Educação revisitada, diagnóstico estacionado
Antes da última eleição presidencial, um número especial desta revista incluiu propostas minhas para mudar a Educação. No que se pode medir, pouco mudou. Os números não mostram um empuxo vigoroso para cima, seja na quantidade, seja na qualidade. Continuamos oscilando entre o péssimo e o medíocre.
O lado positivo é a presença da educação na mídia, cada vez mais forte. Infelizmente, a cobertura tende a ser algo trôpega e inexata, mesmo nas melhores publicações. Uma notícia boa é que, pouco a pouco, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) mostra ser uma arma poderosa para estimular a qualidade e denunciar os retardatários. Isso tende a ser uma iniciativa espontânea da sociedade, mais do que política de Estado.
Um grande desapontamento é o Ensino Médio que continua capenga e murchando. Pior, permanecem vigentes todos os problemas de excesso de conteúdos e disciplinas, bem como a solução única para um ensino intrinsecamente plural. Em que pesem ministros concordando com o diagnóstico, nada acontece. Dentro dos muros de um Ministério da Educação (MEC) barroco e pouco iluminado, há mais palavras do que lucidez, realismo e ação.
Outro desastre que se revela inconsertável é a formação de professores. Não aprendem os conteúdos que vão ensinar e tampouco são preparados para dar aula. Em vez disso, consomem os anos decorando teorias rarefeitas e mergulhando em um esquerdismo requentado e obsoleto. Com adjetivação mais branda, a cúpula do MEC reconhece o problema. Mas nada acontece.
A novidade é a quase aprovação de um Plano Nacional de Educação (PNE) intelectualmente caótico e desestruturado, pouco mais do que a coleção desconexa de reivindicações de sindicatos e grupos de interesse. Apesar disso, perdido no meio da entropia verbal, há metas que fazem sentido, inspiradas no Todos Pela Educação.
Somente chega às manchetes a meta de dez por cento do PIB, sem que se diga quem pagará, quem usará e como assegurar que serão bem usados os recursos. De resto, em meio a um grau exacerbado de ineficiência e desequilíbrios, não encontramos uma só palavra no PNE acerca da necessidade de direcionar os recursos para aqueles gastos que podem melhorar a qualidade.
Municípios e estados, cada um anda para o seu lado. Há pérolas e enclaves de avanço célere, em meio à maioria que permanece no limbo. Há também hecatombes educativas.
No ensino superior, a ausência de boa governabilidade nas instituições públicas, progressivamente abre espaço para a emergência do sistema privado. O nicho do ensino de massa foi facilmente conquistado, apesar da sua qualidade vacilante.
Ainda meio invisíveis, consolidam-se mais boutiques de qualidade, espalhadas pelo território nacional – e não apenas nas grandes capitais. Certas instituições começam a beliscar o tradicional repositório de alunos bem formados no Ensino Médio privado. As greves e o descaso nas salas de aula das universidades públicas provocam esse início de migração.
Um avanço a ser registrado é a liberdade de abrir cursos, concedida às instituições mais bem avaliadas. Mas isso não compensa a ferocidade das guerrilhas burocráticas contra as demais. A administração do MEC cria ou mantém barreiras surrealistas à abertura de novos cursos. Recentemente, uma das instituições privadas mais admiradas do país teve seu novo curso de Engenharia negado, porque o mezanino da biblioteca não dá acesso a cadeirantes e por discordâncias com a forma escolhida para organizar a disciplina de estudos afro-brasileiros. E isso, apesar de ser um projeto alinhado ao curso de Engenha- ria que se tornou o modelo para as melhores universidades do mundo. Ao que consta, um dos visitadores contribui regularmente para o jornal Pravda. Podemos daí concluir que o ranço ideológico ainda faz seus estragos?
A expansão do Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) e do Programa Universidade para Todos (PROUNI) é, ao mesmo tempo, um sinal alvissareiro de pragmatismo do MEC e um atestado de incapacidade para consertar seu próprio sistema, mirrado, caro e ineficiente. O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (PRONATEC), algo embaralhado, caminha na mesma direção de reforçar a iniciativa privada no Ensino Técnico.
Em meio a esse quadro confuso, o grande contraste é o Ciências Sem Fronteiras, um programa que caminha na contramão da xenofobia rançosa do passado. Quase cem mil alunos de instituições públicas e privadas poderão experimentar a Educação de países de primeira linha.
No todo, está na direção certa e mostra bons resultados. Mas, na velocidade alucinada em que cresce, são inevitáveis os enganos e confusões, como o excesso de bolsas para instituições menos qualificadas. Infelizmente, a imprensa pinça equívocos e desencontros, em vez de louvar a internacionalização bem vinda que está trazendo.
Em suma, olhando o quadro da evolução do nosso ensino nos últimos quatro anos, não vemos grandes avanços. Nem parece que Educação é importante.

