Dilma viaja e deixa rastro de confusão nas negociações com o PMDB
Reforma ministerial da presidente descontenta peemedebistas e provoca reação até no PT, pela perda de espaço no governo

Ao embarcar na noite de quinta-feira (24/09) para os Estados Unidos, Dilma Rousseff deixou um rastro de confusão em sua tentativa de reforma ministerial. As ambiguidades de um PMDB dividido não afastam a presidente dos riscos de impeachment.
Na noite de quarta, em reunião com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e lideranças do PT, definiu-se como movimento prioritário do xadrez governista a obtenção do apoio de 260 deputados.
Seria o suficiente para impedir, na Câmara, que a abertura do processo contra Dilma criasse uma dinâmica em que manifestações de rua e erosão do apoio parlamentar tornassem o processo irreversível.
O número de 260 deputados é ambicioso. Na madrugada de quarta, quando o Congresso manteve 26 dos 32 vetos do Planalto a projetos da “pauta-bomba” – criação de despesas que comprometeriam o ajuste fiscal – o governo obteve 183 votos.
Os seis vetos restantes da “pauta” serão ainda votados na próxima semana.
De qualquer modo, a votação demonstrou um PMDB dividido – com 15 deputados votando contra o governo, e 34 a favor, – e o PDT, que seria favorecido pela reforma ministerial, dividido ao meio (seis a favor do governo, sete, contra).
O problema está em saber com qual PMDB Dilma pode contar. A possível indicação ao Ministério da Saúde, importante por seu orçamento e até agora com o PT, seria a do deputado Manoel Junior (PB), politicamente inexpressivo e só ligado ao “baixo clero” da Câmara.
O vice-presidente Michel Temer participa das negociações com o partido do qual é o presidente nacional. Mas o programa de rádio e TV que o PMDB levou ao ar na quinta à noite não citou Dilma, concentrou críticas ao governo e colocou a agremiação como alternativa ao atual poder.
Caso Dilma seja impedida, Temer assumiria a Presidência da República, exceto se o afastamento for determinado pelo Superior Tribunal Eleitoral (STF), que julga ação pela qual a campanha da atual presidente e de seu vice teria sido abastecida em suas finanças pela corrupção da Petrobras.
Esse processo será retomado na quarta-feira (30/09).
O segundo flanco aberto contra o Executivo vem do Tribunal de Contas da União (TCU), que deve concluir no início de outubro parecer contra as contas de 2014, em razão das “pedaladas fiscais”.
REIVINDICAÇÕES DE TODOS OS LADOS
A partir desta quinta, o PMDB passou a exigir novos ministérios (seis em lugar dos cinco oferecidos). É a reivindicação do líder do partido na Câmara, Leonardo Picciani (RJ). Dilma pediu para que ele fosse acalmado pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes, que, no entanto, tem influência apenas na bancada fluminense do partido.
Os problemas de Dilma também estão dentro do PT, preocupado com a perda de espaço. O líder da bancada petista, deputado Sibá Machado (AC), anunciou ter o apoio de 30 dos quase 50 deputados para exigir que a presidente se desfaça de Aloizio Mercadante (Casa Civil), José Eduardo Cardozo (Justiça) e Joaquim Levy (Fazenda).
Embora seja um projeto fantasioso, ele funciona como um novo complicador, sobretudo pelo apoio dado à iniciativa pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), desafeto de Mercadante e adversário de Dilma.
Cunha, que durante a semana leu em plenário os procedimentos regimentais para a abertura de um processo de impeachment, está enfraquecido pelas acusações da Operação Lava Jato de se beneficiar de propinas. Mas, mesmo que caia, ele se dispõe a criar todas as dificuldades para o Planalto.
E para coroar a sucessão de notícias entre más e péssimas, há a entrevista à Folha de S. Paulo, nesta sexta (25/09), do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, referência de peso na oposição.
Ele disse acreditar que Dilma faz um “pacto com o demônio”, ao privilegiar a preservação do mandato, nas atuais negociações com o PMDB. FHC também disse que ela não vai governar. “Vai ser governada.”
A costura de todos esses episódios se dá sob o pano de fundo da possibilidade cada vez mais forte de a presidente se afastar ou ser afastada de seu cargo, diante da deterioração política e da ausência, no campo econômico, de qualquer informação positiva que pudesse favorece-la.
FOTO: Dida Sampaio / Estadão Conteúdo

