Décadas depois, o mesmo euro, os mesmos problemas
A ideia de que a Europa pudesse ser capaz de atingir um tipo de flexibilidade que não havia em parte alguma do mundo era simplesmente implausível
Wolfgang Münchau disse recentemente em sua coluna no Financial Times que o euro foi um erro, e apontou qual teria sido a ilusão fundamental nesse caso.
Os defensores da moeda comum "sabiam que para suportar os rigores de um sistema de câmbio fixo que lembra muito o padrão ouro, os países teriam de se adaptar a choques econômicos por meio de mudanças nos salários e nos preços ? uma estratégia que, conforme acreditavam, os membros do euro seriam obrigados a adotar". (Leia aqui a coluna de Münchau).
Isto é, os defensores do euro acreditavam que as reformas criariam uma flexibilidade suficiente para neutralizar a advertência de Milton Friedman de que, diante de choques negativos, os países com taxas de câmbio fixas sofreriam com custos mais elevados:
"Se as mudanças externas forem profundas e persistentes, o desemprego produzirá uma pressão contínua para baixo sobre os preços e os salários, e o ajuste só se completará depois que a deflação tiver feito seu estrago", escreveu Friedman em seu livro "Em defesa das taxas de câmbio flexíveis" [The case for flexible Exchange rates].
Eu, porém, jamais acreditei que isso pudesse funcionar. Baseio meu ceticismo em evidências concretas. Nos dias que precederam o Tratado de Maastricht, que deflagrou o projeto do euro em 1992, vários estudos analisaram a situação dos EUA ? uma união monetária que funciona razoavelmente bem.
Será que era porque os EUA, com seus sindicatos pouco expressivos e mercados de trabalho competitivos, tinham mais flexibilidade de salários e de preços do que outros países?
Não de acordo com os economistas Olivier Blanchard e Lawrence Katz. Na época, eles descobriram que os salários tinham um papel pouco expressivo nos ajustes regionais aos choques. A questão era a mobilidade da mão de obra.
Portanto, a ideia de que a Europa pudesse ser capaz de atingir um tipo de flexibilidade que não havia em parte alguma do mundo ? nem mesmo na economia americana, de mercados brutalmente regulados ? era simplesmente implausível.
O que ninguém pensou na época foi o problema a mais decorrente da interação entre deflação e dívida ? a forma pela qual as tentativas de ajuste no momento em que os salários estão caindo pode piorar os problemas da dívida.
Contudo, mesmo com o que sabíamos 25 anos atrás, as dificuldades do euro eram óbvias.
Guerras cambiais
Ricardo Caballero, Emmanuel Farhi e Pierre-Olivier Gourinchas publicaram recentemente um novo estudo teórico sobre o modo como devemos pensar a respeito de uma armadilha de liquidez mundial. Ainda estou trabalhando nos dados da análise, mas é evidente que batem com o que venho dizendo há anos.
Geralmente, quando os economistas escrevem sobre como as armadilhas de liquidez em alguns países tendem a ser exportadas para outros, eu me identifico, porque isso é uma coisa que me preocupa muito.
Eles ressaltam que ter uma moeda de reserva, de modo que as pessoas queiram comprar seus ativos, é, na verdade, uma coisa ruim em um mundo preso na armadilha da liquidez.
Esse é um argumento que defendo há anos, infelizmente com pouco impacto sobre o pânico de que a China possa vir a deixar de comprar títulos da dívida americana.
LEIA ABAIXO A PÁGINA DE PAUL KRUGMAN NO THE NEW YORK TIMES [EM INGLÊS]

