Me dá um dinheiro aí
Por que o banqueiro Olavo Setúbal desistiu de ser candidato ao governo paulista
Caso 1:
A eleição de governador em São Paulo costuma pregar algumas peças surpreendentes aos partidos e ao eleitorado, como foi constatado quando o PFL, que era presidido por José Maria Marin, decidiu bancar a candidatura do empresário e banqueiro Olavo Setúbal, mesmo sabendo que ele teria de enfretar adversários bons de voto.
Depois de encontros, desencontros e acertos prá lá e prá cá, Setúbal resolveu encarar o desafio de tentar galgar o Palácio dos Bandeirantes pelo voto direto e democrático, depois de ter sido prefeito biônico da Capital.
Surpreendentemente, Setúbal decidiu ir à luta com o apoio do governador Paulo Egídio Martins. Ele começaria a campanha precedido pela marca de ter sido um prefeito que deixava o Ibirapuera com excelente índice de aprovação nas pesquisas e a fama de ter sido um prefeito que se encarregou de administrar tornando a cidade mais humanizada.
A convenção do PFL para homologar a candidatura do banqueiro, como exige a legislação eleitoral, foi realizada no plenário da Assembléia Legislativa, num domingo.
Depois de tudo acertado com a direção partidária e da presença maciça dos convencionais, Setúbal provocou arrepios até na espinha da familia presente à festa do PFL, ao desistir de concorrer ao governo estadual, sem dar qualquer explicação. Sua desistência ocorreu por volta das 11 horas da noite, quando a convenção já estava esvaziada.
Somente depois de algum tempo é que ficamos sabendo o motivo que levou o empresário-banqueiro a recuar do desejo de ser governador: é que o presidente do partido, José Maria Marin, exigia ser o tesoureiro de sua campanha; caso contrário poderia não homologar a candidatura de Setúbal no tribunal eleitoral.
Olavo Setúbal sempre foi considerado um dos mais experientes e capacitados empresários que atuam principalmente no sistema financeiro. Como banqueiro, Setúbal esperava receber uma enxurrada de doações dos bancos para irrigar sua campanha.
Seria lógico que ele escolhesse para tomar conta de tanto dinheiro alguém que atuava com ele no setor bancário. De jeito nenhum ele estava disposto a entregar o dinheiro nas mãos de Marin.
Em tempo: José Maria Marin está preso na Suíça acusado de enfiar no bolso dinheiro que não era seu.
Caso 2:
Paulo Maluf colocou seu pescoço a prêmio quando desafiou o regime militar nas pessoas dos generais Ernesto Geisel e João Figueiredo, dois ex-presidentes da República e heróis do golpe ou da revolução de 1964.
O desafio ocorreu em 1978, depois que Geisel atendeu ao pedido de Figueiredo e escolheu Laudo Natel para ser o governador biônico de São Paulo.
Maluf não aceitou a decisão dos dois generais-presidentes e deu início a um trabalho intensivo pelo interior do Estado para conseguir mais votos que Natel na convenção da Arena, porque, mesmo sendo indicado por um sistema que não exigia a conquista de votos nas urnas, o governador indicado necesitava ser homologado na convenção.
A homologação, nesse caso, seria do candidato com mais votos dos convencionais.
Enquanto Laudo Natel acreditava na promessa do general Figueiredo de cassar os direitos políticos de Maluf com base no AI-5, não se preocupando em pedir os votos dos convencionais, Maluf caitituava o apoio das bases do partido.
O tempo voava e Natel esperava pela prometida cassação de Maluf, que não vinha, até o dia em que o presidente Geisel telefonou para um dirigente da Arena, em São Paulo, solicitando dele a missão de convencer Maluf a desistir de concorrer na convenção.
Paulo Maluf foi chamado à casa do dirigente arenista e entre os dois houve um diálogo tenso que ainda hoje é guardado em segredo. Depois de ouvir atentamente o apelo do dirigente e a ameaça de ser punido pela "revolução" com a perda de seus direitos políticos, Maluf encerrou a conversa respondendo que só desistiria de ir à convenção -que ele considerava vitoriosa- se uma dessas três coisas acontecesse: 1-se me cassarem; 2- se me prenderem; 3- ou se me matarem.
Foi assim que Maluf se fez governador.

