Dilma começa a semana politicamente ainda mais vulnerável

Indiciamento do ministro Edinho Silva, ex-tesoureiro da campanha da presidente, traz para dentro do Planalto as apurações de corrupção na Petrobras

João Batista Natali
08/Set/2015
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Dilma começa a semana politicamente ainda mais vulnerável

A presidente Dilma Rousseff vem acelerando a contagem regressiva na direção do precipício. Seu mandato está mais vulnerável que há uma semana, quando dos vais-e-vens da CPMF e do envio ao Congresso de um projeto de Orçamento com déficit.

O último ponto nevrálgico foi o indiciamento de Edinho Silva, seu ex-tesoureiro de campanha e atual Ministro das Comunicações. A iniciativa, da Procuradoria Geral da República, foi encaminhada ao ministro Teori Zavascki, relator da Operação Lava Jato no STF.

O procurador Rodrigo Janot acatou as informações da delação premiada de Ricardo Pessoa, proprietário da empreiteira UCT. Ele afirmou que ao final da campanha presidencial do ano passado Edinho o forçou a doar R$ 10 milhões à campanha de Dilma, caso não quisesse ser prejudicado em contratos com a Petrobras.

O detalhe importante é de que não se trata de uma operação entre o Partido dos Trabalhadores e o cartel de obras de engenharia civil. A ligação foi direta entre um empresário e a campanha.

O PT tem um CNPJ e contas bancárias para receber qualquer doação. O CNPJ de Dilma foi outro. Estava em nome dela e tinha como sede social o apartamento que ela possui em Porto Alegre.

A ação entre um empresário e o tesoureiro dela – se confirmada – faz recair sobre ela a responsabilidade penal de qualquer malfeito. É a mesma lógica jurídica que complica Eduardo Azeredo (PSDB), no chamado “mensalão mineiro”.

Edinho não foi indiciado. Não é réu no processo. Sua situação é mais delicada que a de Aloizio Mercadante, ministro da Casa Civil, e a do senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), também indiciados na última sexta-feira (05/09). A Procuradoria Geral da República entende que nenhum deles extorquiu a Petrobrás, nas campanhas de 2010 – para o governo do Estado, pelo PT, e para o Senado, pelos tucanos.

Edinho Silva tem negado qualquer irregularidade ou crime e reafirma que as doações recolhidas foram legais. A Lava Jato demonstrou, no entanto, que a máquina de corrupção foi construída de tal maneira que as propinas coletadas em contratos com a Petrobras se transformavam em doações regulares para partidos ou campanhas.

O fato é que, entre sexta e o feriado de segunda-feira, o novo fator de complicação da presidente aqueceu a disposição do bloco de oposição no Congresso que se mobiliza pelo impeachment.

Os diagnósticos pessimistas também bateram no mercado. O Boletim Focus, publicado nesta segunda (08/09) poderia refletir a estagnação do pessimismo, em razão das declarações apaziguadoras do ministro da Fazenda Joaquim Levy na Turquia, Espanha e França. Mas não foi o que aconteceu.

A projeção de queda do PIB deste ano deu um salto inabitual – de menos 2,26 para menos 2,44 -, enquanto a inflação medida pelo IPCA para 2916 passou de 5,51% para 5,58. Ou seja, o mercado acredita bem pouco nos efeitos do reajuste fiscal.  

“AUTOCOMBUSTAO” DA PRESIDENTE

Uma área em que o bom senso aconselharia a não mexer, porque ela está quietinha em seu canto, é a das Forças Armadas.

Eis que o Planalto dá uma nova demonstração daquilo que o jornalista Elio Gaspari chamou, em sua coluna de domingo, de capacidade da presidente Dilma à “autocombustão”. Não é preciso que ninguém tente incendiá-la. Ela se incendeia por si própria.

Pois vamos aos fatos. Segundo a agência Estadão Conteúdo, na quinta-feira Dilma assinou um decreto pelo qual os comandantes militares – os chefes do Exército, Marinha e Aeronáutica – perdem a competência para assinar atos sobre o pessoal de cada Arma, como transferência para a reserva ou promoção ao posto de oficial superior. A atribuição passa a ser exclusiva do ministro da Defesa.

O decreto estava redigido havia três anos e permanecia numa gaveta da Casa Civil. A decisão de trazer o assunto à tona foi da chefe da Secretária-Geral do Ministério da Defesa, Eva Maria Chiavon, que é também militante do PT.

O texto foi publicado no “Diário Oficial” com a assinatura do ministro interino da Defesa e comandante da Marinha, almirante Eduardo Bacellar. Interpelado por repórteres na segunda-feira, ao fim do desfile miliar do Sete de Setembro, ele disse desconhecer o decreto publicado com sua assinatura. “Não era de meu conhecimento.”

O próprio ministro da Defesa Jaques Wagner, que na quinta-feira estava em visita à China, também se disse surpreso e afirmou poder “assegurar que não há nenhum interesse da presidente Dilma em tirar poderes naturais e originais dos comandantes”.

Mas o estrago já estava feito.

A verdade é que, desde a primeira eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, jamais transpirou das casernas o mínimo ato de insubordinação contra os governos petistas.

Os oficiais superiores, com a reputação de suas Armas chamuscada pelo regime militar (1964-1985), demonstram um invejável profissionalismo. Cuidam das questões de defesa e não se misturam a problemas partidários.

Nas manifestações públicas deste ano contra a presidente Dilma, alguns civis radicalizados empunham cartazes pedindo “intervenção militar”.

Mas em nenhum momento tal apelo foi positivamente respondido por oficiais da reserva ou por familiares de oficiais da ativa, que se tornam historicamente porta-vozes da corporação quando ela procurou tomar politicamente partido.

Notemos, por fim, que algum eventual deslize nessa direção seria imediatamente assinalado pelos blogs e publicações favoráveis ao governo e por ele financiados.

Com Estadão Conteúdo

 

 

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