Cutucando a onça com vara curta

Coisas da política: Adhemar de Barros foi traído pelo poste que elegeu e perdeu a eleição para Jânio Quadros

Eymar Mascaro
02/Set/2015
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A medida mais polêmica adotada por Lucas Nogueira Garcez, logo que assumiu o governo de São Paulo, em 1951, foi fechar todas as casas que exploravam a prostituição no centro da Capital, na chamada "boca do lixo".

A decisão extremada do governador provocou reações das prostitutas, que começaram a estudar a forma ideal de protestar energicamente contra a iniciativa de Garcez.

Quem também reagiu contra a medida do governador foi uma parcela ponderável da população, que temia que as mulheres de "vida fácil" se espalhassem pela cidade, à procura de pontos estratégicos onde pudeseem atrair mais fregueses, sobretudo os bairros de moradores endinheirados.

Passados 65 anos da drástica decisão de Garcez, os moradores de bairros nobres ainda hoje protestam contra a invasão de mulheres e travestis que caçam clientes pelas esquinas em estado seminus.

Numa das reuniões  das mulheres atingidas pelo ato de Garcez, uma novata iniciante na proifissão propôs que elas promovessem uma passeata em frente à casa do governador, fazendo uma contundente ressalva: todas elas deveriam comparecer ao protesto nuas.

No instante em que a proposta estava prestes a ser aprovada pela maioria das mulheres, uma voz é ouvida no fundo da sala. Era a voz veterana de uma cafetina, contrária à passeata em frente à casa de Garcez, principalmente se as companheiras comparecessem nuas, como sugeriu a novata.

A velha senhora sugeriu outra forma inteligente de protestar: pediu à amiga que secretariava o encontro para escrever uma carta ao governador, antes de a categoria tomar qualquer decisão mais radical. A experiente senhora pediu que a amiga começasse a escrever assim a carta ao governador:

-"Meu filho".

A passagem de Lucas Nogueira Garcez pelo governo de São Paulo é curiosa: ele era engenheiro civil e professor na Escola Politécnica, mas jamais havia disputado qualquer cargo eletivo.

Na verdade, Garcez tinha apenas os votos da família, dos amigos e admiradores. Seu comportamento na sociedade era reto, um homem sério que Adhemar de Barros -um dos grandes líderes políticos na época- foi buscar numa sala de aula para concorrer ao governo paulista.

Já, naquela ocasião, Adhemar mostrou que era o Lula da vez, isto é, ele também seria capaz de eleger um "poste". E foi com seu apoio que Garcez se elegeu governador. Ele foi a surpresa da eleição, a exemplo de Dilma Rousseff em 2010 e de Fernando Haddad em 2012, outros dois "postes" que Lula também consagrou nas urnas.

Detalhe: Garcez foi o governador que nomeou uma Comissão Especial para criar o Parque do Ibirapuera, que seria palco das comemorações do 4º Centenário da Cidade de São Paulo, em 1954.

Mas, foi a partir da posse de Garcez que a população de São Paulo começou a assistir a uma grande gritaria entre políticos: nem bem havia assumido o cargo, Garcez abandonou Adhemar, seu padrinho político, para se aproximar do inimigo nº 1 do adhemarismo no Estado, Jânio Quadros.

Garcez se elegeu em 1951 e os partidos já iniciavam a campanha para a eleição seguinte, a de 1954, isto é, a da sucessão do próprio Garcez.

O experiente dr. Adhemar decidiu se candidatar, pois pretendia voltar ao governo de São Paulo. Mas, para se eleger novamente governador, apesar de sua liderança principalmente estadual, Adhemar teria de derrotar um "demônio" chamado Jânio Quadros,  que despontou nos anos 50 como um fenômeno na política brasileira, pregando a moralidade administrativa contra um "adhemarismo mergulhado na corrupção".

 A voz do adhemarismo no Estado era uma só: Garcez era um traidor.

Na reta final da campanha, Adhemar concedeu entrevista a um importante canal de televisão e, ao se referir ao governador que elegeu, apontou o dedo em riste para a Câmera e, sem nenhum constrangimento soltou o verbo:

"Você, Garcez, é um canalha".

Em política -para concluir-  também se ganha ou se perde uma eleição dependendo de uma frase feliz ou infeliz. Adhemar perdeu a eleição para Jânio, quando os marqueteiros da época admitiam que ele estava com a eleição praticamente ganha, antes de "metralhar" Garcez com a forte expressão "canalha".

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