Melhora nos índices de confiança é colocada em xeque
Economistas dizem que é cedo para falar em recuperação porque o cenário econômico ainda é ruim e os indicadores estão em um patamar muito baixo

Cinco de seis indicadores que medem a confiança e as expectativas em diferentes setores da economia voltaram a crescer em janeiro em relação ao final do ano passado, de acordo com levantamento do Ibre/FGV.
Oito em cada dez micro e pequenos empresários consideram que a economia piorou na segunda metade de 2015, mas a confiança para os próximos seis meses teve leve melhora em janeiro.
Os dados são do indicador de confiança dos micro e pequenos empresários, calculado pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL).
O índice aponta para ligeira melhora, passando de 40,03 pontos em dezembro para 42,03 em janeiro. Ainda assim, segue abaixo do nível neutro de 50 pontos, o que demonstra que os empresários entrevistados continuam pouco confiantes com as condições econômicas do País e de seus negócios.
Com tudo isso, economistas dizem que é cedo para falar em recuperação porque o cenário econômico ainda é ruim e os indicadores estão em um patamar muito baixo.
Mas o fato de a confiança interromper a trajetória de queda em vários setores e voltar a crescer pode ser uma primeira pista de que o pior da crise pode ter ficado para trás, especialmente no caso da indústria.
No mês passado, o índice de confiança dos empresários da indústria, apurado pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), atingiu 78 pontos e avançou 2 6% em relação a dezembro, descontadas as variações que sempre ocorrem nesse período.
Nas mesmas bases de comparação, movimentos semelhantes de alta de dezembro para janeiro de outros indicadores de confiança da FGV foram registrados nos serviços (2,8%), no comércio (6,4%), no consumidor (2,5%) e no emprego (5,4%). Só o setor de construção civil destoa: a confiança recuou 0,7 ponto de dezembro para janeiro.
"Há uma boa chance que tenhamos atingido o piso desses indicadores no final do ano passado, mas acredito que vamos ter que esperar um pouco mais para confirmar se houve uma virada", afirma o superintendente adjunto de Ciclos Econômicos da FGV, Aloisio Campelo.
DÚVIDAS
O economista da Tendências Consultoria, Rafael Bacciotti, diz que é cedo para acreditar em reversão sustentável. "O cenário econômico é bastante adverso: estamos no meio de um ajuste do emprego e da renda, convivendo com inflação elevada e contração do crédito."
Para Francisco Pessoa, economista da LCA Consultores, os índices de confiança podem ter parado de cair não porque a situação da economia tenha melhorado, mas porque a atividade está tão ruim que os agentes acreditam que não possa piorar mais. "Neste ano ainda vejo queda na atividade, mas num ritmo menor do que no ano passado."
Para Campelo, houve uma espécie de "aterrissagem" dos indicadores de confiança no final de 2015 e na indústria já é possível notar uma melhora.
Em janeiro, a confiança dos empresários da indústria teve a segunda alta seguida. O indicador subiu em 12 de 19 segmentos na comparação com dezembro.
"A confiança dos empresários da indústria parou de cair desde agosto", diz Campelo. Isso porque o setor, baseado na forte contração da produção, conseguiu ajustar o estoque ao tamanho menor do mercado.
Bacciotti concorda com Campelo e diz que o cenário é mais favorável para a indústria porque, além do ajuste de estoques, o setor é beneficiado pelo câmbio depreciado, que amplia a competitividade das exportações, e pelo arrefecimento dos custos salariais que ocorrem por causa da recessão.
No caso da confiança do consumidor, Campelo também vê fatores objetivos para que o índice tenha parado de cair. Ele lembra que o consumo das famílias despencou no ano passado, as pessoas ficaram mais cautelosas, reduziram as compras e fizeram um ajuste.
"Os orçamentos domésticos continuam apertados, mas, daqui para a frente, as taxas começam cair de forma menos intensa, pois a base de comparação é fraca", argumenta.
O economista lembra que esse movimento provocado pela base fraca de comparação é esperado nos ciclos da economia. O difícil é saber se ele veio para ficar.
Zigue-zague
Um ponto levantado pelo superintendente da FGV é a sustentabilidade dessa possível recuperação. "Fiz um exercício com 37 países e constatei que quanto mais longa a fase de queda da confiança, mais tempo demora para a economia se recuperar."
Isso significa que em recessões longas, como a atual, a recuperação é mais volátil. Isto é, pode ter início uma fase de recuperação que depois é interrompida. Como os economistas gostam de ilustrar, seria uma recuperação afetada por turbulências, no formato da letra W.
Enquanto não se sabe ao certo se, de fato, o avanço da maioria dos índices de confiança é um sinal de recuperação, no caso da construção civil, essa hipótese está descartada. Em janeiro a confiança do setor atingiu o menor nível da série iniciada em julho de 2010.
Além de o ciclo da construção ser mais longo comparado aos demais, hoje há incertezas que afetam o setor tanto no segmento imobiliário como no de infraestrutura. Além disso, as turbulências por causa das investigações da Lava Jato ajudam a piorar o cenário.
MICROEMPRESA
"Há um descompasso entre o cenário previsto pelos analistas de mercado e o esperado pela maior parte dos micro e pequenos empresários", diz Honório Pinheiro, presidente da CNDL. Analistas de mercado ouvidos pelo Banco Central projetam queda de mais de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e inflação acima de 7%.
"A crise não atingiu com a mesma intensidade todos os setores. O empresário tem, em certa medida, maior controle sobre os rumos de seu negócio, além de um otimismo quanto às perspectivas que se abrem no início do ano", completa.
Para 30% dos entrevistados, haverá aumento do faturamento neste primeiro semestre. Já 20% acreditam que o faturamento cairá, enquanto 46,6% esperam estagnação.
Os que estão otimistas preveem aumento das vendas pela diversificação do portfólio e por novas estratégias que devem adotar neste primeiro semestre. No outro oposto, os que esperam queda culpam a recessão econômica pela retração nas vendas.
"O otimismo demonstra que esses empresários estão mais dispostos e confiantes para assumir riscos e ampliar os negócios, inclusive contratando funcionários e reforçando estoques", diz Pinheiro. Ele sabe, porém, que o pequeno negócio não é uma ilha. "Espero que neste ano o Congresso e o Planalto se entendam melhor. Todo esse imbróglio econômico diz respeito às incertezas políticas."
Para a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti, o impasse político e o aprofundamento da recessão reforçaram em 2015 a crise de confiança que já existia.
Prova é que 79,13% dos empresários consultados disseram ter a percepção de que a situação econômica do Brasil piorou nos últimos seis meses. Para 62,4% dos empresários, o desempenho das suas empresas também piorou no período.
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