Como os brasileiros do 3G estão mudando as práticas de negócios nos EUA

A Anheuser-Busch e a Heinz, controladas por Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles (da esq.para dir.), alargam o prazo de pagamento aos fornecedores, e são seguidas por outras gigantes do setor alimentício

The New York Times
25/Abr/2015
  • btn-whatsapp
Como os brasileiros do 3G estão mudando as práticas de negócios nos EUA

Por Stephanie Strom

Que tal ter 120 dias para pagar seus credores? Adotando uma tática comumente usada pelo 3G Capital – o grupo brasileiro de investimento privado por trás da fusão entre Heinz e Kraft Foods – um número cada vez maior de empresas alimentícias e bens rotineiros está pedindo aos fornecedores até quatro meses para pagar suas dívidas --embora exija de seus próprios clientes pagamento em trinta dias, no máximo.

A tática vem ganhando popularidade desde que uma afiliada ao grupo 3G Capital a adotou após comprar a Anheuser-Busch, em 2008.

No passado, esses prazos estendidos geralmente indicavam que a companhia estava passando por problemas de fluxo de caixa. Hoje, porém, as corporações passaram a impor as novas datas apenas como estratégia comercial, segundo os analistas.

Bea Chiem, analista de crédito que acompanha as empresas alimentícias na Standard & Poor's, oferece vários motivos para o uso da tática: "Pode ser porque o desempenho recente tenha sido sofrível; muitas estão em meio a uma reestruturação e todas estão tentando equilibrar a necessidade de capital com o retorno dos acionistas".

A Diageo, fabricante de bebidas europeia, pede 90 dias para pagar suas contas. A Mondelez, Mars e Kellogg querem 120. A lista de nomes que engrossam a lista parece mais uma versão comercial do Quem É Quem: Church & Dwight, Procter & Gamble e Heinz estão entre as que querem termos de pagamento mais generosos.

A HEINZ, ÚLTIMA AQUISIÇÃO DO 3G, TAMBÉM QUER MELHORES CONDIÇÕES DE PAGAMENTO/THINKSTOCK

 

De acordo com os especialistas, a maioria o faz para tentar maximizar o uso do capital; ao empurrar os pagamentos para 90 ou 120 dias, as empresas têm mais dinheiro para realizar outros projetos.

A Mondelez, por exemplo, está comprando ações de volta. A Kellogg está no meio de uma reestruturação, e a Procter & Gamble, que estendeu seus prazos de quitação para 75 dias em 2013, até agora já engordou seu fluxo de caixa com US$ 1 bilhão.

"Uma hora os custos financeiros adicionais com que os fornecedores têm de arcar por não receberem imediatamente passam a se refletir nos preços ao consumidor", alerta V. G. Narayanan, chefe da unidade de contabilidade da Faculdade de Administração de Harvard.

"GREVE" NO REINO UNIDO

A prática é impeditiva para as empresas, principalmente as menores, que têm pouco estofo de proteção. No Reino Unido, em abril, a Associação de Agências de Marketing estimulou seus membros a "fazer greve" contra a Anheuser-Busch InBev, a gigante do setor cervejeiro, depois que a empresa começou a rever seus termos, incluindo a aprovação de um prazo de pagamento mais longo que 120 dias e pedido de trabalho pro bono.

SEDE DA ANHEUSER-BUSCH NOS EUA: ENFRENTANDO REBELIÃO DE AGÊNCIAS DE PROPAGANDA NO REINO UNIDO/THINKSTOCK

 

Para Martin Sorrell, CEO do Grupo WPP, gigante da publicidade, tais práticas podem transformar fornecedores em credores.

"Não acho que o nosso objetivo seja lidar com transações bancárias, nem termos estendidos de pagamento, muito menos concordar com termos de pagamento de fornecedores a juros baixos; não somos uma instituição bancária", disse ele em entrevista a Advertising Age pouco depois que a Diageo estendeu seus prazos de pagamento para 90 dias.

Stephen Brock se declara surpreso pelo fato de a revolta contra a Anheuser-Busch InBev não ter acontecido antes. Ele sabe o que diz, pois, dono da Supplied Industrial Solutions, de Granite City, em Illinois, fornecia válvulas, instrumentos processadores e sistemas mecânicos para a fabricante da Budweiser e outras cervejas.

BROCK, UM DOS FORNECEDORES: PREFERIU PERDER O CLIENTE/ANDREW SULLIVAN/THE NEW YORK TIMES

 

A Anheuser-Busch foi comprada por uma entidade controlada por Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, também responsáveis pela 3G; a fusão com a InBev veio em 2008. Um ano depois, Brock foi avisado de que não receberia mais pelo fornecimento de seus produtos em trinta dias. Na verdade, o novo conglomerado lhe impôs um período de 120 dias.

A corporação representava cerca de 5% do volume total de vendas de Brock – até que ele concluiu que seria melhor perder o negócio do que esperar quatro meses para ser pago.

"Na verdade o efeito nos lucros é péssimo; para piorar veio no meio da recessão. Levamos um ano e meio para recuperar as perdas", conta ele.

Ele ainda faz negócio com a corporação, mas em uma escala bem menor, e recebe através de cartão de crédito.

"Os bancos estão restringindo os financiamentos, principalmente para pequenas empresas como a minha, então a coisa fica ainda mais complicada de administrar. Continuo tendo que pagar funcionário, fornecedor, conta de luz de água… eles não podem esperar quatro meses para receber."

Até agora a pressão mais forte parece recair sobre os chamados periféricos – os que fornecem embalagens, equipamentos, são responsáveis pela publicidade etc.

A Diageo, por exemplo, pediu prazos estendidos dos fornecedores de componentes europeus para suas fábricas, mas não para os abastecedores de açúcar, o tipo do ingrediente que não dá para passar sem. Além disso, é difícil encontrar alternativas imediatas de provedores.

Porém, isso também pode estar mudando: duas grandes companhias que entregam matérias-primas como café, farinha, açúcar e cacau para os maiores nomes da indústria alimentícia confirmaram que muitos clientes já exigem ciclos de pagamentos mais longos.

Irit Tamir, do programa Oxfam America – que procura garantir que as multinacionais não tirem vantagem de pequenos produtores e fornecedores nos países em desenvolvimento, se confessou preocupada, pois empresas como Cargill, Bunge, Grupo Noble e Archer Daniels Midland, estão sendo pressionadas.

"A tendência é que essas coisas acabem se refletindo na cadeia de fornecimento e sabemos que os pequenos agricultores de óleo de palma, café, cacau e outras matérias-primas já têm que lidar com um risco considerável no dia a dia", diz ela.

EM BUSCA DE CRÉDITO

Diane Shand, diretora do grupo de produtos ao consumidor da S&P, diz que as empresas que hoje pedem prazos maiores geralmente se esforçam para ajudar os fornecedores a suportar o impacto. Os bancos, inclusive, desenvolveram "práticas de fornecimento" que liberam financiamentos ao abastecedor nos mesmos termos que seus grandes clientes; podem também "comprar" o valor a receber, com um pequeno desconto, para que ele não fique parado nos seus livros.

"É mais uma permuta que essas empresas grandes oferecem; dizem aos fornecedores que vão pagar só depois de 120 dias – em vez de 60 ou 90 – mas oferecem mais oportunidades de negócios ou pagamento em cinco ou sete dias se tiver um pequeno desconto", explica ela.

Contudo, fora do setor financeiro, poucos aprovam a tendência. "Acho que a ideia, de forma geral, é muito ruim. Basicamente o que essas empresas estão fazendo é se voltar para os fornecedores em busca de crédito, em vez de procurar os bancos – e para gigantes da indústria como elas, confiáveis, inclusive, isso é ridículo", conclui Narayanan de Harvard.

LEIA MAIS: Por que as lições de Lemann e seus sócios são valiosas para sua empresa

 

O Diário do Comércio permite a cópia e republicação deste conteúdo acompanhado do link original desta página.
Para mais detalhes, nosso contato é redacao@dcomercio.com.br .

 

Store in Store

Carga Pesada