De que lado está o ódio?

Existe uma dificuldade brutal do atual governo em lidar de forma tranquila com a alteridade. O "outro" é demonizado

João Batista Natali
16/Ago/2015
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A palavra “ódio” tem sido empregada com frequência por partidários do governo, para descrever o comportamento da oposição ou dos defensores do impeachment.

Os efeitos dessa presunção semântica são dois: situa os autores da denúncia numa área implicitamente oposta – a do amor, a do respeito – e acusa os adversários do governo de estimularem o confronto e a desvalorização ética da atividade política.

O que está verdadeiramente em questão é a condição do “outro” nesse jogo público de alteridade.

A democracia tem um berço confuso quando a alteridade entra em cena. Em 1776, os redatores da Constituição dos Estados Unidos dialogavam com a elegância florentina. Mas em 1791, com os jacobinos no comando da Revolução Francesa, a alteridade robespierrista desqualificava moral e politicamente os partidários da monarquia constitucional e os aliados da Prússia ou da Inglaterra. 

Criou-se, no entanto, um padrão que, excetuados os períodos de radicalização extrema que precederam as maiores guerras, levou os políticos a adotarem um comportamento mais civilizado. O “outro” era um simples e circunstancial adversário. Mereceria afeto e respeito.

Apenas se passasse à condição de inimigo, esse mesmo “outro” sofreria um processo discursivo de desumanização, preparando-o para a destruição física e moral, em meio a embates previsíves.

O Brasil circulou pelos dois modelos. Durante o Segundo Reinado, a alteridade se dava dentro da mesma oligarquia, e, por isso mesmo, as relações verbais se mostravam menos agressivas. A República Velha seguiu por razões parecidas receita semelhante de cortesia.

Mas a Revolução de 1930, contemporânea aos duros embates europeus entre a esquerda e a direita, incorporou o desprezo e a rejeição entre os componentes que, de forma aberta (até 1937) ou velada (Estado Novo), passaram a irrigar o discurso político.

O mesmo vale para o período 1945-1964, com conspirações e confrontos partidários violentos entre lideranças brilhantes (San Thiago Dantas, Aliomar Baleeiro, Carlos Lacerda), num clima justificável pela mistura da imaturidade democrática com a Guerra Fria.

O longo processo de redemocratização teve um perfil bem diferente. Diante de um adversário comum - o regime militar - os liberais e a esquerda se uniram na oposição e criaram um invejável clima de fraternidade, que, apesar de fortes antagonismos eleitorais, prevaleceu do pós-1985 (eleição de Tancredo) até 2002 (eleição de Lula).

Esta última data é a meu ver fundamental para a mudança do diapasão. O Muro de Berlim já estava em frangalhos e, com ele, a ideia petista de socialismo em algum local indefinido do horizonte. A social democracia, inevitavelmente, misturava a identidade do PT, do PSDB, de setores do PMDB e do PDT brizolista. Era necessário “desmisturar”.

Os tucanos não foram competentes na preservação de sua imagem administrativa e política (FHC), que petistas procuravam obsessivamente desvalorizar (a “herança maldita”). Um exemplo: a bolsa escola virou bolsa família, como se entre ambas a diferença fosse abissal.

A fabricação da linguagem da diferença se tornou, então, tarefa prioritária dentro do governo federal. Surge o embrião do “nós contra eles”, em que as virtudes republicanas e o amor pelos mais pobres compulsoriamente estavam de um só lado da dicotomia.

Passados o Mensalão e o Petrolão, e criadas as condições para a crise econômica, entrou em colapso o projeto de poder do PT, surgindo, ao lado dele, o mais tacanho conservadorismo (é essa mesma a palavra): a ideia de prolongamento indefinido da permanência do partido no governo. Sai Lula, entra Dilma. Sai Dilma, entra Lula.

Com o PT fragilizado e sem maiores instrumentos de defesa política ou administrativa, restou redobrar o ataque, com o auxílio fundamental das redes sociais. Os bodes expiatórios no universo dramatúrgico petista passaram a ser aqueles que insistem na inflação e no desemprego, no estelionato eleitoral e do naufrágio da “ética na política”.

O mecanismo da alteridade se acentua. O adversário dos velhos tempos se tornou inimigo. O PT é, a partir de então, muito mais sensível ao perigo que o “outro” representa. No travestimento, cabem todos os “coxinhas” da avenida Paulista, e, para lidar com eles, o secretário-geral da CUT fala até em “pegar em armas”.

A verdade é que o Brasil tem problemas históricos e estruturais em lidar com uma alteridade tranquila. O "outro" é sempre o portador de menos direitos. O estereótipo já fora assinalado há mais de um século por Joaquim Nabuco, que enxergou como legado escravocrata a ilusão de vivermos em algum lugar de uma pirâmide de valores, o que nos qualifica para desprezar o “outro” localizado num patamar em nossa opinião inferior. E não apenas uma inferioridade material, mas aquela construída pelo discurso dos que não têm e não podem ter razão.

E o “outro”, no caso, não tem o direito de defender a aplicação do dispositivo constitucional de afastamento da presidente. Então, pode e deve ser odiado por isso. 

A política é uma atividade altamente coreográfica. Praticá-la com ódio é sempre mais fácil e espetacular do que fazê-lo segundo as receitas civilizadas da cortesia.

 

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