Cartão vermelho
Como um vereador desengonçado, cabeludo e caspento impediu que a cidade perdesse seu pulmão, o Parque Ibirapuera
Misterioso projeto de lei correu pauta na Câmara de Vereadores de São Paulo, nos anos 40, propondo a construção de um estádio de futebol na área verde que hoje é ocupada pelo Parque Ibirapuera, o pulmão por onde respira a cidade e ponto de encontro de pessoas nos fins de semana de lazer.
Naquela época, a área do parque englobava também os terrenos onde atualmente funcionam o prédio da Assembléia Legislativa e o Círculo Militar, incluindo até a área do Comando do II Exército. Ainda não existia, portanto, a avenida que passa em frente ao legislativo estadual. Tudo aquilo era uma gleba só.
E, nessa área imensa coberta pelo verde e onde cantam os pássaros e circulam aves pernaltas, é que os vereadores lobistas -ou propineiros- queriam erguer um estádio nos moldes do Pacaembu.
Inexplicavelmente, o projeto tinha o apoio de considerável número de vereadores e a cidade corria o risco de perder sua mais importante área de lazer.
Mas, um jovem vereador desengonçado, cabeludo e caspento, que iniciava a carreira política e atendia pelo estranho nome de Jânio Quadros, livrou a cidade de conviver com um fantasmagórico monstrengo de cimento armado, um autêncito elefante branco,um verdadeiro sumidouro do dinheiro público, como tantos outros que existem pelo País afora.
Era evidente que os vereadores que apoiavam o projeto estavam engajados nos interesses comercial e imobiliário des espertalhões que o povo costuma chamar de inescrupulosos. Eram políticos da época que corriam atrás do dinheiro fácil e suado que saia do bolso do contribuinte.
A luta foi dramática: durante as sessões agitadas, o vereador Jânio Quadros ficava horas a fio discursando em plenário, para evitar que o projeto fosse à votação. É a mesma coisa que o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, faz hoje, na Comissão de Ética, para impedir que o projeto de sua cassação por falta de decoro, seja votado e encaminhado para julgamento do plenário. A diferença era que Jânio defendia uma causa nobre.
Numa das muitas sessões tumultuadas e tensas, Jânio irritou tanto os defensores do projeto, com seus longos e atraentes discursos, que um vereador desequilibrado emocionalmente desferiu violento soco em seu rosto.
O sangue escorria pelo canto da boca ferida e era tudo o que Jânio queria, para dar ao projeto um enterro de terceira categoria. Jânio lambuzou a mão e manchou todas as folhas do projeto com seu sangue, e a matéria nunca foi votada. Ele deu cartão vermelho para todos os vereadores favoráveis ao projeto, evitando que a turma da pesada desse um chute nos fundilhos do povo.
Detalhe: naquela época, a Câmara de Vereadores de São Paulo funcionava em um prédio localizado na rua Líbero Badaró e as pessoas que passavam pelas imediações assistiam, curiosos, a uma cena até então inusitada: o vereador Jânio Quadros sentado em uma cadeira que colocava na calçada juinto a uma mesinha, que servia de apoio nos despachos diários que alimentava com populares que levavam a ele, e não ao prefeito, as reivindicações de seus bairros.Jânio fazia as vezes do prefeito da cidade, mas, ainda não tinha sido eleito para a Prefeitura.
As filas de populares aumentavam dia a dia e Jânio anotava todas as reclamações que recebia, aproveitando para catalogar no seu arquivo particular, o nome da pessoa, seu endereço e local de votação. Em pouico tempo, ele arquivou os nomes de milhares de eleitores que o ajudaram a chegar onde chegou.
As reclamações que recebia, Jânio encaminhava para o verdadeiro prefeito, sempre acompanhado de seus famosos bilhetinhos, que acabaram fazendo história e virando livro.
Foi assim que conseguiu enriquecer sua lista com milhares de eleitores que, mais tarde, se transformaram em verdadeiros cabos eleitorais, sendo decisivos na sua eleição para a Prefeitura de São Paulo. Ele se elegeu prefeito em 1953 e, nem bem havia esquentado a cadeira na Prefeitura, foi "convocado" pela população para se candidatar a governador um ano depois, em 1954. Sua fama corria solta por todo o interior do Estado e outras regiões do País.
Quis o destino que, como prefeito, Jânio conduzisse o ínício das festividades do IV Centenário da Cidade de São Paulo, centralizadas no Parque Ibirapuera, o mesmo pulmão verde que salvara da destruição alguns anos antes.
Já nessa época, Jânio Quadros integrava o fã clube do ex-presidente dos Estados Unidos, Abrahan Lincoln, biografia que lia e relia sem parar. Em sua mesa de trabalho, na Prefeitura, Governo do Estado e Presidência da República, o que mais se destacava era um pequeno busto de Lincoln.
Mas,apesar de sua admiração pelo ex-presidente dos EUA, assassinado num teatro, Jânio alimentava o sonho de um dia morar na cidade que era sua eterna namorada: Londres.

