E os sonhos de Rodrigo decolaram como as pipas
O presidente do Mercado Bitcoin.net morou em Paraisópolis durante a infância. Hoje, comanda uma empresa que fatura mais de R$ 1,5 milhão

Por volta de sete anos, Rodrigo Batista – atual presidente do Mercado Bitcoin.net – adorava empinar pipa. Ele não era o único. Todas as crianças de Curvelo, cidade no interior de Minhas Gerais, onde nasceu, tinham o mesmo passatempo.
Ainda menino, ele percebeu uma oportunidade. Começou a produzir o brinquedo com as próprias mãos e vendia para os colegas.
O empreendedorismo entrou muito cedo na vida de Batista. Ele sempre teve apoio de seus pais, que mesmo sem muita instrução, incentivavam as ideias mirabolantes do filho.
Aos 11 anos, a família se estabeleceu na periferia de São Paulo. Ele morou no Parque Santo Antonio, que já foi conhecido como o bairro campeão de mortes, no Jardim Herculano e em Paraisópolis, segunda maior favela da cidade.
Foi nessa época que despertou seu interesse por tecnologia. “Sempre fui curioso, mas não tinha acesso a esse mundo”, afirma Batista. “Sempre quis fazer jogos de videogame, mesmo não tendo a menor ideia do que era programação.”
Na adolescência, ganhou uma bolsa numa escola de informática, onde ficou sabendo do vestibular para a escola técnica federal.
Durante quatro meses, estudou 16 horas por dia para ser aprovado. A concorrência era grande: 60 candidatos por vaga, mas conseguiu. Foi o primeiro passo que mudaria a vida de Batista.
Após o curso técnico em processamento de dados, ele se deu bem em outra prova difícil: o vestibular para administração na USP. Nesse período, trabalhou para grandes empresas, como Itaú, Santander e Morgan Stanley.
Mas a ideia de montar seu próprio negócio continuava latente. Mesmo com as mudanças dos últimos anos, mantinha dentro de si o menino que vendia pipas. Como grande parte dos empreendedores, teve algumas tentativas mal sucedidas ou que não foram para frente.
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MERCADO BITCOIN.NET
A primeira vez que Batista teve contato com os bitcoins – moeda digital criada para trocas financeiras online, que não possui nenhum órgão regulador – foi por meio de uma matéria de revista. Na época, ele achou a ideia interessante.
Pouco tempo depois, decidiu pesquisar mais sobre o assunto e comprou seus primeiros bitcoins. Em 2012, o valor da moeda era o equivalente a R$ 20. Hoje vale acima de R$ 1,75 mil. A cotação da moeda muda constantemente.
Junto com o sócio Gustavo Chamati, que foi seu colega de faculdade, ele começou a procurar oportunidades de negócio. Nesse período, cogitaram abrir uma loja no interior, mas decidiram montar uma empresa para negociar bitcoins.
A oportunidade surgiu quando descobriram que o primeiro site brasileiro de bitcoins estava com problemas de segurança e as moedas virtuais dos clientes (que valem dinheiro real) foram perdidas.
Os riscos eram enormes: o site tinha graves problemas de reputação, os bitcoins eram pouco conhecidos no Brasil, a chance de problemas jurídicos era alta porque a moeda não é controlada por nenhuma instituição e o negócio já começava com uma grande dívida.
Em maio de 2013, contrariando toda a lógica, os sócios decidiram comprar o site e constituir uma empresa.
Para refazer o Mercado Bitcoin.net, tiveram de investir primeiro em segurança. Para tanto, contrataram a empresa que produz o sistema de segurança dos principais bancos no país.
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Eles também restabeleceram a imagem da empresa, ressarcindo os clientes que haviam perdido dinheiro durante a antiga gestão.
Em três anos, a empresa aumentou seu faturamento e multiplicou o número de clientes. De dois mil cadastrados, eles saltaram para 130 mil. O faturamento no ano passado foi de R$ 1,5 milhão – e a expectativa é de crescer 40% em 2016.
Batista atribuiu essa virada na empresa a uma equipe complementar. “Não dá para empreender sozinho”, afirma. “É fundamental encontrar pessoas que tenham a mesma vontade, mas que pensem diferente”. Hoje, além de Gustavo, ele tem mais dois sócios: Maurício Chamati e Marcos Carvalho, ambos formados em computação.
Além do Mercado Bitcoin.net, Batista é sócio em outros dois negócios: o 1bloco.com – que presta consultoria para empresas interessadas em usar a tecnologia do banco de dados do bitcoin para criar novos produtos – e a 99 Pizzas, aplicativo de entrega de pizzas que não exige nenhum aparato tecnológico dos restaurantes.
EQUIPE DO MERCADO BITCOIN: ROBERTO MATOS, MARCOS CARVALHO, RODRIGO BATISTA, GUSTAVO E MAURÍCIO CHAMATI. BITCOIN: UM BOM NEGÓCIO?
Apesar de gerar muita polêmica na internet, o bitcoin ainda é pouquíssimo usado no mundo físico. São raríssimos os estabelecimentos comerciais que aceitam a moeda virtual.
Ela é mais utilizada em compras em e-commerces, principalmente de grandes empresas de tecnologia, como Microsoft e Dell. No mundo, a moeda virtual movimenta cerca de R$ 10 bilhões.
Batista acredita que o que falta para a popularização do bitcoin é uma ferramenta que facilite seu uso, até que seu uso se torne imperceptível.
“Sempre faço a associação com a música digital: quando o mp3 foi lançado era restrito a certos grupos”, afirma Batista. “Com a invenção dos tocadores de mp3, iPod e posteriormente do Spotify, esse uso se popularizou. Acredito que algo similar irá acontecer com os bitcoins”.
Hoje, o uso da moeda virtual está restrito a dois nichos: os que enxergam o bitcoin como um ativo financeiro – e realizam compras e vendas para lucrar –, e os profissionais freelancers, como designers e programadores, que fazem trabalhos para empresas de outros países e são pagos com a moeda virtual.
De acordo com Batista, os bitcoins são o jeito mais rápido e barato para transferir dinheiro do exterior.

