Memórias de uma aliança com os hippies tolos e sujos
Diferentemente dos VIPs, eles entendiam realmente tanto de gestão quanto de política
Dave Weigel, da Bloomberg, escreveu uma das retrospectivas mais interessantes sobre Harry Reid ressaltando o papel do senador de Nevada na resistência à tentativa do presidente George W. Bush de privatizar a Seguridade Social em 2005 — e, de modo especial, o modo como Reid construiu uma aliança com os blogueiros liberais. (Leia aqui o texto de Weigel).
Lembro-me muito bem do episódio, e por diversos motivos. Um deles se deve ao fato de que eu também estava escrevendo muito, derrubando um por um os argumentos ruins a favor da privatização. Não era a primeira vez que eu fazia esse tipo de coisa, mas esse debate foi diferente por dois motivos: foi muito acalorado, e pelo menos daquela vez minha argumentação venceu o debate político.
Aquele foi também um período de formação para minha perspectiva de como os argumentos políticos se davam, de fato, nos Estados Unidos de hoje. Há sempre três lados: o da direita, que não está interessado em fatos ou em lógica; o da esquerda (que não é muito esquerdista — a esquerda americana, na verdade, é centro-esquerda não importa o critério que se use); e os autoproclamados de centro, que pouco influem sobre o eleitorado do país de modo geral, mas cuja influência é enorme em Washington.
O que eu aprendi desde cedo a respeito do debate em torno da Seguridade Social foi que o centro queria desesperadamente acreditar na existência de uma simetria entre esquerda e direita —que democratas e republicanos ocupavam igualmente as extremidades cada um à sua maneira. Com isso, quem era de centro estava sempre em busca de meios de dizer coisas bonitas sobre os republicanos e suas propostas de gestão, ainda que fossem muito ruins.
Assim, em 2005, Bush fazia uma afirmação duvidosa cuja conclusão nada tinha a ver com os fatos: era um non sequitur perfeito. Em primeiro lugar, ele dizia que a Seguridade Social estava em crise; em segundo lugar, que a privatização era a resposta, embora em nada contribuísse para ajudar as finanças do sistema. Como alguém de centro poderia dizer coisas boas sobre tamanha má fé?
Bem, vejam o que disse Joe Klein, da revista Time, no programa "Meet the Press" em 2005:
"Concordo com Paul Krugman que as contas privadas nada têm a ver com solvência, e a questão é precisamente a solvência. Mas discordo do Paul porque creio que a política de contas privadas é terrível e também porque, na era da informação, vamos precisar de estruturas diferentes daquelas com que eram tratadas as prerrogativas na era industrial.
No entanto, é muito difícil fazer esse tipo de mudança nas circunstâncias políticas atuais em que há desavenças enormes entre os partidos. Nos últimos dez ou 15 anos, os democratas trataram o assunto de forma ostensiva e descaradamente demagógica. Não propuseram nada de positivo para a Seguridade Social, Medicare ou para o Medicaid, por isso chegou a hora de se comprometerem."
O que posso dizer? Klein tem a seu favor o fato de haver reconhecido posteriormente que se equivocara totalmente nesse ponto. Contudo, o que observamos nesse caso foi o instinto de propor alguma coisa — qualquer coisa — que permitisse ao centro fingir que havia uma simetria entre os partidos.
A propósito, sobre os democratas não fazerem coisa alguma em relação ao Medicare (programa de seguro de saúde para pessoas com 65 anos ou mais) e ao Medicaid (programa de saúde para os pobres ou deficientes): é interessante observar as projeções para o orçamento feitas aproximadamente na época em que se debatia a questão da Seguridade Social.
Na ocasião, o escritório do Orçamento do Congresso previu que, por volta do ano fiscal de 2014, o gasto com o Medicare chegaria a US$ 708 bilhões e a US$ 361 bilhões com o Medicaid. Os números reais de 2014 foram US$ 600 bilhões e US$ 301 bilhões, respectivamente, apesar da expansão do Medicaid no governo Obama.
Ao menos parte desse gasto módico inesperado pode ser atribuído a medidas previstas pela Lei de Serviços de Saúde Acessíveis. Pode parecer estranho, mas o que se conseguiu não se deu à custa da destruição ou da privatização desses programas.
Mas, voltemos a 2005: o que Reid percebeu foi que era hora de parar de cortejar "Gente Muito Importante" [VIP] e, em vez disso, fazer uma aliança com os HTS — que poderíamos chamar, conforme convém aos bons modos, de hippies tolos e sujos. Diferentemente dos Vips, eles entendiam realmente tanto de gestão quanto de política. Foi um divisor de águas importante.


