CUT faz de conta que 1o. de Maio poderá barrar impeachment
Central petista fará ato e show no Anhangabaú. Força Sindical, favorável ao afastamento de Dilma, se reúne no Campo de Bagatelle. Data surgiu entre sindicatos no século 19

O Primeiro de Maio se transformou desta vez em dia de ficção política. A CUT, confederação ligada ao Partido dos Trabalhadores, promove comício e show no Vale do Anhangabau, em São Paulo, tendo como palavra de ordem a tentativa de barrar o impeachment.
O afastamento de Dilma Rousseff está previsto no plenário do Senado a partir de 11 de maio, e não há possibilidade de reversão da tendência pela qual ela receberá apenas 21 votos, contra 50 a favor da abertura do processo.
Mesmo assim, o ato da CUT, a partir das 10h deste domingo, que poderá contar com a presença de Lula e da própria Dilma, foi montado como se pudesse reverter aquilo que os petistas qualificam de "golpe".
A central contratou para o show artistas como Chico César, Martinho da Vila e Beth Carvalho.
A alguns quilômetros mais ao norte, no Campo de Bagatelle, a Força Sindical – que é favorável ao impeachment – também fará show com artistas. Paula Fernandes e Michel Teló estarão no palco.
Para atrair público, a central sorteará 19 automóveis e propõe "um dia de reflexão e de intensificação de nossa luta por um Brasil mais justo e igualitário".
Essa intenção recobre a oposição à reforma da Previdência, uma das bandeiras do deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), que nos últimos anos insistiu na supressão do fator previdenciário, mecanismo que desencoraja as aposentadorias precoces.
Em resumo, com o afastamento de Dilma por seis meses – e de modo definitivo, segundo outras previsões generalizadas – a CUT e a Força Sindical têm claramente no horizonte o governo de Michel Temer.
Seja para contestar a legitimidade dele, no caso da central petista, seja para pressioná-lo para que o equilíbrio fiscal não seja alcançado por meio da diminuição de direitos trabalhistas, no caso da Força Sindical.
Estamos, assim, diante de um Primeiro de Maio em que a recessão e os 11 milhões de desempregados bloqueiam o apelo histórico a aumentos salariais e redução do tempo de trabalho.
Tem sido este, aliás, dos dois motes mais frequentes nas comemorações do Primeiro de Maio no plano internacional.
Foi no final do século 19 que o Primeiro de Maio se tornou o Dia do Trabalho – a data se desloca para setembro em países como os Estados Unidos, Canadá, parte da Austrália e Nova Zelândia.
Naquela época, os conflitos atingiam um estágio particularmente agudo entre as empresas e os assalariados.
Os sindicatos reivindicavam um regime hoje consensualmente alcançado por qualquer legislação trabalhista, como a adoção de uma jornada de trabalho mais humana. O plano era então de 48 horas semanais, e isso com oito horas de expediente aos sábados.
O fato é que uma reivindicação hoje tão básica gerou episódios de grande impacto e violência, como o da praça Haymarket, em Chicago, em 1886, que terminou com sete policiais e quatro civis mortos.
Foi também em Chicago que eclodiu, em 1894, a chamada greve Pullman, que paralisou boa parte das estradas-de-ferro americanas e levou o presidente Grover Cleveland a reprimi-la com tropas federais.
Em 1889, em Paris, durante as comemorações do centenário da Revolução Francesa, os dirigentes da 2ª Internacional, que foi um movimento bem mais político que sindical, propuseram o Primeiro de Maio como a data anual de greves e manifestações.
Numa espécie de prelúdio da Guerra Fria, o que entrou na pauta sindical, em torno da passagem para o século 20, foi a própria a economia de mercado, atacada por uma miríade de partidos e tendências hoje praticamente extinta ou inoperante.
Mas, nas décadas seguintes, as sucessivas pautas de reivindicações foram objetos de acordos, que geraram salários cada vez maiores. Com isso, o mercado se ampliou superlativamente, para o benefício também das empresas.
O fato, no entanto, é que o Primeiiro de Maio já estava anteriormente revestido de outras significações. No Hemisfério Norte, a data define o meio da primavera, e o dia 1º marca em alguns países o final das férias escolares da estação.
É ainda uma data particularmente associada a flores específicas na França, hoje com o pequeno e frágil lírio-do-vale (muguet), de cor branca, antes que caisse em desuso simbolico a pequena eglantine, uma rosa silvestre vermelha. Na Alemanha, a flor era o cravo.
Nos Estados Unidos, o Primeiro de Maio definia o início do ano fiscal e contábil das empresas. A questão se associava diretamente aos assalariados porque expiravam os contratos anuais de trabalho, levando multidões a procurarem e a trocarem de empregos. Era o chamado moving day.
A data deixou aos poucos de ser propriedade dos sindicatos para entrar no calendário das festividades oficiais. Em 1919, por exemplo, o Senado francês presenteou os trabalhadores com um feriado de Primeiro de Maio. No ano seguinte – o que foi bem mais previsível – o mesmo aconteceu na Rússia soviética.
A igreja católica, sem muito sucesso, embarcou só bem mais tarde nas comemorações. Mais precisamente em 1955, quando o papa Pio 12 instituiu no Primeiro de Maio a festa de São José, que também foi artesão e marceneiro.
Entre as ditaduras de direita as reações não foram nem sempre as mesmas. A Itália fascista deslocou o Primeiro de Maio para o 21 de abril. Mussolini evitava evocar a data propagada pelos socialistas.
Mas o Dia do Trabalho foi mantido na França, durante a ocupação nazista, e, sobretudo, cultivado pelo Estado Novo, no Brasil (1937-1945).
Para nós, brasileiros, esse é um capítulo à parte. Os anarquistas, formados sobretudo por operários imigrantes, foram os responsáveis pela grande greve de 1917 e comemoravam o Primeiro de Maio como uma data que estimulava seu projeto revolucionário. A Velha República recuperou rapidamente o simbolismo crescente.
Em 1925, o presidente Artur Bernardes declarou o feriado anual e o Dia do Trabalho.
Getúlio Vargas se apropriou da data por etapas. No primeiro período da chamada Era Vargas (1930-1937), o governo adotou uma postura de defesa. Estava sob o ataque de uma esquerda bem minoritária, tanto quanto os operários de um país ainda pouco industrializado.
Mas no segundo período (1937-1945), com o Estado Novo, Getúlio se tornou uma espécie de mestre-de-cerimônias da classe trabalhadora. Ele a organizou para, por meio do trabalhismo, torná-la uma aliada.
Com essa oficialização, operada com o auxílio de um enorme aparato propagandistico, o Estado Novo transferiu para o campo oficial, por meio de festas que o governo patrocinava, uma comemoração que os antigos partidos e sindicatos pretendiam manter como um jogo de greves e piquetes.
A partir dos anos 1990 o Brasil transformou o Dia do Trabalho numa espécie de grande quermesse, com shows de cantores conhecidos e sorteios de casas ou automóveis para atrair a multidão.
Por fim, e voltando ao plano mundial, o Dia do Trabalho não é feriado e é oficialmente ignorado em pouquíssimos países do mundo, como a Arábia Saudita, a Mongolia ou a Dinamarca, que arrasta para essa particularidade sua possessão americana, a Groenlândia.
FOTO: Estadão Conteúdo

