Cala-te boca
Quando Franco Montoro se elegeu governador, em 1982, Mário Covas se serviu fartamente do "lixo autoritário" que tanto execrou
Eleito deputado federal em 1962 pelo antigo PTN, após ser derrotado na eleição para a Prefeitura de Santos, e tendo por base eleitoral a Baixada Santista, o engenheiro Mário Covas foi um dos mais eficientes líderes de bancada no Congresso Nacional. E, já na condição de líder da bancada do MDB e conduzindo um grupo minoritário de 125 deputados, contra mais de 300 da Arena -partido na "Revolução" de 1964, Covas conseguiu impor contundente derrota ao governo militar, mas teve, como revanche imediata, o fechamento do Congresso e algumas prisões de deputados.
O governo militar havia encaminhado um pedido de autorização da Câmara para processar o deputado Márcio Moreira Alves que, dias antes, fizera violento discurso contra os militares. O governo confiava na aprovação de seu pedido porque contava com maioria de votos na Câmara; mas, com um discurso inflamado e feliz, Covas foi tão convincente que virou o jogo e derrotou os militares, para surpresa até de seu partido.
Com o fechamento do Congresso e sendo caçado pela polícia e Forças Armadas, Marcito – como era tratado pelos colegas – fugiu e, durante muitos anos, se escondeu sem que ninguém soubesse onde estava. Para quem ainda não sabe, podemos informar que foi Mário Covas quem pediu ao ex-prefeito de Campinas, José Roberto Magalhães Teixeira, o Grama, que escondesse o deputado. Covas escolheu Campinas para esconder o colega por ser um lugar de fuga mais fácil, graças ao Aeroporto de Viracopos.
Sua vitória contra os militares foi o ponto de partida para projetar Covas nacionalmente e, a partir do episódio Marcito, ele passou a ser um dos críticos mais mordazes do regime militarista.
Denunciava, em todos os discursos que fazia, que o País vivia sob a égide do "lixo autoritário". Covas denunciou como nenhum outro oposicionista o fizera, no entanto, foi do tal do "lixo autoritário" legado ao País pelos "revolucionários" que ele precisou para satisfazer seu apetite de Poder.
Detalhe: Mário Covas foi preso na Base Aérea de Cumbica. Era tão viciado em fumar cigarros que chegou a ameaçar bater a cabeça contra as grades da cela, a ponto de convencer o coronel que o acompanhava a devolver seu maço de cigarro. Depois que enfartou por conta do fumo, Covas largou do vício, mas vivia constantemente com um cigarro apagado no canto boca.
O tempo passou e Covas cumpriu o ostracismo da cassação mas, quando Franco Montoro se elegeu governador, em 1982, Mário Covas se serviu fartamente do "lixo autoritário" que tanto execrou. Foi assim: naquela época, cabia aos governadores indicar os prefeitos das capitais e Montoro indicou Covas para a Prefeitura de São Paulo, usando o sistema biônico e anti-democrático do "lixão". Covas, docemente constrangido, aceitou a indicação e exerceu o mandato de prefeito sem ter recebido um único voto democrático do eleitor.
Um outro caso curioso que espelha a esperteza política no Brasil ocorreu quando Paulo Maluf era governador e decidiu construir o Aeroporto de Cumbica. Sua idéia foi imediatamente reprovada pelo PMDB, sendo líder do movimento contra Maluf o senador Franco Montoro.
Montoro foi pungente em suas críticas ao governador e sua campanha foi tão radical contra a construção do Aeroporto de Cumbica, que chegou a apoiar uma ação popular movida contra Maluf.
Um dos argumentos usados era que o local em que o aeroporto seria construído era inadequado por ser uma região dominada por excesso de neblina e reduto de pássaros que colocavam as aeronaves em perigo. Além de Montoro, havia também a oposição à construção da obra em Cumbica daqueles que preferiam gastar o dinheiro na modernização do Aeroporto de Viracopos, em Campinas.
Teimoso como é, Maluf enfrentou a oposição e, aos trancos e barrancos, ergueu Cumbica. Depois da obra pronta, o PMDB manobrou e espertalhão conseguiu batizar o novo aeroporto com o seguinte nome: "Aeroporto Internacional Governador André Franco Montoro".

