Expansão evitou o fim da Dona Deôla

Uma das redes de padarias mais tradicionais de São Paulo quase fechou as portas em seu segundo ano de vida. Ampliar o negócio foi a salvação

Mariana Missiaggia
08/Jul/2016
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Expansão evitou o fim da Dona Deôla

“Sabe quando você está perdendo no jogo de pôquer e, em vez de parar de jogar, você dobra a aposta?”. É assim que Flavio Del Nero Gomes, 59 anos, diretor financeiro da Dona Deôla, começa a contar a história da conhecida rede paulistana de padarias.

Gomes participou de cada detalhe da fundação e da posterior transformação da padaria que se tornou referência no setor, batizada em homenagem à avó de seus criadores.

Gomes, casado com uma neta da fundadora, é hoje responsável por toda a gestão do negócio, que quase fechou as portas dois anos após a inauguração.

COMO TUDO COMEÇOU

Em 1996, inspirados pela vocação empreendedora da avó Deolinda, três netos decidiram juntos criar uma fonte de renda alternativa aos empregos formais que mantinham.

A ideia surgiu com a desocupação do imóvel  onde a imigrante portuguesa morou e fundou a padaria Do Lar, na década de 1940. 

IMÓVEL ONDE DONA DEOLA FUNDOU A PADARIA DO LAR, NA POMPEIA

Era no próprio casarão em que morava, na avenida Pompeia, na zona oeste de São Paulo, que dona Deôla, como era conhecida por todos, preparava e vendia seus quitutes. Entre as receitas, o pudim de leite condensado, e a pizza estavam entre os preferidos da clientela.

A empreitada durou pouco mais de uma década, até que ela optou por mudar de ramo. “Não que o negócio não fosse lucrativo. É que ela era dinâmica, e tudo o que fazia dava certo”, diz Gomes.

Decididos a resgatar a história do imóvel herdado pela avó, o trio não tinha nenhuma experiência com comércio e a área de panificação.

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Mesmo assim, eles reformaram o espaço, recuperaram o pouco que restava da estrutura industrial deixada por Deolinda, e abriram as portas em 1996 – a primeira unidade da Dona Deôla.

A falta de experiência, e a ausência de dedicação integral dos sócios com o negócio começaram a refletir nos primeiros números da padaria -bem longe do esperado.

Após dois anos de operação, eles assumiram que o investimento já não fazia mais sentido, e colocaram a loja à venda. No entanto, pior que o desempenho da padaria, foram as ofertas que receberam.

PRIMEIRA UNIDADE DA DONA DEÔLA, NO MESMO IMÓVEL EM QUE DEOLINDA FUNDOU A PADARIA DO LAR

“Queríamos recuperar o investimento, mas as propostas não cobriam o valor. Então, decidimos arriscar tudo, e compramos outra loja no Alto da Lapa”, diz.

A decisão foi certeira. Com o conceito inovador de conjugar padaria e restaurante, eles obtiveram recursos do BNDES, decididos a corrigir tudo o que haviam feito de errado na primeira loja.

Para tanto, foram em busca de profissionais que eram referência no mercado, como um padeiro italiano, e um confeiteiro mexicano. 

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O estabelecimento passou a servir café da manhã e almoço por quilo. Também instalaram tecnologia em alguns processos, como comandas eletrônicas e catracas de controle de acesso, em uma época em que nenhuma outra padaria dispunha desse sistema. A Dona Deôla passou a funcionar 24 horas.

Em pouco mais de seis meses, a abertura de uma segunda unidade trouxe equilíbrio às contas do escritório, e proporcionou a estabilidade que a família necessitava para erguer uma das redes mais tradicionais da capital.

Engenheiro de produção por formação, Gomes abriu mão dos 25 anos dedicados ao mercado financeiro, para gerir a rede em tempo integral.

Há atualmente seis padarias (Higienópolis, Pompeia, Alto da Lapa, Granja Viana, Itaim Bibi, e Saúde), oito espaços em hospitais da capital, e outros três formatos de serviços – buffet, in company,  e vendas corporativas, que tem clientes, como Itaú, os hospitais Sírio Libanês, e São Camilo, e a rede D´Or.  

Sem revelar números do faturamento, Gomes aponta que as padarias são responsáveis por 55% do faturamento do grupo, que possui 850 funcionários, atende 15 mil pessoas por dia, e vende 5 toneladas de bolo placa, por mês.

GOMES, CASADO COM UM NETA DE DONA DEÔLA, É RESPONSÁVEL PELA GESTÃO DO NEGÓCIO

O empresário resume a receita de sucesso da Dona Deôla em uma rotina de trabalho intensa aliada a uma estrutura afinada para operar três turnos sem interrupção.

“Somos ao mesmo tempo indústria e comércio. Respondo pelos números, mas me preocupo o dia todo se tivemos alguma fornada de pão queimado”.

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A exemplo da maioria dos segmantos, o de padarias também não passa ileso pela crise. Em 2015, o crescimento de 2,7% foi visto como negativo, cotejado com a inflação de 11%. 

Com o aumento do desemprego, algumas lojas da Dona Deôla registram uma redução de até 10% no movimento de clientes.

A unidade do Itaim Bibi, cercada por escritórios é um exemplo. Atento a esse cenário, a rede diversificou o cardápio, oferece promoções que atraem os diferentes tipos de público, e investe na divulgação, sobretudo na região do empreendimento.

“O setor de alimentos é um dos menos prejudicados, mas é preciso estar atento. O comerciante deve ser mais proativo, que reativo", diz.  

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