Coisas de Satanás
Jânio Quadros, quando pela segunda vez prefeito de São Paulo, recorreu a curioso subterfúgio para desocupar uma área ocupada por favelados
Assim que assumiu a Prefeitura de São Paulo, em 1985, após derrotar na tangente o forte candidato do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, Jânio Quadros tomou uma decisão irreversível: demolir uma inconveniente favela que existia (e enfeiava) na moderna e vistosa avenida Juscelino Kubtschek, que corta com sua imponência todo o bairro do Itaim-Bibi, passando pelo Parque do Povo e morrendo na Marginal Pinheiros.
Desde a primeira vez em que foi prefeito da Capital, em 1953, Jânio adquiriu o hábito de fiscalizar ruas e avenidas enquanto transitava pela cidade.
Quando via que algum comerciante estava desrespeitando as normas municipais, ele mandava o motorista parar o carro e, com um talão na mão, multava o proprietário do estabelecimento e passava nele uma boa descompostura.
No caso da favela da JK, ele encontrou muita dificuldade na remoção dos favelados para outro local da cidade, mesmo com a garantia de que se instalariam em novo terreno cedido pela Prefeitura.
Todas as condições oferecidas pelo prefeito foram rechaçadas pelas lideranças que falavam em nome dos favelados. Uma das últimas tentativas de Jânio foi convidar um padre para servir de negociador entre as partes: o prefeito tinha a informação de que os favelados, em geral, atendiam aos apelos dos sacerdotes.
Diversos padres foram consultados por assessores de Jânio, mas nenhum deles aceitou enfrentar o desafio, porque diziam que a Igreja era contra desalojar as famílias da pomposa avenida, onde estavam enraizadas por muito tempo.
Diante do impasse, um dos assessores criou coragem e convenceu Jânio Quadros a tomar uma atitude nada usual para um cristão exigente e ex-presidente da República: o conselho do assessor era para a Prefeitura comprar uma batina e contratar alguém corajoso e destemido que aceitasse representar o papel de um padre de mentira, ou, um falso padre pecador.
Quem aceitou a missão diabólica, provavelmente em troca de alguns trocados, foi um ex-jogador de futebol que, havia uns 40 ou 50 anos, brilhara com seu futebol-arte em campos europeus, principalmente na França.
O falso padre conseguiu convencer os favelados a deixar a avenida e a favela da JK foi, enfim, desmantelada. Além do terreno doado, os favelados ergueram suas casas de tábua com o prometido material e dinheiro da Prefeitura.
Jânio Quadros foi presidente da República apenas por sete meses, mas viveu momentos surpreendentes até a renúncia, em 24 de agosto (Dia do Soldado) de 1961. Um desses momentos foi registrado no dia em que recebeu em seu gabinete um governador que desejava fazer algumas reivindicações ao governo federal para a construção de obras em seu Estado.
Ao entrar no gabinete presidencial, o governador em questão estava acompanhado de uma jovem que mais tarde Jânio a definiria assim: "atraente, esguia e um verdadeiro padrão de beleza".
O diálogo entre presidente e governador foi amistoso e, depois que as reivindicações foram feitas, chegou o momento quente da surpresa: o governador disse ao presidente que sua cobiçada filha gostaria de passar uma semana em Brasília para conhecer os pontos turísticos da capital do País.
Em seguida, o governador pediu que sua filha ficasse sob os "cuidados especiais" do presidente. Jânio, no entanto, jamais revelou o nome do governador e nem desfez nossa curiosidade em saber se ele desceu do pódio para se tornar cicerone por uma semana, despido da faixa presidencial.
Um outro episódio patrocinado por Jânio no curto tempo de Presidência e que surpreendeu o País foi a iniciativa que teve de condecorar Che Guevara, que vivia da glória de ter participado da vitoriosa revolução comunista em Cuba, ao lado de Fidel Castro, desalojando do Poder o também ditador Fulgêncio Batista.
O jornalista Murilo Antunes Alves, que exercia a função de assessor especial de Jânio, nos revelou mais tarde que Che Guevara foi acomodado numa sala anexa ao gabinete presidencial, à espera de ser recebido e condecorado por Jânio.
Enquanto a comenda não vinha, Che passou todos os minutos na sala de espera vistoriando ao redor de onde estava sentado, provavelmente com medo de ser surpreendido por algum atentado a bomba.
O momento de maior tensão - segundo Murilo - foi quando o agente de segurança do Palácio do Planalto exigiu que Che lhe entregasse a arma que carregava na cintura, antes de entrar no gabinete do presidente.

