Don Juan de araque
Encontros e desencontros amorosos do passado
Um certo governador de São Paulo engatou um romance proibido com uma atraente jovem que morava nas proximidades do Morumbi, bairro onde está instalado o Palácio dos Bandeirantes.
Pelo menos uma ou duas vezes por semana, o governador dirigia um carro discreto e visitava a namorada, sempre depois das 10 da noite, quando os moradores da rua dormiam o sono da inocência.
Depois de passar em frente à casa da moça e sondar o ambiente, o governador ainda se precavia e dava mais uma volta no quarteirão. Só então parava o carro e entrava rapidamente na casa da namorada. A jovem deixava a porta apenas encostada.
Embora deixasse o Palácio discretamente, o governador sabia que estava sendo seguido, à distância, pelo veículo que levava os agentes de segurança, porque o protocolo não permite que prefeitos, governadores e presidente da República, se ausentem da sede do governo sem proteção de guardas-costas.
A aventura amorosa do governador ia de vento em popa, até a noite que deu zebra: ao sair da casa da jovem e entrar com rapidez no carro, o governador notou que uma folha de papel estava presa no parabrisa. Rapidamente, ele dobrou o papel, enfiou no bolso e sumiu em disparada rumo ao estacionamento do Palácio. Encostou o carro e matou a curiosidade ao constatar que a folha de papel reproduzia um oportuno pedido de socorro a ele:
-"Vê se pelo menos o senhor manda asfaltar a rua".
Fugindo à rotina, a história de hoje nada tem de política; ela não é conhecida dos boêmios paulistas, porque seus personagens viveram e trabalharam no Rio. Ela envolve dois expoentes homens das letras, jornalistas e poetas: um deles é um compositor que tinha o salutar hábito de se comunicar com mulheres famosas da intelectualidade carioca, chamado Antonio Maria; o outro também era um compositor famoso e um diplomata que deu o que falar quando serviu a diplomacia brasileira no exterior, Vinícius de Moraes, ambos já falecidos.
A exemplo de Vinícius, também o bonachão Antonio Maria é autor de uma penca de grandes sucessos que enriquecem até hoje a música popular brasileira, escrevendo composições em parceria com outros grandes compositores da inesquecível época de Dolores Duran, Tom Jobim, Herivelto Martins, Hermínio Belo de Carvalho, Ari Barroso, Cartola e tantos outros que desafiam o tempo e ainda são lembrados nas paradas de sucesso no rádio e em programas de televisão, embora cada vez mais escassos.
Antonio Maria era ainda excepcional cronista que colaborava com os jornais cariocas, como Jornal do Brasil, O Globo e Correio da Manhã, além de integrar o fechado clube de escritores da hora, como Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Oto Lara Rezende, Pedro Nava e Rubem Braga.
Necessitando cumprir um compromisso em São Paulo, Antonio Maria tomou o avião na ponte-aérea, no aeroporto Santos Dumont, e menos de 1 hora depois desembarcou em Congonhas. Embora o trajeto Rio-SP seja curto, muita coisa boa premiou Antonio Maria na viagem.
A poltrona em que se sentou tinha como vizinha uma atraente jovem que o confundiu com Vinícius de Moraes. A moça era fã incondicional de Vinícius e pensou que Antonio Maria fosse seu ídolo, provavelmente porque os dois compositores apareciam constantemente em fotos de jornais e revistas, um ao lado do outro.
Antonio Maria tentou desfazer o equívoco, mas o entutiasmo da moça era tanto de estar sentado ao lado de Vinícius que ele não quis pulverizar o sonho da amiga recente. Durante os 50 minutos de viagem, os dois conversaram muito, com a moça sempre convencida de que estava ao lado de seu ídolo.
Ao desembarcar em São Paulo, Antonio Maria -que estava acostumado a conquistas amorosas no Rio- resolveu esticar a conversa fora do aerpoorto, levando a companheira primeiro para um bistrô e, depois, para um hotel.
De volta ao Rio, lá pelas 10 da noite, Antonio Maria foi direto para os bares da boemia, frequentados pelos amigos de sempre. Um dos primeiros boêmios que encontrou foi exatamente Vinícius de Moraes, que estava mergulhado numa garrafa do legítimo uísque escocês. Conversa vai, conversa vem, Antonio Maria decidiu contar o que tinha acontecido no avião e fora dele:
-"O entusiasmo da moça era tanto, meu caro Vinícius, que eu não tive outra alternativa a não ser lervá-la para a cama de um hotel"- relatou Antonio Maria.
-"E daí?" -indagou Vinícius, curioso em saber como a coisa acabou.
-" E daí? E daí que você brochou, Vinícius".

