Mercado ainda aponta incertezas sobre o futuro do BTG
Instituição quer vender carteira de R$ 5 bilhões para bancos. A participação do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal pode chegar a R$ 3,5 bilhões

As incertezas sobre o futuro do BTG Pactual ainda pairam no mercado financeiro, mesmo com a rapidez dos executivos controladores do banco em tentar acalmar o mercado com as recentes medidas adotadas para estancar a fuga de capital.
Ainda há a expectativas sobre a denúncia criminal que deverá ser apresentada, nos próximos dias, pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra o senador Delcídio Amaral (PT) e seu chefe de gabinete Diogo Ferreira; o banqueiro André Esteves; e o advogado Edson Ribeiro, ex-defensor do diretor da área internacional da Petrobras, Nestor Cerveró.
Janot deverá propor abertura de ação penal contra eles, que foram presos sob suspeita de tentar obstruir as investigações da Operação Lava Jato.
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Persio Arida, presidente do conselho de administração do BTG, afirmou que a assessoria jurídica internacional que será contratada na segunda-feira pelo comitê de membros independentes do banco deverá fazer um pente-fino em todas as operações realizadas pelo banco.
Essa medida, segundo ele, já tinha sido anunciada no dia 25 de novembro, dia da prisão de André Esteves. Arida disse que esse movimento do comitê independente não é uma resposta à possível denúncia de Janot.
"A situação do BTG poderá piorar muito, se o banco for implicado nessas denúncias", disse uma fonte de um grande escritório de advocacia do país.
Embora o banco tenha crescido muito nos últimos anos e concentre profissionais qualificados em diversas áreas, o peso da figura de Esteves ainda era considerável.
"Ele se confundia um pouco com a instituição. É por isso que se instalou essa crise de confiança", disse outro advogado .
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DESCONFIANÇA
Apesar das novas medidas adotadas pelo banco para acalmar o mercado, o BTG perdeu ontem o selo de grau de investimento da agência de classificação de risco Fitch - a nota foi rebaixada de BBB- para B-.
O diretor do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), Caetano Vasconcellos Neto, disse que o socorro ao BTG não foi para estancar um "risco sistêmico".
Embora a exposição ao BTG não ofereça riscos a outras instituições, os principais bancos têm exposição a seus ativos. Uma fonte lembrou que, no caso do Bradesco, o total estaria em R$ 6,7 bilhões.
VENDA DE CARTEIRA DE CRÉDITO
O BTG Pactual negocia a venda de mais de R$ 5 bilhões de carteiras de créditos aos grandes bancos.
A participação das instituições públicas - Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal - pode chegar a até R$ 3,5 bilhões desse valor. O BTG também negocia com os maiores bancos privados do país, Bradesco e Itaú.
Ao comprar as carteiras de empréstimos, os bancos ficam com os créditos que o BTG tem a receber dos clientes.
A negociação faz parte da estratégia do BTG de levantar dinheiro em meio à turbulência provocada pela prisão do sócio e ex-presidente do banco André Esteves.
Desde o dia da prisão, 25 de novembro, o banco vem enfrentando aumento nos saques, em meio à preocupação sobre a capacidade de reter clientes.
Como as negociações ainda estão em andamento, os valores ainda não estão definidos.
No entanto, o Banco do Brasil negocia até R$ 2,5 bilhões em crédito e já está acertada a compra de um lote entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão. A Caixa estaria disposta a ficar com uma fatia de até R$ 1 bilhão.
Entre os bancos privados, o Bradesco teria adquirido R$ 1,2 bilhão. O Itaú Unibanco também demonstrou interesse por uma parte em torno de R$ 1 bilhão.
De acordo com executivos de bancos ouvidos pela reportagem, são três os motivos do interesse dos bancos pelas carteiras do BTG.
A operação ajudaria o banco de investimento a não entrar em colapso por falta de liquidez, o que evitaria um estresse maior no mercado bancário.
Os concorrentes podem negociar a compra desses ativos, que têm baixo risco de calote, com desconto considerável. Ao adquirir a carteira de empréstimos a grandes empresas do BTG, os concorrentes abrem possibilidade de relacionamento com novos clientes.
Na semana passada, durante conversa com jornalistas durante reunião com analistas e investidores, o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, disse que a compra de carteiras de crédito "sempre é um processo que o mercado pratica, mesmo fora de momentos mais críticos".
O BTG Pactual encerrou setembro com cerca de R$ 43 bilhões em empréstimos corporativos (corporate lending). Nos últimos meses, o banco fez um esforço de "desalavancar" seu balanço (reduzir a razão entre dívida e patrimônio).
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VENDA DE ATIVOS
O BTG Pactual articula com rapidez a venda de seus ativos e participações para garantir liquidez no curto prazo e também para minimizar a dilapidação de seu patrimônio.
A pressa para a venda de seus negócios é um passo importante para que banco possa fechar seu capital.Além dos ativos de seu vasto portfólio de private equity (que compra participações em empresas para vender depois com lucro), infraestrutura e ativos imobiliários e de florestas, o BTG já ofereceu o BSI, banco suíço gestor de recursos considerado o marco de globalização do BTG, além de seu braço de asset management (gestora de recursos) a outras instituições.
O Banco BTG Pactual e o BTG Pactual Participations esclareceram, a respeito de notícias veiculadas na imprensa, que recentemente têm sido procurados por interessados em diversos dos seus ativos, em comunicado enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
No documento, o banco confirma que está considerando oportunidades de negócios, podendo, se for conveniente, vender parte dos seus ativos.
Ainda no comunicado, o banco confirmou que as eventuais transações podem envolver a venda de participações societárias nas seguintes sociedades: BSI, Recovery, Leader, UOL, BodyTech, BR Properties e Bravante, entre outros,
Ontem, as units (pacote de ações) do BTG fecharam em alta de 1%, para R$ 20,20, após acumular queda de cerca de 35%, desde a prisão de Esteves, que renunciou à presidência do banco e saiu do bloco de controle do BTG, conforme anunciou a instituição financeira na quarta-feira.
A reação positiva das ações do BTG, contudo, não está atrelada ao seu recente processo de reestruturação, mas à abertura do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, segundo analistas de mercado ouvidos pela Broadcast.
As ações de outros bancos subiram fortemente com esse mesmo argumento: os papéis ordinários (ON) do Banco do Brasil (,40%); o BB Seguridade ON (8,43%); as ações preferenciais (PN) do Itaú Unibanco PN (6,35%); as PN do Bradesco (4,39%); as units do Santander (4,24%).
Já os bônus da dívida com vencimento em 2022 do BTG seguem em rota de baixa e operam com retornos (yield) semelhantes aos de papéis em que o emissor já está reestruturando as suas dívidas.
De acordo com uma fonte, a cotação para a compra já está abaixo de 40% do valor de face, em 36%. Desde o dia 25 de novembro, esses bônus já perderam mais de 40% de seu valor.
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LIQUIDAÇÃO
O primeiro movimento nesse sentido foi o desinvestimento total na Rede D'Or para o fundo soberano de Cingapura (CIG), por R$ 2,38 bilhões.
Também está encaminhada a negociação da Recovery, gestora de créditos vencidos e recebíveis, que tem como interessados os fundos Cerberus e Lone Star, segundo a Reuters.
Com esse negócio, o BTG poderá levantar até R$ 1,2 bilhão, segundo fontes. A rede de estacionamentos Estapar é outro ativo ofertado pelo banco e tem gerado interesse. Fontes dizem que o banco almeja cerca de R$ 5 bilhões com esses desinvestimentos.
Outros ativos do portfólio de private equity em que o BTG deve encontrar compradores com mais facilidade, mesmo diante de grande competição no mercado pela forte onda de ativos à venda no Brasil, são Mitsubishi Motors, UOL e a rede de academias Body Tech.
Há outros negócios menos atraentes, que também estariam à venda, de acordo com fontes, como a BR Properties, a BR Pharma, a varejista Leader, além da Bravante, que atua nas áreas de apoio marítimo.
Procurado, o banco não comenta as informações. Em entrevista na quarta-feira, Persio Arida, presidente do conselho de administração do BTG, confirmou que o banco fará uma série de desinvestimentos "que não fazem sentido para a atividade financeira" da instituição.
Foto: Estadão Conteúdo

