Economia Criativa: discussão absolutamente essencial diante das condições de competitividade da indústria brasileira
No meu artigo de 2010 tentei mostrar a relevância, para qualquer estratégia de crescimento sustentado, do que vinha sendo chamado de Economia Criativa.
Tratava-se de um conceito relativamente novo, cunhado na Austrália, mas usado como estratégia de política pública já a partir de 1997 pelo Reino Unido. No Brasil era algo quase desconhecido ou utilizado apenas por militantes na área de políticas culturais e/ou ligados ao artesanato, festas populares e/ou atividades voltadas para a inserção social de grupos de baixa renda.
Completamente ignorada ou até motivo de sarcasmo por analistas e economistas que pautam o debate e conduzem a política econômica do País, a Economia Criativa foi apropriada por defensores de causas nobres, porém em geral marginalizadas, consideradas de menor importância frente às questões macroeconômicas tidas como mais relevantes: PIB, câmbio, juros, inflação e déficit público, entre outras.
Curiosamente, mesmo entre economistas considerados desenvolvimentistas, que em geral fazem uma defesa de políticas industriais mais pró-ativas, o tema era ignorado ou desqualificado. Entre eles, continuam como referência básica as velhas políticas industriais formatadas para a estrutura industrial da década de cinquenta, cuja precária estrutura de financiamento e a inexistência de um mercado de capitais ativo a tornavam muito dependente de subsídios estatais.
Tivemos alguns avanços nos últimos quatro anos. A Secretaria de Economia Criativa do Ministério da Cultura, criada pelo Decreto 7743, de 1o de junho de 2012, ampliou a compreensão do tema, afastando-se da visão inicial, caricatural na sua forma de entendê-lo como “cultura popular”, dos pequenos, fracos, oprimidos e marginalizados. O BNDES ampliou o financiamento aos setores ligados à Economia Criativa, contratou estudos importantes sobre novas indústrias tais como a de games, mas ainda assim de forma muito limitada e absurdamente desproporcional ao que investe em setores da velha matriz industrial brasileira. Infelizmente, mesmo com essa Secretaria os avanços foram poucos, apesar da relevância do assunto e da aceleração do processo de perda de competitividade e desindustrialização do País.
Sob o rótulo de Economia Criativa, talvez equivocado pelas confusões que causa, o que se faz é analisar a indústria no mundo atual, a sua nova dinâmica determinada pela intensificação do processo de globalização, por uma nova geografia econômica internacional e por novas tecnologias que obrigam a repensar não só as formas de produção, distribuição e competição, como os próprios setores que podem determinar o dinamismo de uma economia.
Trata-se de discussão absolutamente essencial diante das condições de competitividade da indústria brasileira, e que precisa ir muito além do óbvio e pertinente foco em infraestrutura, tributos e dinâmica salarial. Trata-se da discussão sobre novos setores industriais e sobre sua interdependência e interação com um setor de serviços sofisticado, setores esses que se sobressaem no cenário internacional, gerando valor e empregos diferenciados, mas essa discussão o Brasil continua ignorando.
Qualquer que seja o presidente que venha a as- sumir em 2015 já se sabe o que esperar em muitas áreas: entre outras, correção de preços defasados, ajustes importantes nas contas públicas, ampliação dos investimentos em infraestrutura com retomada das concessões e melhoria do desempenho das agencias reguladoras.
O que não sabemos é como requalificar a economia brasileira, diminuindo sua dependência da exportação de commodities (que não deve ser desprezada), e garantindo um novo dinamismo do setor industrial acoplado ao de serviços sofisticados. Isto passa, necessariamente, por investimentos nos setores que vem sendo chamados de Economia Criativa.
Em retrospecto, nossas propostas de 2010 continuam 100% válidas. O que mudou é a urgência com que temos de considerá-las. Perdemos mais quatro anos e o mundo não nos espera. A China, por exemplo, colocou a Economia Criativa como uma das principais metas do seu último Plano Quinquenal, junto com novas energias limpas. Depois de começar copiando e produzindo grandes quantidades a custo baixo, ela vem investindo em desenvolver capacidade de pesquisa para ampliar sua competência tecnológica para produtos e serviços de maior valor adicionado. Vem também realizando um esforço enorme para criar uma capacidade endógena de design.
A Inglaterra, percebendo a ameaça do avanço chinês nessa área, vem desenvolvendo, por meio do seu Design Council e de outras agências, programas específicos para ajudar em- presas a identificar como a criatividade e o design podem melhorar seu desempenho . A Coreia criou o Korea Design Center, um complexo que serve de hub ao Korean Institute of Design Promotion’s, e trabalha para desenvolver a competitividade nacional por meio do design. Taiwan tem um National Design Center e Cingapura tem o Fusionopolis Creative.
Os mais diferentes países já descobriram que Economia Criativa é muito mais do que políticas culturais e/ou de inserção social. Trata-se da política industrial do século 21.

