Ela caça peças de luxo em bazares e lucra revendendo para brechós
A bancária aposentada Adriana Stevam transforma hobby de frequentar espaços beneficentes de venda de roupas usadas em renda extra. Na imagem, o resultado de suas últimas caçadas: sapatos Prada, Melissa, Salvatore Ferragamo e Ferri São Paulo

Quando a bancária aposentada Adriana Stevam Yeou Yih começou a visitar bazares beneficentes como forma de “terapia ocupacional” após 31 anos e meio de trabalho no banco, não imaginava que o hábito renderia não só boas peças para o guarda-roupa da família, mas também uma nova fonte de renda.
O que começou como hobby, em março de 2023, rapidamente virou um pequeno negócio: ela compra itens de grandes marcas – Prada, Zara, Schutz, Melissa, Salvatore Ferragamo e Ferri São Paulo, entre outras –, recupera, limpa, costura e revende para brechós de grife, como a Peça Rara, e repassa as peças mais simples para lojas como a Vitrine Criativa, ambas na capital paulista.
“Eu ia aos bazares e achava coisas que não serviam para mim ou para amigos que encomendavam. Daí tive a ideia de me cadastrar na Peça Rara e começar a repassar”, conta.
Bolsa custou R$ 15 e foi vendida por R$ 370
Adriana compra as peças em bazares de igrejas evangélicas, católicas e centros espíritas e diz que muitos vendedores não têm ideia do valor real dos itens: “as pessoas descartam por não entenderem de tecido, costura e acabamentos. Por isso, acabam não dando o devido valor.”
O resultado são verdadeiros “tesouros” encontrados por preços entre R$ 1 e R$ 10, valor que ela costuma estabelecer como limite, principalmente para sapatos.
Entre os achados mais impressionantes está uma bolsa de couro trançado, comprada por R$ 15 e vendida pela Peça Rara por cerca de R$ 700. Nessa operação, Adriana recebeu R$ 370.
Outro exemplo é um sapato Prada caramelo adquirido por R$ 10 e que acabou ficando com a filha. “Paguei R$ 10, mas é possível encontrar à venda em brechós ou no Enjoei por valores que vão de R$ 300 a R$ 800.”
Ela cita ainda algumas compras vantajosas: short-saia da Adidas comprado por R$ 0,85 e vendido por R$ 25; jaquetas da Adidas compradas por R$ 4 e vendidas por R$ 45; açucareiro de metal comprado por R$ 2 e vendido por R$ 15.
Curadoria transforma peças baratas em itens valorizados
Para transformar achados baratos em itens vendáveis, Adriana faz uma curadoria criteriosa e coloca as mãos na massa:
- lava e limpa todas as peças, muitas vezes à mão;
- passa papa-bolinha quando necessário;
- faz consertos como colocar botões, pequenas costuras e pinturas leves;
- recupera sapatos, trocando saltinhos e pintando quando preciso;
- aplica termolina em peças de couro para recuperar e impermeabilizar.
“Capricho e apresentação são tudo. Se chegar sujo, amassado ou faltando botão, as vendedoras nem olham”, afirma.
Hoje ela tem 35 peças na Peça Rara do bairro dos Jardins, na região conhecida por concentrar lojas de luxo da capital, 89 na unidade da Rua Frei Caneca, na região central de São Paulo, e já vendeu cerca de 15 na Vitrine Criativa, na Rua Augusta, também no Centro.
Como identificar ‘tesouros escondidos’ nos bazares
Adriana explica que avalia as peças “pela qualidade do tecido e depois pela marca”. Entre as que busca com mais frequência estão Prada, Schutz, Melissa, Salvatore Ferragamo e Ferri São Paulo.
Outras marcas também têm boa saída nos brechós, segundo ela: Zara, Adidas, Forever, Marfino, Rosa Chá e até C&A.
Ela também identifica bazares com maior potencial. O Arsenal da Esperança, no Brás, é um dos preferidos pela quantidade de peças, inclusive roupas italianas da Zara. “Ele sempre é realizado no segundo sábado do mês”, conta.
Transformar hobby em negócio: dá para viver disso?
A rotina ficou intensa: na semana anterior à reportagem, Adriana foi a bazares na quarta, sexta e sábado e agora tem um lote de 50 peças para curadoria. Para quem quer começar, ela dá um conselho direto: “Capricho. Apresentação é tudo.”
Economia circular deve movimentar US$ 355 bi em 2032
O mercado global de economia circular deve saltar de US$ 149,86 bilhões em 2024 para US$ 355,44 bilhões em 2032, segundo a DataM Intelligence. Esse avanço é impulsionado por fatores como gestão de resíduos, escassez de recursos e pressão ambiental.
O Banco Mundial projeta ainda 3,4 bilhões de toneladas de resíduos até 2050, o que pressiona governos a investir em reciclagem e eficiência.
“O crescimento da economia circular decorre de um conjunto de fatores, sejam ambientais, sociais ou econômicos. A necessidade de um novo modelo econômico sustentável, o aumento da conscientização sobre os limites dos recursos naturais e a busca por modelos de negócio inovadores e eficientes, sem dúvida, são os principais impulsionadores dessa transição do modelo linear para o circular”, diz Fabrício Soler, sócio da S2F Partners, especialista em economia circular e membro do Pacto Global da ONU (Organização das Nações Unidas).
E essa transformação, segundo ele, virá da mudança de comportamento dos governos e das empresas. “Das empresas que começaram a entender que a economia circular é um novo modelo, que estão buscando soluções para a redução do uso de matéria-prima virgem e estimulem as circularidades de materiais, o aproveitamento dos recursos.”
Agentes como Adriana movimentam a economia circular
Para Alexandre Miserani, professor de Economia do UniArnaldo, mulheres como Adriana têm papel central no novo modelo econômico. “São as verdadeiras agentes formais da economia circular”, afirma, ao destacar que esse trabalho recupera, preserva e recoloca peças no ciclo produtivo.
Ele observa que o fenômeno dos brechós cresceu no pós-pandemia e ajudou a desmistificar o uso de peças usadas no Brasil e reforça que a revenda reduz diretamente o impacto ambiental, embora ainda faltem números consolidados para mensurar isso.
Quando o assunto é o papel das empresas, Soler destaca que grandes corporações têm contribuído na tecnologia voltada à circularidade.
“Nós temos investimentos em ecodesign, extensão de vida útil, reparo de materiais. Também temos uma regulação contemporânea, como os sistemas de logística reversa, que viabilizam o retorno e a reciclagem de eletroeletrônicos, pneus e embalagens”, explica.
Soler reforça ainda que o Brasil conta com uma estratégia nacional de economia circular, além de fóruns e planos específicos para estruturar o setor.
Desafios brasileiros segundo especialistas
Miserani aponta obstáculos que impedem o Brasil de avançar mais rapidamente: falta de tecnologia; alto custo; logística deficiente; falta de incentivo tributário; legislação pouco favorável.
Ele defende políticas de crédito e incentivos à moda sustentável para fortalecer modelos como o de Adriana. Apesar de pioneiro na reciclagem de latas de alumínio, o país está muito atrás no aproveitamento de outros resíduos sólidos.
Jaques Paes, professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV, concorda e afirma que a economia circular enfrenta desafios estruturais — não só tecnológicos, mas ligados ao consumo.
“O fast fashion cria um ciclo em que você ‘precisa’ trocar a coleção todo ano. A economia circular parte de um ciclo regenerativo”, afirma.
Para ele, a legislação brasileira avança mais rápido que a infraestrutura disponível. Cita como exemplo a Política Nacional de Economia Circular: “É um projeto fadado ao fracasso porque não temos infraestrutura para isso”, diz.
Paes reforça que recuperar peças não é filantropia, mas atividade econômica. “Microcrédito e facilitação não são ‘ajuda’, são deveres do Estado”, completa.
O papel do consumidor e dos empreendedores da borda
Paes afirma que todos os consumidores são agentes da circularidade, mesmo sem perceber. E destaca que quem trabalha com curadoria e revenda de peças usadas tem importância central.
“São esses empreendedores que mantêm o ciclo vivo. Chamar de ‘garimpo’ diminui a importância do que fazem. Não é garimpo, é curadoria. É trabalho técnico.”
Ele lembra que o Brasil ainda tem resistência ao uso de peças usadas, mas percebe mudança impulsionada pela queda do poder de compra.
Economia circular: nicho ou dominante?
Paes acredita que a economia circular será dominante — não por política pública, mas por necessidade. Um dos sinais é a tendência da “servitização”, em que se compra o serviço, e não o produto.
“Alugar uma bolsa Prada, por exemplo: você não compra a peça, compra o status”, afirma.
Para ele, o avanço real da circularidade só virá quando houver mudança cultural: “a economia circular só prosperará quando deixarmos de tratá-la como exceção e a enxergarmos como parte do cotidiano.”
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IMAGENS: arquivo pessoal
