Eleição no Brasil e a estrada à frente

No final, direita, centro ou esquerda continuarão disputando eleições. Mas o verdadeiro desafio está na capacidade de construir uma visão de futuro que permita ao país gerar riqueza, emprego, estabilidade e prosperidade de forma consistente durante as próximas décadas

Paulo Salerno
26/Jun/2026
Trader, fotógrafo, empreendedor e enófilo
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Eleição no Brasil e a estrada à frente

Assistindo recentemente ao jornal, um comentário chamou minha atenção. A Alemanha, durante décadas símbolo da excelência industrial mundial, está sendo obrigada a repensar parte de seu modelo econômico. A concorrência chinesa tornou muito mais difícil competir em diversos segmentos tradicionais, especialmente em áreas como automóveis, máquinas industriais e produtos químicos.

Diante dessa nova realidade, o país discute uma transformação profunda de sua base produtiva, direcionando investimentos para setores considerados estratégicos para as próximas décadas, como defesa, semicondutores, segurança cibernética e tecnologias industriais avançadas.

Não se trata de abandonar a indústria. Trata-se de reconhecer que algumas atividades perderam competitividade, e que insistir em protegê-las indefinidamente pode significar desperdiçar recursos, talentos e oportunidades.

Ao observar esse movimento, não pude deixar de pensar no Brasil e na proximidade de mais um ciclo eleitoral. Em períodos de eleição, o debate político costuma ser dominado por uma disputa entre direita, centro e esquerda. Naturalmente, as diferenças ideológicas possuem importância. Elas influenciam a forma como governos enxergam impostos, gastos públicos, programas sociais, investimentos e regulação.

Mas talvez exista uma pergunta ainda mais importante. Que país queremos construir nos próximos vinte ou trinta anos ? Porque, no final das contas, os países que prosperam raramente são aqueles que apenas vencem eleições. São aqueles que conseguem construir consensos mínimos sobre seu futuro.

A Alemanha parece ter compreendido isso. Mesmo diante das mudanças políticas que ocorrem no continente europeu, existe um entendimento crescente de que a segurança, a tecnologia e a reindustrialização estratégica serão fundamentais para preservar empregos, renda e competitividade. O país está direcionando recursos para áreas nas quais acredita poder manter liderança global e gerar riqueza em um ambiente econômico cada vez mais competitivo.

Essa é uma opção, mas não é a única. Existe também o caminho seguido por países como Espanha e França. Durante décadas, ambos compreenderam que turismo, hospitalidade, cultura, gastronomia e serviços poderiam se transformar em pilares centrais de desenvolvimento econômico.

Hoje, a França continua sendo um dos países mais visitados do planeta, enquanto a Espanha recebe mais de 100 milhões de visitantes por ano. O impacto desse fluxo vai muito além dos hotéis e restaurantes. Ele movimenta companhias aéreas, comércio, construção civil, eventos, transportes, entretenimento, tecnologia, serviços financeiros e milhares de pequenas empresas espalhadas por todo o território.

O turismo tornou-se uma verdadeira indústria nacional. Uma indústria capaz de gerar divisas, empregos e crescimento econômico de forma consistente. Em muitos momentos, o desempenho do setor turístico espanhol ajudou a sustentar taxas de crescimento econômico superiores às observadas em boa parte da Europa.

O mais interessante é que os dois exemplos são bastante diferentes. A Alemanha aposta na tecnologia, na indústria avançada e na defesa. A Espanha e a França apostam fortemente na economia da experiência, do turismo e dos serviços. Mas existe um elemento comum entre eles. Ambos possuem uma estratégia. Ambos sabem onde desejam chegar. E ambos compreendem que crescimento econômico não acontece por acaso.

O Brasil, por sua vez, continua frequentemente preso a debates do século passado. Ainda discutimos setores que precisam de proteção permanente. Ainda investimos energia tentando preservar modelos de produção que perderam competitividade internacional. Ainda tratamos reformas estruturais como temas de curto prazo quando deveriam ser parte de um projeto nacional de longo alcance. Enquanto isso, novas oportunidades surgem diante de nós.

O país possui potencial para se tornar uma potência global em turismo. Possui recursos naturais únicos, biodiversidade incomparável, diversidade cultural extraordinária e uma capacidade de hospitalidade reconhecida mundialmente.

Ao mesmo tempo, possui condições para participar de cadeias globais ligadas à energia renovável, mineração estratégica, tecnologia agrícola, biocombustíveis, inteligência artificial aplicada ao agronegócio, data centers e manufatura avançada. Não precisamos escolher apenas um caminho. Mas precisamos escolher uma direção.

O maior risco para uma economia não é errar na estratégia. O maior risco é não possuir estratégia alguma. Para empresários, comerciantes e investidores, essa discussão é particularmente relevante. O comércio prospera quando existe previsibilidade. O investimento aumenta quando existe confiança. O emprego cresce quando existe expansão econômica sustentada.

Nenhum desses elementos depende exclusivamente de quem ocupa o Palácio do Planalto. Eles dependem da capacidade do país de construir um ambiente favorável ao crescimento ao longo de décadas. Os ciclos políticos passam. Os desafios estruturais permanecem.

A próxima eleição certamente produzirá debates intensos sobre impostos, gastos públicos, programas sociais e política econômica. Tudo isso é importante. Mas talvez a discussão mais importante seja outra. O que o Brasil pretende ser quando crescer? Uma potência turística? Uma potência energética? Uma potência agrícola e tecnológica? Um centro global de inovação em sustentabilidade? Uma combinação de todas essas possibilidades?

A resposta não precisa ser dada em uma campanha eleitoral. Ela precisa ser construída por uma geração inteira. Porque países que enriquecem não vivem apenas de governos. Vivem de projetos nacionais capazes de atravessar diferentes administrações, diferentes partidos e diferentes momentos políticos.

No final, direita, centro ou esquerda continuarão disputando eleições. Mas o verdadeiro desafio brasileiro não está na próxima urna. Está na capacidade de construir uma visão de futuro que permita ao país gerar riqueza, emprego, estabilidade e prosperidade de forma consistente durante as próximas décadas.

E essa é uma discussão que interessa não apenas aos políticos, mas a todos aqueles que produzem, investem, empreendem e movimentam diariamente a economia brasileira.


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