Bom de bico

Diante do quadro de vices que chegaram ao Poder ao longo de 126 anos de história republicana, Temer aguarda ansioso o desfecho da votação pelo Congresso do pedido de impeachment da presidente

Eymar Mascaro
06/Jan/2016
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O marechal Floriano Peixoto foi o primeiro vice-presidente a se beneficiar da vacância do cargo de presidente, tão logo o também marechal Deodoro da Fonseca renuciou à presidência da República, após sofrer forte pressão e enfrentar uma grave crise política e econômica -como a atual- que o transformou em vítima de uma conspiração que contou com a participação de militares como ele.

O manhoso Floriano era bom de bico e se elegeu vice-presidente em 1890 -um ano depois de proclamada a República- obtendo mais votos no Congresso Nacional do que o cabeça de chapa Deodoro, ocorrência que o levou a conspirar silenciosamente até chegar à presidência em 1891.

Sacudido pela pressão e pela crise, o marechal Deodoro tentou o contra-golpe como último recurso para evitar apear do Poder, fechando Câmara e Senado, enquanto seus parentes -também militares- se encarregavam de empastelar jornais na capital do País, Rio de Janeiro. Sua radicalização, contudo, apressou sua renúncia.

Pode-se dizer que em um ano na presidência, Deodoro constituiu provavelmente o mais representativo de todos os ministérios da era republicana.

No Ministério da Fazenda, por exemplo, seu ministro era Rui Barbosa; na Justiça,  Campos Sales, futuro presidente da República; o ministro de Relações Exteriores era Quintino Bocaiuva; no Ministério da Guerra estava o tenente-coronel Benjamin Constant;  e, na Marinha, o almirante Eduardo Wandenkolk.

Com exceção de Benjamin Constant -o Patriarca da República- que morreu antes da renúncia do presidente, todos os demais ministros cruzaram os braços, colaborando direta ou indiretamente com a queda de Deodoro.

Nem eles, nem o vice Floriano Peixoto atenderam a apelos para que não abandonassem o presidente naquele momento crucial de seu governo. Floriano por motivos óbvios, porque sonhava com a presidência.

Deodoro chegou a decretar a prisão de alguns conspiradores, entre eles, o contra-almirante Custódio de Melo, que fugiu antes de ser preso.

Custódio de Melo era outro militar que almejava tomar o lugar de Deodoro na presidência. Ao evitar a prisão, Custódio se refugiou no encouraçado Riachuelo que estava ancorado na Baia de Guanabara.

Voltando os canhões da embarcação para o alvo predileto, Custódio de Melo ameaçou bombardear a cidade do Rio de Janeiro, caso Deodoro não renunciasse ao mandato.  Foi ele que, com sua corajosa mas golpísta atitude antecipou a renúncia do presidente.

Desde que foi mais aplaudido do que Deodoro, na solenidade de posse, o vice Floriano Peixoto já almejava o Poder, deixando de lado o companheirismo que o ligava ao presidente: os dois ganharam a patente de marechais depois que voltaram como heróis da Guerra com o Paraguai.

Ambos, por sinal, eram alagoanos e de familias de militares. Deodoro, por exemplo, tinha oito irmãos (todos militares, sendo que três deles morreram na Guerra com o Paraguai) e duas irmãs.

No Poder, Floriano adotou uma linha de governo completamente diferente da de Deodoro. Floriano era linha dura, o contrário de Deodoro que era cortês.

O governo de Floriano -o mão de ferro- foi marcado por perseguições, prisões, torturas, mortes por fiuzilamento e deportações de adversários. Foi assim que ele completou o mandato, em 1894, iniciado por Deodoro em 1890.

Muitos anos após o governo de Floriano é que a história regsitrou outro episódio de um vice que foi beneficiado pela renúncia do presidente: Café Filho, que assumiu o governo após a queda de Getúlio Vargas, em 1954.

Café Filho, no entanto, permaneceu pouco tempo no cargo, sendo substituido por questão de saúde pelo presidente da Câmara, deputado Carlos Luz, que não chegou a esquentar a cadeira porque foi deposto ao se colocar contra a posse de Juscelino Kubistcheck, eleito em 1955.

Com a queda de Carlos Luz, assumiu a presidência o senador Nereu Ramos, que chegou a empossar JK, ganhando com isso o Ministério da Justiça.

Outro vice que chegou à presidência foi João Goulart, em 1961, favorecido pela renúncia de Jânio Quadros. Jango, contudo, foi deposto pelos militares em 1964. Diferente, no entanto, foi a chegada do vice Itamar Franco à presidência, beneficiado pela cassação do mandato do presidente Fernando Collor.

Diante do quadro de vices que chegaram ao Poder ao longo de 126 anos de história republicana, Michel Temer aguarda ansioso o desfecho da votação pelo Congresso do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Ele está de prontidão, pronto para assumir o governo se ocorrer a cassação. Seu partido, o PMDB, é considerado a peça chave na votação do processo na Câmara e Senado. O que incomoda Temer é que o partido que preside está rachado no Congresso.

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