Em busca de um tertius

Por que, no Brasil, o candidato favorito de hoje pode ser derrotado nas urnas

Eymar Mascaro
09/Nov/2015
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Quando Lula decidiu lançar a candidatura da ministra-chefe da Casa Civil de seu governo, Dilma Rousseff, à sua sucessão, em 2010, o mundo político estranhou: como o presidente da República ousaria investir seu capital político em uma candidata-poste, que jamais havia concorrido a qualquer cargo eletivo, para enfrentar um partido forte e vitorioso nas urnas, como o PSDB? Enfrentar, enfim, um candidato testado nas urnas e vitoroso como José Serra?

O que se conhecia de Dilma, além de seu desempenho natural na Casa Civil, era seu passado de luta política na juventude em prol da redemocratização do País, após o golpe militar de 64, custando a ela a prisão, a tortura e a humilhação nos porões da ditadura.

Surpreendida com a ousadia de Lula, Dilma iniciou a campanha no marco zero de Ibope, contra 30% que dava ao candidato tucano, José Serra, todo o favoristimo do mundo. No fim, deu no que deu: Dilma surpreendeu e se elegeu presidente com 56 milhões de votos contra 44 milhões do adversário.

Dois anos depois, em 2012, Lula repetiria a dose, lançando um segundo candidato-poste, desta vez, para a Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, com a difícil missão de enfrentar o mesmo José Serra e, mais uma vez, o ex-presidente acertou na mosca. Lula, então, iluminou o segundo poste. A partir desta nova e surpreendente vitória, o ex-presidente disse que, "de poste em poste, vamos iluminar o País".

Parece que não é bem assim.

Os tempos, no entanto, eram de vacas gordas para Lula. Hoje, o Ibope que foi divulgado há 15 dias, aponta que o seu índice de rejeição bateu no teto, é de 55%.

Mas, sua sorte é que a sondagem da pesquisa seria comemorada pelos tucanos há três meses, época em que a perda de pontos do petista era capitalizada pelo senador Aécio Neves -que ainda se beneficiava do recall da campanha de 2014- além de beneficiar também outros dois tucanos igualmente presidenciáveis, José Serra e o governador Geraldo Alckmin. Quem também crescia com a derrapada de Lula era a ex-ministra Marina Silva (Rede Sustentabilidade).

Acontece que os prováveis adversários de Lula, em 2018, como Aécio, Serra, Alckmin e Marina, nada tem a comemorar, por enquanto, porque também seus índices de rejeição cresceram quase que na mesma proporção do de Lula, oscilando entre 47% e 54%.

No frigir dos ovos, portanto, os presidenciáveis estão com uma rejeição de ou acima de 50%, devido à descrença da população na classe política, a quem considera corrupta.

Os cientistas políticos se inquietam com o crescimento da rejeição de todos os presidenciáveis, com medo de que ocorra uma ruptura no processo democrático, caso ocorra uma agitação social já desencorajada pelo comandante-em chefe das Forças Armadas.

Se a tendência revelada pelo Ibope persistir até 2018 -com o eleitorado rejeitando os presidenciáveis naturais- as portas da sucessão presidencial estarão escancaradas para o êxito de um tértius -ou, para uma candidatura 3ª via -rompendo a tradição dos últimos 20 anos, em que as eleições são polarizadas entre PT e PSDB.

Durante o julgamento do Mensalão do PT pelo STF, em que os implicados foram condenados e presos, falou-se muito numa provável candidatura do então presidente da Corte, ministro Joaquim Barbosa, ao Palácio Planalto.

Barbosa, no entanto, antecipou sua aposentadoria e hoje goza a vida na cidade do Rio de Janeiro. Além de presidir o STF, Barbosa era o relator do Mensalão petista que, com mão de ferro, impôs duras penas a todos os envolvidos mandando para o presídio da Papuda, por exemplo, estrelas cintilantes do PT, como José Dirceu e José Genoíno.

Agora, os imediatistas que juntam os políticos no mesmo saco de farinha -independentemente dos partidos a que pertencem- sugerem que o juíz que preside as investigações na Operação Lava-Jato, Sérgio Moro, seja o tértius que procuram.

Eles se entusiasmam toda vez que o juiz manda para a cadeia políticos e empresários acusados de meterem a mão em dinheiro que não era seus. Mas, tanto Joaquim Barbosa como Sérgio Moro, negam qualquer intenção de se candidatar em 2018.

A história, contudo, ensina o óbvio: ganha a eleição quem tem voto e disponha de uma estrutura forte de campanha.

Em 1986, os eleitores mais decepcionados com os tradicionais políticos pediram um tértius na eleição de governador em São Paulo. Tanto fizeram que conseguiram convencer o empresário Antonio Ermírio de Moraes a se candidatar pelo PTB.

O povo fazia juras de amor por dr. Antonio Ermírio. Não se ouvia nenhuma voz contrária à sua candidatura durante toda a campanha. O povo, enfim, jurava fidelidade a Antonio Ermírio, mas quando a eleição chegou, votou em Orestes Quércia e Paulo Maluf. Antonio Ermírio declarou, após a derrota, que levaria para o túmulo  a maior decepção de sua vida. E levou.

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