Há oportunidades para investir quando o pessimismo é excessivo
Mark Mobius (foto), presidente executivo de mercados emergentes da gestora Franklin Templeton, diz que o momento é bom para comprar ações. Na opinião dele, a solução para a crise da Petrobras deve passar pelo pedido de recuperação judicial

Quem está no Brasil desde o final dos anos 80, quando a inflação chegou aos impressionantes 2000%, não se assusta facilmente com uma crise como a atual. A situação era muito pior, e hoje um ponto positivo para o país é o aumento no grau de transparência do sistema, amplificada pela investigações de corrupção. Pelo menos essa é a avaliação de Mark Mobius, presidente-executivo de mercados emergentes da gestora global Franklin Templeton, que faz a gestão de US$ 30 bilhões em ativos.
“E isso melhorou muito. Quando a transparência resulta em ações, fico mais otimista em relação a reformas importantes que o Brasil precisa. Claro que elas não ocorrerão de um dia para o outro”, afirmou em encontro com jornalistas nesta sexta-feira (05/02).
Ele destacou que as reformas da Previdência, tributária e trabalhista seriam suficientes para ajudar o país no processo de recuperação da economia nos próximos três anos. Também disse que o impeachment não necessariamente seria positivo para a economia brasileira no longo prazo e que o atual governo poderá endereçar as reformas.
Para Mobius, a perda do grau de investimento pelo Brasil e possíveis novos cortes de nota de classificação de risco de crédito – a Moody’s , por exemplo, fez a visita técnica ao Brasil na última semana – não devem influenciar de forma considerável o humor do investidor.
“Eles aprenderam com as agências de rating. Você lembra da crise do subprime (nos Estados Unidos), quando as agências classificaram os títulos com a nota A (de boa qualidade), mas na verdade eles eram junks (má qualidade e de alto risco de calote no jargão do mercado)? Muitos investiram e perderam milhões de dólares. Por isso, quando a agência retira o grau de investimento, a influência não é mais a mesma, porque geralmente está atrasada”, afirma.
Mobius disse que o Brasil ainda é um mercado de grande potencial, no qual os investidores estrangeiros podem encontrar oportunidades para investir neste momento.
Há um ano, o fundo global da Franklin Templeton tinha 3% de seus recursos, o correspondente a US$ 1,7 bilhão em investimentos no Brasil, em especial ações de empresas. Mobius disse que essa exposição foi reduzida para menos de US$ 1 bilhão neste ano.
O executivo disse que continua comprando ações e manteve na carteira os papéis de Itaú Unibanco, Bradesco, Ambev, Localiza, BM&F Bovespa, que geraram perdas de curto prazo.
Há seis meses, deixou de ter ações da Petrobras na carteira e atualmente não investe em nenhuma petroleira. A recuperação da estatal, segundo ele, dependerá mais da direção do preço internacional do petróleo. Segundo ele, seria necessária uma valorização de 80% no preço do barril, atualmente em US$ 31,96.
Mobius disse que um caminho para a Petrobras - que enfrenta uma dívida elevada - é o pedido de recuperação judicial, o capítulo 11 (chapter eleven, nos Estados Unidos), para reestruturar as finanças da companhia.
A principal preocupação do investidor estrangeiro em relação ao Brasil, segundo ele, é a taxa de câmbio, que deve uma depreciação muito rápida e forte no último ano. A segunda preocupação é com a taxa básica de juros (Selic) que no atual patamar torna o custo de financiamento das empresas elevado.
“E assim elas se tornam menos lucrativas. Lembre que o investidor procura por crescimento. Além disso, houve uma forte queda na confiança do consumidor e nas vendas. A grande questão agora e para qual os investidores olham é quem serão as empresas sobreviventes, as que conseguirão elevar a participação de mercado, quais vão exportar mais”, avalia.
O principal fator doméstico para a crise no Brasil é justamente a falta de confiança. "O consumidor perdeu a confiança. A inflação no país está elevada e há a incerteza em relação ao emprego e à renda. Por isso, o consumidor está comprando menos, com medo de perder o emprego", conclui.
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