Lula e FHC
Os dois sempre se respeitaram mutuamente. Houve tempo em que Lula era um dos oradores reservados para encerrar os comícios de Fernando Henrique
A jornalista Sônia Russo lançou um livro diferente e cheio de curiosidades, retratando a trajetória política de Fernando Henrique Cardoso, desde a época em que ele deixou a presidência do Cebrap para mergulhar vitoriosamente na vida pública.
O livro conta a história dos 40 anos de atividade político-partidária do ex-presidente, mas usando apenas fotos legendadas. Nada de texto corrido. Quem folheia a obra, no entanto, vai constatar um grande volume de fotos de Lula, que só perde para o número de fotos do próprio biografado, FHC.
Existe uma explicação plausível para que Lula debutasse tanto no livro sobre o ex-presidente tucano: ele se engajou por inteiro na primeira campanha que FHC enfrentou, que foi como candidato ao Senado, em 1978, ano em que Lula ainda vivia um período de vacas magras recebendo um magro salário de torneiro mecânico, mas encontrando tempo para desempenhar sua função de diretor no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.
Naquela época, Lula ensaiava os primeiros passos para ingressar na política, mas sua estampa já assustava os eleitores das classes média e da elite, aparecendo no noticiário e nas fotos vestindo macacão de operário e usando uma barba parecida com a de Fidel Castro.
Professor da USP, Fernando Henrique iniciava a carreira política gozando da fama de ser um intelectual brilhante, que costumava reunir a nata da intelectualidade no Cebrap para debater temas complexos, como o marxismo. Seu primeiro partido foi o PMDB, o mesmo de Mário Covas, Franco Montoro, José Serra, Geraldo Alckmin e Orestes Quércia.
A base eleitoral de FHC era raquítica. Sua reserva de votos era restrita aos intelectuais e profissionais liberais que abraçaram sua candidatura ao Senado. Faltava a ele, no entanto, o apoio dos trabalhadores e dos sindicatos.
Foi nesse ponto que Lula entrou em cena e se tornou uma alavanca importante da vitoriosa campanha do então professor famoso, levando o que faltava para o candidato, isto é, "votos do povo".
Como repórter do Jornal do Brasil na época acompanhei toda a campanha de FHC e constatei que Lula era um dos oradores reservados para encerrar os comícios do candidato.
Somente mais tarde é que surgiu na vida de FHC o ex-ministro Sérgio Motta, que se tornou um amigo fiel e confidente nº 1, que levou para o túmulo a mágica que realizou para aprovar no Congresso o direito da reeleição de Fernando Henrique.
Um dos fatos que chamaram a atenção na eleição de 1978 foi a ciumeira que a candidatura de FHC provocou no grupo ligado a Franco Montoro, que sentia a perda de espaço no partido para aquele iniciante na vida pública.
Houve manifestações veladas na convenção do partido que lançou a candidatura de FHC. Ouviu-se até arremedo de vaias que partiam dos montoristas, que tinham motivo para temer o crescimento de Fernando Henrique, que, afinal, conseguiu crescer e se eleger presidente da República duas vezes.
Foi também em 1978 que Lula começou a falar na criação de um novo partido que representasse a classe trabalhadora. A simples menção de que a nova sigla seria batizada de Partido dos Trabalhadores mereceu modesta reação de militares que não apoiavam a política de distensão que começava a ganhar corpo entre os homens fardados do Poder.
A promessa que Lula fez de criar o novo partido se tornou realidade dois anos mais tarde, em 1980, quando nasceu o PT, tendo por berço a cidade de São Bernardo.
Lula e Fernando Henrique sempre se respeitaram mutuamente. As pequenas desavenças entre os dois surgiram nas duas eleições presidenciais (1994 e 1998) em que FHC derrotou Lula; mas o petista deu troco no tucano, batendo nas urnas os quatro candidatos do PSDB ao Planalto nas eleições seguintes, em 2002, 2006, 2010 e 2014.
Há dias, os jornais publicaram a notícia de que Lula queria se encontrar com Fernando Henrique para discutir a crise que abala o País. Lula não confirmou mas também não desmentiu a informação. Pelo sim, pelo não, FHC tirou o corpo fora, pressionado pelos tucanos que querem embarcar no impeachment da presidente Dilma Rousseff.
Uma coisa, porém, é certa: quem conhece os hábitos e a cautela dos dois ex-presidentes não duvida de que telefonemas de ambos os lados cruzam atualmente os céus da capital paulista ligando o Instituto Lula ao Instituto Fernando Henrique. Afinal, macaco velho não pula em galho seco.

