Governo vê com 'surpresa' rebaixamento
Na equipe do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o desânimo com a decisão foi gigantesco. Para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a 'notícia ruim' é consequência do que vem sendo feito progressivamente no país

Apesar de já ser esperado pelo governo que fosse anunciada a perda do grau de investimento do país, o governo tinha esperança que ainda tivesse um tempo antes que a agência de classificação de risco Standard & Poor?s anunciasse o rebaixamento, que é um novo e grave problema para o Planalto.
Daí a pressa e o desespero do governo em encontrar receitas para cobrir o rombo das contas públicas, pois acreditavam que com a apresentação destas alternativas, teriam um fôlego.
O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, reconheceu que a notícia foi recebida com surpresa pelo Planalto. "Houve surpresa, mas estamos trabalhando", disse, após reunião com a presidente Dilma Rousseff.
Segundo ele, a mensagem do governo após o rebaixamento é de tranquilidade e de segurança para todos, "porque continuamos com o esforço de melhorar a situação fiscal do Brasil".
De acordo com o ministro, o governo avalia que a medida não muda a trajetória de recuperação da economia de reconstrução do equilíbrio fiscal e que o mais importante é que o governo brasileiro continua a honrar todos os seus contratos. Barbosa reafirmou que o governo segue construindo as condições para o equilíbrio fiscal, que reúne várias frentes, como o controle de gastos e as medidas para recuperação de receita. O momento, frisou, é de travessia e de recuperação da atividade econômica.
DESÂNIMO
Na equipe do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, porém, o desânimo com a decisão foi gigantesco. Já se sabia que o governo teria pouco tempo - no máximo dois meses - para evitar a perda da nota que garante confiança para orientar as decisões dos investidores.
Mas o prazo encurtou nos últimos dias com a dificuldade do governo em construir com o Congresso Nacional uma saída para evitar, em 2016, o terceiro déficit consecutivo das contas do setor público. Isso porque já está na conta que, em 2015, o resultado será negativo, seguindo o que ocorreu em 2014.
A frustração é grande porque o governo brasileiro demorou para alicerçar o caminho que levou o Brasil a conquistar, no dia de 30 de abril de 2008, o grau de investimento da mesma S&P.
A agência internacional de risco agora sai novamente na frente ao rebaixar a nota e colocar o País na categoria de grau especulativo. E, mais do que isso, sabe-se que é muito difícil para um país que ganhou e depois perdeu o selo de uma agência de rating conseguir recuperá-lo.
Em reuniões reservadas, no encontro do G-20, no final de semana passado, o ministro Levy e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, já haviam manifestado preocupação com o risco de perda do grau de investimento.
Alertas não faltaram. Joaquim Levy, que ingressou no governo com a missão prioritária de evitar o rebaixamento, perdeu mais essa bandeira. Isso pode fragilizar ainda mais a sua posição no governo. Por mais que se diga o contrário. Para ficar, vai precisar de muito apoio para levar à frente seu plano de ajuste fiscal.
OPOSIÇÃO
Informado durante um debate que o Brasil havia perdido o grau de investimento na classificação da Agência Standard & Poor's, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que "é consequência do que vem sendo feito progressivamente" no país.
Pouco antes, o ex-presidente havia mencionado, sem citar nomes, que países vizinhos pararam no tempo. "Esse é um risco real do Brasil", afirmou. Fernando Henrique considerou o rebaixamento uma "notícia ruim".
Para o ex-presidente, não há ambiente para aumento de impostos, porque o governo perdeu a credibilidade e não dá sinais de que vá cortar gastos e empregar de maneira adequada eventuais recursos vindos de novos tributos.
"Já temos remédio amargo, essa angústia que estamos vivendo é um remédio amargo", afirmou, repetindo expressão usada pela presidente Dilma Rousseff (PT).
O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), afirmou que a decisão da Standard and Poor's de retirar o grau de investimento do País mostra que o governo Dilma Rousseff acabou.
Para o tucano, a decisão é fruto de erros sucessivos na política econômica nos últimos seis anos, agravados pelo desvio de recursos públicos e aparelhamento político das estatais.
"Infelizmente, a perda do grau de investimento do Brasil e a perspectiva de revisão negativa nos próximos doze meses mostram que o governo da presidente Dilma acabou", disse o tucano, em nota intitulada "Um desastre anunciado. Resultado da incompetência e dos erros do governo".
Para Aécio, o cenário é ainda mais grave porque há um governo no qual a presidente terceirizou a política econômica. Ele disse que o Executivo hoje não tem uma base política com força para aprovar reformas estruturais e não tem sequer um plano de governo.
FOTO: Agência Brasil


