Como envelheceram os conflitos do 1o de Maio

Mobilizações do final do século 19 buscavam metas - como a semana de 48 horas - hoje amplamente conquistadas

João Batista Natali
01/Mai/2015
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Foi no final do século 19 que o 1º de Maio se tornou o Dia do Trabalho – a data se desloca para setembro em países como os Estados Unidos, Canadá, parte da Austrália e Nova Zelândia.

Naquela época, os conflitos atingiam um estágio particularmente agudo entre as empresas e os assalariados. Os sindicatos reivindicavam um regime hoje consensualmente alcançado por qualquer legislação trabalhista, como a adoção de uma jornada de trabalho mais humana. O plano era então de 48 horas semanais, e isso com oito horas de expediente aos sábados.

O fato é que uma reivindicação hoje tão básica gerou episódios de grande impacto e violência, como o da praça Haymarket, em Chicago, em 1886, que terminou com sete policiais e quatro civis mortos.

Foi também em Chicago que eclodiu, em 1894, a chamada greve Pullman, que paralisou boa parte das estradas-de-ferro americanas e levou o presidente Grover Cleveland a reprimi-la com tropas federais.

Em 1889, em Paris, durante as comemorações do centenário da Revolução Francesa, os dirigentes da 2ª Internacional, que foi um movimento bem mais político que sindical, propuseram o 1º de Maio como a data anual de greves e manifestações.

Numa espécie de prelúdio da Guerra Fria, o que entrou na pauta sindical, em torno da passagem para o século 20, foi a própria a economia de mercado, atacada por uma miríade de partidos e tendências hoje praticamente extinta ou inoperante.

Mas, nas décadas seguintes, as sucessivas pautas de reivindicações foram objetos de acordos, que geraram salários cada vez maiores. Com isso, o mercado se ampliou superlativamente, para o benefício também das empresas.

O fato, no entanto, é que o 1º de Maio já estava anteriormente revestido de outras significações. No Hemisfério Norte, a data define o meio da primavera, e o dia 1º marca em alguns países o final das férias escolares da estação.    

É ainda uma data particularmente associada a flores específicas na França, hoje com o pequeno e frágil lírio-do-vale (muguet), de cor branca, antes que caisse em desuso simbolico a pequena eglantine, uma rosa silvestre vermelha. Na Alemanha, a flor era o cravo.

Nos Estados Unidos, o 1o de Maio definia o início do ano fiscal e contábil das empresas. A questão se associava diretamente aos assalariados porque expiravam os contratos anuais de trabalho, levando multidões a procurarem e a trocarem de empregos. Era o chamado moving day.

A data deixou aos poucos de ser propriedade dos sindicatos para entrar no calendário das festividades oficiais. Em 1919, por exemplo, o Senado francês presenteou os trabalhadores com um feriado de 1o de Maio. No ano seguinte – o que foi bem mais previsível – o mesmo aconteceu na Rússia soviética.

A igreja católica, sem muito sucesso, embarcou só bem mais tarde nas comemorações. Mais precisamente em 1955, quando o papa Pio 12 instituiu no 1o de Maio a festa de São José, que também foi artesão e marceneiro.

Entre as ditaduras de direita as reações não foram nem sempre as mesmas. A Itália fascista deslocou o 1o de Maio para o 21 de abril. Mussolini evitava evocar a data propagada pelos socialistas.

Mas o Dia do Trabalho foi mantido na França, durante a ocupação nazista, e, sobretudo, cultivado pelo Estado Novo, no Brasil (1937-1945).

Para nós, brasileiros, esse é um capítulo à parte. Os anarquistas, formados sobretudo por operários imigrantes, foram os responsáveis pela grande greve de 1917 e comemoravam o 1o de Maio como uma data que estimulava seu projeto revolucionário. A Velha República recuperou rapidamente o simbolismo crescente. Em 1925, o presidente Artur Bernardes declarou o feriado anual e o Dia do Trabalho.

Getúlio Vargas se apropriou da data por etapas. No primeiro período da chamada Era Vargas (1930-1937), o governo adotou uma postura de defesa. Estava sob o ataque de uma esquerda bem minoritária, tanto quanto os operários de um país ainda pouco industrializado.

Mas no segundo período (1937-1945), com o Estado Novo, Getúlio se tornou uma espécie de mestre-de-cerimônias da classe trabalhadora. Ele a organizou para, por meio do trabalhismo, torná-la uma aliada.

Com essa oficialização, operada com o auxílio de um enorme aparato propagandistico, o Estado Novo transferiu para o campo oficial, por meio de festas que o governo patrocinava, uma comemoração que os antigos partidos e sindicatos pretendiam manter como um jogo de greves e piquetes.

Passaram-se mais algumas décadas e essa simbiose entre governo e Dia do Trabalho sobreviveu com nova configuração. Tem-se o PT e a CUT, um no governo e a outra no controle de parte dos sindicatos. E o Dia do Trabalho continuou a ser, com novo vigor, como um dia de comemoração "oficial".

A partir dos anos 1990 o Brasil transformou o Dia do Trabalho numa espécie de grande quermesse, com shows de cantores conhecidos e sorteios de casas ou automóveis para atrair a multidão.

Por fim, e voltando ao plano mundial, o Dia do Trabalho não é feriado e é oficialmente ignorado em pouquíssimos países do mundo, como a Arábia Saudita, a Mongolia ou a Dinamarca, que arrasta para essa particularidade sua possessão americana, a Groenlândia.

 

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