser aplicada no caso do projeto que apresentou quando era senador e que tantas polêmicas ainda vai provocar, se vier a ser votado no plenário das duas Casas do Congresso.
Hoje, FHC admitiria que sua iniciativa como senador de primeira viagem foi equivocada e que, por um descuido, acabou escorregando em casca de banana. Getúlio Vargas, aliás, já dizia quie melhor do que colocar cerca de arame farpado é espalhar pelo chão cascas de banana. "Os ingênuos acabam escorregando nelas"-´sentenciava o ex-presidente.
Além de FHC, também Lula e Dilma Rousseff na presidência da República nada fizeram para tocar em frente o pedido de taxação das grandes fortunas, provavelmente porque também foram pressionados por forças externas. Recentemente, as bancadas do PT no Congresso ensaiaram apelar para que Dilma desse uma força para a aprovação do projeto, mas a presidente ignorou o apelo.
Os mais céticos falam que nem Deus acredita que o projeto seja pautado para votação no plenário do Congresso enquanto perdurar a crise, e juntificam: o presidente da Cãmara, Eduardo Cunha, está mais preocupado em torpedear o ajuste fiscal do ministro Joaquim Levy para prejudicar ainda mais a governabilidade, porque joga no time do "quanto pior, melhor".
Eduardo Cunha está mais preocupado em se desvencilhar da acusação feita por um delator na Operação Lava-Jato de que yeria recebido uma propina de US$ 5 milhões no escândalo da Petrobrás. O mesmo acontece com o presidente do Senado, Renan Calheiros que, mais uma vez, foi acusado de ter embolsado dinheiro que não era seu. Sua preocupação é se livrar do processo e não criar mais uma frente de atrito pautando para votação na sessão do Congresso o projeto das grandes fortunas.

