"Hoje o país enfrenta bons problemas", diz André Perfeito
O economista-chefe da Gradual Investimentos afirma que o país passa por um momento de mudança de mentalidade, e que uma saída sensata da crise dependerá da reorganização política da presidente

Apesar de admitir que a desaceleração da economia será profunda neste ano, com uma queda de 1,8% do PIB (Produto Interno Bruto, soma de bens e serviços produzidos pelo país), o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, não está entre os mais pessimistas quando o assunto é o Brasil.
Um exemplo disso é que ele não concorda com a tese – dada como certa por alguns economistas - de que o país perderá o grau de investimento rapidamente pelas agências internacionais de classificação de risco de crédito.
Também se posiciona contra a corrente quando o assunto é o fim do ciclo de aumento da taxa básica de juros (Selic), para a qual acredita que ocorrerá mais um aumento de 0,25 ponto percentual (p.p.) na reunião que ocorrerá em setembro.
Após o último ajuste da taxa, para 14,25% ao ano, o mercado entendeu que o ciclo de alta da Selic teria chegado ao fim.
“O Banco Central não para de bater na tecla de que quer ancorar as expectativas para a inflação no ano que vem. E isso ainda não aconteceu”, diz Perfeito.
Exemplo disso apareceu, nesta semana, nas projeções de economistas que participam do relatório Focus, do Banco Central. A expectativa para a inflação de 2016 passou de 5,40% ao ano para 5,43% ao ano de uma semana para outra.
Perfeito, que foi eleito economista-chefe do ano pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB), disse que vê de forma positiva o que chama de uma “transição de mentalidade” pela qual o país está passando.
Esse processo, diz, não considera apenas o que está acontecendo na economia, mas também na política. E isso é algo que o instiga, já que Perfeito é especialista em econometria pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) e mestre em Economia Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde lecionou até 2010.
As opiniões diferentes da maioria conferem ao economista a alcunha de otimista neste ano de recessão e de incertezas na política e na economia.
“Dizem isso, mas não sou otimista. O fato é que estamos enfrentando, finalmente, os bons problemas. Um deles é sobre como vamos negociar o presidencialismo de coalizão. Na base da mesada é que não poderá ser mais. As inflamações estão aparecendo simultaneamente, mas isso não é ruim”, diz.
Outra característica desse momento – e que tem conturbado muito o cenário político e econômico – é a corrupção sendo combatida no Judiciário.
O terceiro “bom problema” está relacionado à taxa de juros real (descontada a inflação) que, mesmo subindo neste ano, está em um patamar menor do que na década de 1990. “É a incerteza que leva a taxa de juros a subir que precisamos combater”, diz.
Em entrevista ao Diário do Comércio ele fala sobre esse momento de transição de mentalidade e de como o Brasil poderia sair da crise.
As projeções para a economia estão ficando defasadas muito rapidamente, e isso é consequência da crise política. Esse estresse vai continuar?
Sim. É bem provável que haja uma continuidade do estresse político, que vai se traduzir em juros mais altos [no mercado futuro]. No câmbio, talvez, a crise tenha testado alguns limites. O próprio governo se mostrou preocupado com isso.
O mercado entende que, mesmo com a incerteza, não dá para avançar tanto. A principal tensão ficará na taxa de juros futuros e na parte mais longa da curva prefixada. Isso ocorreu em agosto e sinaliza a possibilidade de o investimento ser menor no ano que vem.
Mas esse tipo de risco não está consolidado. É um movimento abrupto que pode voltar se a parte política for distensionada.
Acredita que o Brasil perde o grau de investimento?
A possibilidade de rebaixamento da nota sempre existe, ainda mais em um cenário de descontrole político, que impõe uma agenda de pauta-bomba.
É melhor que o governo unifique todas as propostas de ajustes, já que negociar fatiado se mostrou pouco efetivo. O presidente do Congresso tem de arcar com o ônus de que ele não quer fazer o ajuste de jeito nenhum. Assim, as forças da sociedade também jogariam pressão sobre o Congresso para que o ajuste fosse possível.
Por que esse ajuste não tem o apoio que deveria?
Infelizmente optamos por um ajuste recessivo, cuja variável principal é a redução do salário real. Isso está em curso. Não tem como virar ou dar uma guinada no barco agora. Esse é um processo que tende a ser doloroso.
Mas, se for feito de forma que consiga atingir algum resultado fiscal, nem que seja em torno de zero esse ano (para o superávit primário), é provável que a gente segure as expectativas e a economia melhore no ano que vem.
Que cenário observa para o Brasil no caso de rebaixamento da nota?
Não vejo esse cenário. E sabe por que? Porque há um palco político que tem de ser desfeito e que é o seguinte: com a Dilma é ruim, mas sem ela pode ser pior. Com esse ajuste nos salários, os movimentos sociais serão mobilizados pelo PT. Então, eu acho que seria pior sem a Dilma.
Nesse sentido, vejo que não haverá rebaixamento. E, cá entre nós, o Brasil é o país que mais paga taxa de juros no mundo, entre os principais países.
Retirar nosso grau de investimento é tirar o Brasil do radar de uma série de clientes importantes no exterior, que obviamente também vão pressionar, na medida do possível, para que o país não seja rebaixado. É preciso prestar atenção ao jogo político também.
Quanto tempo acha que a crise vai durar? Há quem fale em quatro anos.
Vai demorar por conta da dinâmica política, que não se sabe exatamente quando termina. Agora, por que quatro anos? Por causa da Dilma? O problema não é ela, na minha opinião.
O problema é que houve uma evolução dos salários que diminuiu a rentabilidade do capital no Brasil. Isso foi mais dramático do que simplesmente retirar a presidente do cargo. As pessoas estão se iludindo muito facilmente com uma solução simplista.
Mas há uma insatisfação geral, principalmente por causa do clima de incerteza...
O Brasil já passou por crises piores. Acho que podemos ter a serenidade de passar por esse processo porque o país tem instituições mais organizadas.
Até mesmo o mal-estar político de hoje é resultado do avanço de instituições. Temos a Polícia Federal, o Ministério Público e o Judiciário atuantes. E isso é bom. Eu fico preocupado porque as pessoas acham que está tudo ruim. Não está. Na verdade, estamos estirpando incômodos e dores, algo possível de fazer hoje.
Agora, há muita coisa a perder além do que simplesmente o fato da Dilma sair ou ficar. Estamos falando de um projeto de país que foi construído e está encaminhado.
Se forçarem a mão, a economia desaceleraria mais rapidamente e muita coisa ruim pode acontecer. Aí sim, estaremos jogados na incerteza. E isso dá medo. Mas estou otimista e acho que estamos munidos intelectualmente para dar um salto.
Então por que a sensação é a de que tudo piorou?
A verdade é que há muitos riscos para a economia hoje, mas o Brasil já foi muito pior. Desde o Plano Real, ocorreram avanços institucionais importantes, que nada têm a ver com um partido ou outro. Quem construiu isso foi a sociedade brasileira, e hoje enfrentamos os bons problemas (como a investigação dos casos de corrupção, o desgaste do presidencialismo de coalizão).
Antigamente, a nossa taxa de juro real era de 12% ao ano [descontada a inflação. Hoje, a Selic deflacionada pelo IPCA do ano está em torno de 7%].
Com uma taxa de juro real tão alta, o mercado era disfuncional. Hoje, criamos finalmente a capacidade de ter um tipo de taxa a qual é possível lidar com o futuro. Hoje, temos aplicações como os FIDCs (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) e debêntures (títulos de dívida de empresas). Todos esses produtos de crédito privado, impossíveis no passado, existem e estão sendo usados.
Acho que podemos fazer uma ponte para o futuro de maneira mais serena e adequada. Basta que tenhamos tranquilidade política. Porém, eu me questiono sobre a capacidade da presidente Dilma de fazer essa ponte, apesar de alguns movimentos na sociedade tentarem validá-la. Ela terá de se reorganizar politicamente para conseguir.
Foto: Jane Amorim/Divulgação OEB

