"Com avanço da IA, o Estado terá de promover o letramento digital da população"

Para Marcelo Pedroso, coordenador da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do estado de São Paulo, o poder público deve ajudar a população a migrar para novas funções estratégicas e analíticas que a IA não pode replicar

Mariana Missiaggia
09/Jun/2026
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"Com avanço da IA, o Estado terá de promover o letramento digital da população"

A velocidade com que as empresas brasileiras estão adotando a inteligência artificial (IA) no dia a dia tem redesenhado a jornada de trabalho de quem senta atrás de um computador. Essa mudança, segundo o coordenador da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do estado de São Paulo, Marcelo Caldeira Pedroso, pode ser comparada com a Revolução Industrial.

Ele lembrou que, nos séculos XVIII e XIX, o impacto concentrou-se no chamado "colarinho azul" (os trabalhadores do chão de fábrica), cujas funções manuais foram substituídas por máquinas. O processo foi lento, demorou décadas, permitindo que a sociedade se adaptasse e criasse, quase do zero, a economia de serviços para absorver essas pessoas, disse em entrevista ao Diário do Comércio durante o seminário "IA e o Futuro do Brasil", realizado pelo Conselho de Inovação (Conin) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) na semana passada.

Agora, o fenômeno atinge o "colarinho branco", ou seja, o trabalho administrativo, burocrático e rotineiro – e a dinâmica é inversa e muito mais veloz, ele diz. Nesse cenário, o coordenador explica que o efeito de curto prazo tende a ser o desemprego ou a redução de postos em funções específicas, pois processos que antes demandavam três pessoas passam a ser liquidados por uma pessoa operando uma IA.

No entanto, o Pedroso diz que o histórico econômico mostra que, no longo prazo, há um movimento natural de realocação. "O que os estudos mostram é que o salário médio dessas pessoas tende a crescer com o tempo. É um efeito colateral de curto prazo, mas depois o desenvolvimento econômico reacomoda um padrão médio salarial que seja maior", contextualiza.

O coordenador aponta também que o grande divisor de águas atual não é mais a capacidade da tecnologia, mas a sua taxa de adoção. "Uma coisa é desenvolver tecnologia rapidamente, outra é aderir. E as empresas estão aderindo muito rapidamente."

O fenômeno, segundo Pedroso, é impulsionado por uma democratização financeira agressiva, pois, hoje, as chamadas big techs colocam sistemas fundacionais robustos na mesa de qualquer microempresa. Funções e automações que antes exigiam softwares corporativos de milhões de reais agora estão acessíveis a qualquer CNPJ.

“O que antes levava gerações para mudar, hoje acontece no intervalo de alguns trimestres. A IA tem uma velocidade tão impressionante que, muito possivelmente, esse efeito tende a ser mais concentrado e mais forte", analisa.

Entretanto, se, em parte, a barreira financeira de entrada vai ficando para trás, o coordenador destaca que o ganho financeiro e operacional depende de um fator humano essencial: o letramento digital. Assim como aconteceu com a popularização da internet, o avanço da IA exige que a população aprenda a interagir com essas novas ferramentas. Da perspectiva de políticas públicas, ele aponta que favorecer esse acesso e o aprendizado prático é um dos papéis centrais do Estado.

Diante de um fenômeno global e inevitável, Pedroso argumenta que tentar criar barreiras ou regulamentações que freiem essa onda é uma ilusão. Nesse avanço, ele reflete que o papel do Estado deixa de ser o de "fiscal" e passa a ser o de “amortecedor social”. A preocupação central dos governantes deve ser humanitária e social ao gerenciar essa transição para que ela seja o menos traumática possível, minimizando os impactos sociais negativos para aqueles que sentem, diretamente na pele, os efeitos dessa nova revolução do trabalho.

“O foco absoluto precisa ser o letramento digital e a requalificação rápida desse trabalhador de escritório. Só o aumento expressivo da capacidade técnica humana permitirá que essas pessoas saltem de funções automatizáveis para cargos analíticos e estratégicos antes de serem engolidas pela próxima atualização de software. O desafio não é tecnológico, é de sobrevivência de mercado.”

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IMAGEM: Andre Lessa/DC

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