Expansão evitou o fim da Dona Deôla
Uma das redes de padarias mais tradicionais de São Paulo quase fechou as portas em seu segundo ano de vida. Ampliar o negócio foi a salvação

“Sabe quando você está perdendo no jogo de pôquer e, em vez de parar de jogar, você dobra a aposta?”. É assim que Flavio Del Nero Gomes, 59 anos, diretor financeiro da Dona Deôla, começa a contar a história da conhecida rede paulistana de padarias.
Gomes participou de cada detalhe da fundação e da posterior transformação da padaria que se tornou referência no setor, batizada em homenagem à avó de seus criadores.
Gomes, casado com uma neta da fundadora, é hoje responsável por toda a gestão do negócio, que quase fechou as portas dois anos após a inauguração.
COMO TUDO COMEÇOU
Em 1996, inspirados pela vocação empreendedora da avó Deolinda, três netos decidiram juntos criar uma fonte de renda alternativa aos empregos formais que mantinham.
A ideia surgiu com a desocupação do imóvel onde a imigrante portuguesa morou e fundou a padaria Do Lar, na década de 1940.
Era no próprio casarão em que morava, na avenida Pompeia, na zona oeste de São Paulo, que dona Deôla, como era conhecida por todos, preparava e vendia seus quitutes. Entre as receitas, o pudim de leite condensado, e a pizza estavam entre os preferidos da clientela.
A empreitada durou pouco mais de uma década, até que ela optou por mudar de ramo. “Não que o negócio não fosse lucrativo. É que ela era dinâmica, e tudo o que fazia dava certo”, diz Gomes.
Decididos a resgatar a história do imóvel herdado pela avó, o trio não tinha nenhuma experiência com comércio e a área de panificação.
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Mesmo assim, eles reformaram o espaço, recuperaram o pouco que restava da estrutura industrial deixada por Deolinda, e abriram as portas em 1996 – a primeira unidade da Dona Deôla.
A falta de experiência, e a ausência de dedicação integral dos sócios com o negócio começaram a refletir nos primeiros números da padaria -bem longe do esperado.
Após dois anos de operação, eles assumiram que o investimento já não fazia mais sentido, e colocaram a loja à venda. No entanto, pior que o desempenho da padaria, foram as ofertas que receberam.
“Queríamos recuperar o investimento, mas as propostas não cobriam o valor. Então, decidimos arriscar tudo, e compramos outra loja no Alto da Lapa”, diz.
A decisão foi certeira. Com o conceito inovador de conjugar padaria e restaurante, eles obtiveram recursos do BNDES, decididos a corrigir tudo o que haviam feito de errado na primeira loja.
Para tanto, foram em busca de profissionais que eram referência no mercado, como um padeiro italiano, e um confeiteiro mexicano.
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O estabelecimento passou a servir café da manhã e almoço por quilo. Também instalaram tecnologia em alguns processos, como comandas eletrônicas e catracas de controle de acesso, em uma época em que nenhuma outra padaria dispunha desse sistema. A Dona Deôla passou a funcionar 24 horas.
Em pouco mais de seis meses, a abertura de uma segunda unidade trouxe equilíbrio às contas do escritório, e proporcionou a estabilidade que a família necessitava para erguer uma das redes mais tradicionais da capital.
Engenheiro de produção por formação, Gomes abriu mão dos 25 anos dedicados ao mercado financeiro, para gerir a rede em tempo integral.
Há atualmente seis padarias (Higienópolis, Pompeia, Alto da Lapa, Granja Viana, Itaim Bibi, e Saúde), oito espaços em hospitais da capital, e outros três formatos de serviços – buffet, in company, e vendas corporativas, que tem clientes, como Itaú, os hospitais Sírio Libanês, e São Camilo, e a rede D´Or.
Sem revelar números do faturamento, Gomes aponta que as padarias são responsáveis por 55% do faturamento do grupo, que possui 850 funcionários, atende 15 mil pessoas por dia, e vende 5 toneladas de bolo placa, por mês.
O empresário resume a receita de sucesso da Dona Deôla em uma rotina de trabalho intensa aliada a uma estrutura afinada para operar três turnos sem interrupção.
“Somos ao mesmo tempo indústria e comércio. Respondo pelos números, mas me preocupo o dia todo se tivemos alguma fornada de pão queimado”.
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A exemplo da maioria dos segmantos, o de padarias também não passa ileso pela crise. Em 2015, o crescimento de 2,7% foi visto como negativo, cotejado com a inflação de 11%.
Com o aumento do desemprego, algumas lojas da Dona Deôla registram uma redução de até 10% no movimento de clientes.
A unidade do Itaim Bibi, cercada por escritórios é um exemplo. Atento a esse cenário, a rede diversificou o cardápio, oferece promoções que atraem os diferentes tipos de público, e investe na divulgação, sobretudo na região do empreendimento.
“O setor de alimentos é um dos menos prejudicados, mas é preciso estar atento. O comerciante deve ser mais proativo, que reativo", diz.
A portuguesa Deolinda chegou ao Brasil, e fundou a padaria Do Lar
Juntas, as seis lojas atendem 15 mil pessoas por dia
No total, a rede possui são 850 funcionários
Bolo bem-casado é o carro-chefe da Dona Deôla - são 5 toneladas de bolo por mês
Pizzas são servidas até às 2h da madrugada
Em período de crise, unidades perderam até 10% do público diário




