Dos contos de fadas à autonomia feminina

“Precisamos consolidar os avanços conquistados e seguir lutando pela igualdade de direitos, equidade profissional e salarial, respeito inegociável e integridade física e psicoemocional”

Alessandra Andrade
06/Mar/2026
Presidente da SP Negócios
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Dos contos de fadas à autonomia feminina

Este mês, no qual é celebrado o Dia Internacional da Mulher, 8 de março, abordo um tema de imensa importância: mulheres, claro! Quero falar de mim, de vocês, leitoras, e das nossas antepassadas. Começo afirmando que precisamos aprender a ser destemidas.

Afinal, assim como outras mulheres da minha geração, fui criada sob a ótica de um mito. Cresci e fui educada sonhando com o príncipe encantado, que milagrosamente transformaria minha vida em um conto de fadas e seria responsável pela minha felicidade.

Fui iludida. Beijei sapos que não viraram príncipes. A Fada Madrinha não apareceu para fazer o meu vestido para o baile e percebi que precisava me virar sozinha. Mais ainda, descobri que não precisava ser salva e que merecia um cavalo branco só pra mim, para cavalgar ao lado de quem eu escolhesse. E, se um príncipe quisesse acompanhar-me e fosse boa companhia, seria bem-vindo na minha jornada.

Chegar a essas conclusões requereu vivências, reflexões e enfrentamento da realidade, porque as histórias que ouvimos na nossa infância têm o poder de criar crenças e padrões antes que a gente tenha a capacidade de fazer julgamentos: por que o lobo mau é mau? Por que a Rainha Má tem tanta inveja da Branca de Neve? Por que os vilões dos contos de fadas tornaram-se ruins?

Também nos contaram que as mulheres podem ser muito más umas com as outras e que não são parceiras, mas isso está mudando. Até a Bruxa Verde do Oeste, em Wicked, foi retratada como de bom caráter, poderosa e que desafiou o sistema do corrupto Mágico de Oz, que a reprimia dentro de uma cultura machista que a segregou.

Sim, vejo que novas narrativas demonstram que as vilãs, antes de tudo, são mulheres fortes e desafiadoras, assim como as princesas de hoje. Porém, os livros de História, que não são contos de fadas, conservam argumentos e referências questionáveis. Exaltam, por exemplo, a capacidade de sedução de Cleópatra, mas negligenciam seu poder político.

Também precisamos considerar os padrões religiosos e morais, e não estou falando de nenhuma religião específica. Claro que as crenças e a fé precisam ser respeitadas, mas os direitos humanos vêm em primeiro lugar. Por isso, afirmo que todas nós precisamos ficar de olho quando, em qualquer lugar do mundo, as prerrogativas femininas da cidadania são ameaçadas.

Quando se permite que os direitos de uma mulher sejam desrespeitados, abrimos precedentes para que o mesmo aconteça com todas nós. A verdade é que, apesar de muitos avanços, ainda vivemos em um mundo no qual as regras são diferentes para os gêneros. Sobre esse aspecto, reproduzo uma fala de Madonna, na qual ela faz uma analogia brilhante, permeada de ironia, para evidenciar como se estrutura o secular arquétipo cultural machista:

“Um homem me fez pensar que não existiam regras. Mas, eu estava errada... Não há regras se você é um garoto; se você é uma garota tem de entrar no jogo. Que jogo é esse? É permitido que você seja bonita, graciosa e sexy, mas não seja muito inteligente e não tenha uma opinião. É permitido que você seja objetificada pelos homens e que se vista como uma vadia, mas não se reconheça como uma vadia e nunca compartilhe suas fantasias sexuais com o mundo. Seja o que os homens querem que você seja e, sobretudo, seja aquilo com que as mulheres sentem-se confortáveis que você seja quando estão perto dos homens. E, finalmente, não envelheça, porque envelhecer é um pecado”.    

Para mim essas reflexões fazem todo o sentido, porque minha geração não viveu em um mundo com oportunidades iguais entre os gêneros. As mulheres que me precederam e me serviram de modelo sofreram muito, foram abusadas, rejeitadas e vilanizadas. O mais triste é que não tinham a consciência do quanto poderiam ajudar umas às outras. Foram heroínas solitárias.

O fato é que mulheres foram queimadas por serem consideradas bruxas. Essa é uma verdade incontestável. Por isso, precisamos consolidar os avanços conquistados e seguir lutando pela igualdade de direitos, equidade profissional e salarial, respeito inegociável e integridade física e psicoemocional. Eis o grande desafio para cada uma de nós que, além de voar, dedica-se a ensinar e motivar outras mulheres a decolarem na jornada da vida.

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IMAGEM: Freepik

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