Escândalo do ministro Geddel suja reputação do governo
Ministro que faz a ligação entre o Planalto e o Congresso levou à demissão de seu colega da Cultura ao pressioná-lo para que Patrimônio Histórico não vetasse condomínio de 30 andares em Salvador. Temer disse que vai mantê-lo

Era só o que faltava. Num fim de ano crucial para a aprovação da PEC dos gastos públicos e a apresentação da reforma da Previdência, o principal elo de articulação entre o Planalto e o Congresso, Geddel Vieira Lima, está encrencado com abuso de autoridade e tráfico de influência.
O ministro da Secretaria de Governo foi acusado pelo ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero, de pressioná-lo para a aprovação da construção de um condomínio de 30 andares, em Salvador (BA), numa área em que a obra interferiria na paisagem de monumentos históricos.
A pressão de Geddel levou Calero a pedir demissão e a dar, no sábado, (12/11) entrevista à Folha de S. Paulo, em que relatou o episódio. Diplomata de carreira, o ex-ministro da Cultura não tinha nada a perder.
Sua denúncia foi imediatamente encaminhada à Comissão de Ética Pública da Presidência, que se reuniu nesta segunda (14/11) para decidir se abriria processo contra Geddel, o que poderia levar a sua advertência ou à recomendação de demissão.
Cinco dos sete integrantes da comissão votaram contra o articulador político de Michel Temer. Mas um sexto integrante, José Saraova Júnior, pediu vistas, o que adiaria a decisão para 14 de dezembro. Mas no início da noite Saraiva voltou atrás, votou pela abertura do processo e, com isso, o colegiado decidiu processar o ministro.
Mas a bomba-relógio já estava ativada. Deputados e senadores da base aliada do governo acreditam que a impunidade de Geddel afeta de modo negativo a relação entre o Planalto e o Congresso.
A verdade é que Geddel criou um imenso problema a partir de um interesse puramente pessoal. Ele tem uma opção de compra de um apartamento no edifício La Vue, na Ladeira da Barra, próxima ao farol de Santo Antônio e do forte de Santa Maria.
O condomínio, com apartamentos vendidos a R$ 2,5 milhões, dependia de uma autorização do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), subordinado ao ministro da Cultura. O Iphan autorizava apenas 13 dos andares planejados.
Calero disse à Folha que, truculento, Geddel insistiu para que a presidente do órgão, Kátia Bogea – uma respeitável funcionária de carreira – adotasse a posição do representante do Iphan em Salvador, Carlos Amorim, um apadrinhado dele.
INTERFERÊNCIA JÁ VINHA DE LONGE
Dois outros detalhes desabonadores para Geddel foram revelados durante o fim de semana. Em maio, ao assumir interinamente sua Pasta, o ministro sugeriu a Temer a criação de uma Secretaria Nacional de Patrimônio, para a qual indicaria, por coincidência, seu apadrinhado Carlos Amorim.
A secretaria cuidaria das autorizações de construções, cabendo ao Iphan, com atribuições amputadas, apenas fiscalizar as obras.
O plano foi abortado por Mara Gabrilli (PSDB-SP), relatora do projeto de organograma do novo governo na Câmara dos Deputados.
O segundo detalhe comprometedor é de que um dos primos de Geddel é o advogado da Cosbat, a construtora baiana responsável pelo controvertido empreendimento.
Em entrevista no domingo, Geddel foi em dois sentidos infeliz. Defendeu a torre de 30 andares porque ela garantiria empregos, numa época em que eles são tão necessários. É um argumento que opõe falsamente o desenvolvimento à preservação do patrimônio, muito comum durante o regime militar, quando essas questões não passavam pela discussão política.
Disse também que tratou do assunto com o então ministro Marcelo Calero “com transparência” (sic) e deu a entender não ver nada de mal nessa intervenção em assunto no qual tinha interesses materiais concretos.
Para o lugar de Calero, o presidente Michel Temer nomeou o deputado Roberto Freire (PPS-SP), que se apressou em afirmar que a decisão do Iphan seria respeitada.
Ou seja, nada de estragar uma paisagem histórica de Salvador com uma torre de 30 andares.
O fato é que o escândalo envolvendo Geddel Vieira Lima eclipsou a intenção do presidente Michel Temer de pôr o foco do noticiário, nesta segunda-feira, a primeira reunião em seu governo do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, um colegiado de 96 participantes e de caráter apenas consultivo.
QUEM É GEDDEL VIEIRA LIMA
Geddel Vieira Lima tem 57 anos e é de uma família baiana que fez fortuna na pecuária e no cacau. Elege-se deputado federal desde 2002. Foi entre 2007 e 2010 ministro da Integração Nacional do então presidente Lula.
Tinha excelentes relações com a cúpula do PT. Tanto que, em 2010, obteve de Lula e Dilma o compromisso de neutralidade na disputa pelo governo da Bahia, eleição em que ele foi derrotado pelo candidato petista Jaques Wagner.
No sábado (19/11), com a denúncia de Marcelo Calero encabeçando o noticiário em todo o país, Geddel procurou Temer e negou ter cometido ilegalidade.
Temer reagiu da maneira com que tem feito desde o início de seu governo. Não toma a iniciativa de demitir um ministro, mas espera que ele o faça, caso avalie os estragos que produziu na cúpula do governo.
Foi assim com o senador Romero Jucá (PMDB-RR), efêmero ministro do Planejamento, que caiu após a divulgação de escutas telefônicas nas quais ele conspirava contra o prosseguimento da Lava Jato.
Foi assim também com o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), que deixou o Ministério do Turismo depois de uma primeira delação que indicava que ele recebera de empreiteiras bem mais que caixa dois de campanha.
Por mais de uma ocasião, Temer tem afirmado que não se desfaria de auxiliares pela simples existência de acusações, mesmo acompanhadas de indiciamento.
Mesmo assim, o envolvimento de Geddel engrossa um caldo muitíssimo negativo para o Planalto e provoca a erosão da credibilidade política do próprio presidente.
Mas em nota divulgada nao final da tarde desta segunda-feira, o presidente disse que manteria Geddel e deu a entender que ele saiu perdendo no confronto com o Ministério da Cultura, já que prevalecerá o veto do Iphan à edificação do prédio em Salvador.
E reforça a ideia de que os principais dirigentes do PMDB, heterodoxos quanto aos valores éticos, acomodam-se com todo o conforto num governo que está longe de servir de exemplo para os partidários da creptocracia do Partido dos Trabalhadores, afastada do Executivo pelo impeachment.
FOTO: Valter Campanato/Agência Brasil

