Em juízo e em jogo
Apesar de as salvaguardas do Estado democrático de direito garantirem que justiça e política não se misturem, a distância entre o que está sendo julgado e o que está em jogo no País é muito menor do que gostaríamos de admitir.

As autoridades não foram constrangidas, a opinião pública não se comoveu e a ordem foi mantida.
Esse é o resumo do 10 de maio passado em Curitiba, bom augúrio de uma normalidade há muito desaparecida no Brasil.
O governo, por mais precário que pareça, governa; o legislativo, por mais suspeito que seja, legisla; e o judiciário, por mais dividido que esteja, julga.
E assim o País segue em frente, tentando superar a crise. Mas se o Brasil quiser realmente deixar para trás o desastre que o atingiu, será preciso entender, de alguma forma, o que lhe aconteceu, antes de chegarmos às urnas em 2018.
Na economia, o governo Temer está fazendo tudo certo, tudo que se espera de um governo que dispõe de quadros responsáveis e competentes.
Os indicadores estão aí: os índices de confiança dos empresários e consumidores melhoram e a inflação recua em todos os setores, abrindo espaço para novos cortes de juros.
A recessão pode estar no fim, mas a retomada econômica não acontece. E por que?
As melhores cabeças apontam as razões imediatas: desemprego, endividamento e falta de investimentos. Paira, no entanto, uma sensação de que está faltando algo.
Quem aposta no Brasil? Quem está disposto a investir no Brasil? Quem acha que as reformas fiscal, trabalhista e previdenciária vão durar além de 2018? Sem respondermos a essas perguntas não teremos resposta à grande questão que assombra o País há décadas: por que ele não cresce de forma sustentada?
Alguns economistas já apontaram a taxa histórica de crescimento da economia necessária (mas não suficiente, diga-se) para o Brasil se desenvolver: em torno de 6%, por alguns anos, até os fatos se imporem por si e não pelos legisladores e tecnocratas da engenharia social.
Mas a mera referência a esses índices, antes de ensejar qualquer reflexão mais ampla, desperta as vozes do imobilismo segundo as quais o Brasil não dispõe de capital, nem humano e nem financeiro, para sustentar tal nível de crescimento econômico. Aí está a raiz da questão: o País se recusa a mudar as expectativas sobre si próprio.
Capital é uma questão de expectativa.
E qual é a expectativa do Brasil nesse momento? Subdesenvolvimento? Impunidade? Corrupção? Subemprego? Benesses dos cartórios partidários?
Será que o País não aprendeu nada?
Olhemos com a possível isenção para os últimos anos: qual a grande realização do governo foi concluída, em favor do País e sem desvio de recursos? Cada um pode ter a sua resposta, mas a soma de todas vai, sem dúvida, definir o futuro do Brasil.
Por isso, apesar de as salvaguardas do Estado democrático de direito separarem justiça e política, a distância entre o que está sendo julgado e o que está em jogo no País é muito menor do que gostaríamos de admitir.
O que está sendo julgado é a culpa de uns por crimes que foram cometidos em nome de muitos: um problema da Justiça.
Muito mais grave é o que está em jogo: se eles vão voltar a fazer o que fizeram: um problema de todos nós.
* * * * * * * * * *
As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

