Como se dá o comércio internacional
O funcionamento do comércio internacional é sutil, com custos invisíveis e também visíveis

Em artigo recente da New York Times Magazine, Adam Davidson discorre sobre as práticas comerciais documentadas nos arquivos encontrados em Kanesh, um sítio arqueológico da Turquia moderna, e diz que o volume de comércio entre Kanesh e seus vários parceiros comerciais parece caber em uma "equação de gravidade": o comércio entre suas economias regionais é aproximadamente proporcional ao produto do seu produto interno bruto e está inversamente relacionado à distância. Ótimo.
Contudo, o que a aplicação aparentemente universal da equação da gravidade nos diz? Em seu artigo (leia aqui) Davidson afirma que ela é uma indicação de que a política não pode fazer muita coisa na hora de dizer como o comércio deve funcionar. Não é o que eu diria, e não é também o que diz quem estudou de perto o assunto.
O que eu penso é o seguinte: imagine duas cidades com o mesmo PIB per capita (vamos admitir esse pressuposto por enquanto). As cidades farão comércio entre si se os residentes da Cidade A encontrarem as coisas de que necessitam sendo vendidas pelos moradores da cidade B, e vice-versa.
Portanto, qual a possibilidade de que um morador da Cidade A encontre um morador da Cidade B que tenha algo que ele deseje? Se aplicarmos o que um dos meus velhos professores costumava chamar de "princípio da razão insignificante", um palpite inicial razoável seria o de que a probabilidade é proporcional ao número de vendedores em potencial — isto é, a população da Cidade B.
E quantos serão os compradores que desejam fazer uma aquisição? Novamente, aplicando o princípio da razão insignificante, um bom palpite é que esse número é proporcional ao número de compradores em potencial — isto é, a população da Cidade A. Portanto, mantendo-se iguais as demais coisas, é de se esperar que as exportações da Cidade B para a Cidade A sejam proporcionais ao produto de suas respectivas populações.
Mas, e se o PIB per capita não for o mesmo? Podemos imaginar uma situação em que a população "de fato" aumentou, tanto no que diz respeito aos produtores quanto aos consumidores. Portanto, a atração agora é o produto dos PIBs.
Existe alguma coisa de surpreendente no fato de que essa relação funciona tão bem? Mais ou menos. Antes de 1980, a teoria tradicional do comércio rezava que os países deviam se especializar segundo fossem suas vantagens comparativas — por exemplo, a Inglaterra devia fabricar tecidos; Portugal, vinho.
Esses modelos mostram o quanto o comércio dos países deveria estar voltado para o que havia de semelhante, ou não, entre eles. Os exportadores de tecidos deveriam intensificar seu comércio com os exportadores de vinho e diminuir o comércio entre si. Na verdade, porém, não há sinal algum de um efeito desse tipo: mesmo os países aparentemente semelhantes fazem tanto comércio quanto a equação da gravidade diz que deveriam fazer.
Há tempos os modelos de comércio calibrados lidam com essa realidade — de forma um tanto inadequada — recorrendo à "suposição de Armington", que parte simplesmente do princípio segundo o qual um mesmo bem de diferentes países é visto pelo consumidor como produto diferenciado — uma banana, por exemplo, não é apenas uma banana, é uma banana do Equador ou de Santa Lúcia, as quais são substitutos imperfeitos.
Uma nova teoria do comércio introduzida por nós e por outros na década de 1980 — ou, conforme alguns preferem, uma "velha nova teoria do comércio" — foi um pouco além disso ao acrescentar a concorrência monopolística e os retornos crescentes para explicar por que até mesmo países similares fazem produtos diferentes.
Há ainda um enigma no que diz respeito ao efeito da distância e das fronteiras, ambos os quais parecem maiores do que os custos concretos podem explicar. O trabalho prossegue.
Tudo isso, em algum momento, aponta para a insignificância da política comercial? De modo algum. As mudanças na política comercial têm, é claro, efeitos óbvios sobre o volume de comércio dos países. O gráfico mostra o que aconteceu quando o México se abriu para o comércio, no fim dos anos 80, em comparação com o que aconteceu ao Canadá, que sempre esteve muito aberto o tempo todo — e que, a exemplo do México, faz comércio principalmente com os EUA.
Portanto, o que nos diz a gravidade? Que essa simples vantagem comparativa ricardiana está evidentemente incompleta; e que o funcionamento do comércio internacional é mais sutil, com custos invisíveis e também visíveis. Isso não é pouco, mas não é também nada muito preocupante. Os modelos de gravidade são muito úteis como parâmetros para avaliação de outros efeitos.
LEIA AQUI A PÁGINA DE PAUL KRUGMAN NO THE NEW YORK TIMES [EM INGLÊS]:

