Missão de Levy: criar ambiente que estimule o investimento privado
Joaquim Levy, o novo ministro da Fazenda que que foi anunciado nesta quinta, deve desmontar a política anticíclica que marcou a economia brasileira nos últimos anos
Joaquim Levy vai ser anunciado nesta quinta-feira ministro da Fazenda com a missão de desmontar gradualmente a política anticíclica feita nos últimos anos, revertendo as desonerações tributárias, disse à Reuters uma fonte do governo que acompanha a montagem da nova equipe econômica.
[Política anticíclica consiste no conjunto de ações conduzidas pelo governo para minimizar ou compensar os efeitos de um ciclo econômico capazes de provocar desequilíbrio].
"Não tem como o governo manter a política anticíclica", disse uma fonte, sob condição de anonimato. "Levy vai assumir o cargo de ministro da Fazenda para rever as contas, reverter desonerações, gerar mais receita e criar ambiente para a melhora do investimento privado."
O desmonte dessa política, iniciada para estimular a atividade econômica, será feito de forma gradual. Mas novas medidas, de acordo com a fonte, não serão divulgadas nesta quinta-feira, quando o Palácio do Planalto divulgará os nomes dos futuros ministros da Fazenda e do Planejamento.

Levy, o novo ministro: rever contas, reverter desonerações e gerar receita
Fotos: Reuters e EC
O ex-secretário-executivo da Fazenda Nelson Barbosa ficará com a pasta do Planejamento e Alexandre Tombini continuará à frente do Banco Central.
As desonerações tributárias, nos primeiros dez meses do ano, somaram quase 85 bilhões de reais, e são uma das principais responsáveis pelo mau desempenho fiscal do governo. Entre elas, estão a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de veículos, que termina neste ano, e a das folhas de pagamento de diversos setores, que continua.
As medidas em estudo também envolvem mudança no seguro-desemprego e abono salarial, além de contenção de gasto da máquina pública.
Também está em análise o aumento da alíquota da Contribuição de Intervenção do Domínio Econômico (Cide) sobre combustíveis, zerada desde 2012. De acordo com a fonte, além de gerar receita anual superior a 10 bilhões de reais, o tributo vai melhorar a competitividade do etanol no mercado brasileiro.
Esse conjunto de medidas está em fase final de elaboração e será anunciado nos próximos dias.(Reuters)
"Trator" ou "Mãos de Tesoura",
eis o perfil de Joaquim Levy
Chamado por poucos de "Joca", por muitos de "trator" e por petistas de "mãos de tesoura", o engenheiro naval e Ph.D. em economia Joaquim Levy será anunciado hoje ministro da Fazenda no lugar de Guido Mantega com a missão de encarnar, agora, o papel de "salvador da pátria" da política fiscal depois das manobras contábeis que abalaram a credibilidade do País.
Levy desperta esperança e apreensão dentro do governo. Se por um lado a presidente Dilma Rousseff aposta na obstinação e no seu conhecimento técnico para, por exemplo, ser capaz de entregar o superávit que for prometido, por outro lado a ortodoxia do economista para cumprir suas missões arrepia governistas, que temem o comprometimento dos avanços sociais da gestão petista.
O escolhido para comandar a Fazenda no segundo mandato costumava protestar quando algum de seus assessores do Tesouro Nacional lhe comprava bilhetes na classe executiva em viagens internacionais, previsto pelo regulamento do setor público. "Com esse dinheiro, viajam dois", reclamava.
Quando controlou a chave do cofre do Tesouro, entre 2003 e 2006, no governo Lula, costumava bater de frente com a então ministra de Minas e Energia Dilma Rousseff. Especialmente porque ele tentava intervir em questões da pasta, como no episódio do marco regulatório de energia, que estava em elaboração pela então ministra. Casos como esse geraram brigas entre os dois e até a expulsão dele do gabinete dela.
Mesmo assim, a hoje presidente resolveu acatar a sugestão do nome de Levy movida pela razão e não pela emoção. Ele vem sendo descrito por economistas como "o mais completo" para a função de ministro.
FMI
Além da formação acadêmica que passa por mestrado na Fundação Getúlio Vargas e doutorado na Universidade de Chicago - com carta de recomendação escrita por seu ex-professor Arminio Fraga -, Levy conheceu a política monetária de vários países quando trabalhou no Fundo Monetário Internacional (FMI).
Adquiriu experiência com a estrutura de gastos da máquina federal durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, quando foi secretário adjunto de Política Econômica, economista-chefe do Planejamento e, já na gestão Lula, chefe do Tesouro. Estreitou relações com agências internacionais de classificação de risco quando foi da direção do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Como secretário de Fazenda do Rio, conheceu em profundidade as finanças estaduais. E foi na diretoria do Bradesco Asset Management que aprofundou sua relação com o mercado financeiro.
Quando atuou no governo federal, mandou contratar secretárias em três turnos diferentes. A última costumava encerrar o expediente às 2 horas. Muitas vezes, Levy trabalhava até o início da madrugada, voltava para sua casa, nadava alguns quilômetros e voltava ao trabalho. Ou dormia algumas horas no sofá do próprio gabinete para dali retomar mais um dia. E-mails enviados às 3 horas e ligações às 7 horas costumam ser rotina até hoje.
Se Dilma Rousseff e Joaquim Levy concordam no jeito austero e duro de cobrar os subordinados, agora resta a expectativa, por parte do mercado e de governistas, se a presidente estará disposta a dar autonomia para conduzir a política econômica na qual acredita.
De Estadão Conteúdo

