Monteiro: ‘não há alternativa, o túnel é a melhor opção para a Sena Madureira’
O secretário municipal de Infraestrutura Urbana e Obras detalha mudanças no projeto para mitigar impactos ambientais e fala sobre o cronograma de implementação do túnel que busca melhorar o trânsito na Vila Mariana, mas divide opiniões de moradores da região

Em meio a protestos e revisões, o projeto do túnel da avenida Sena Madureira, na Vila Mariana, em São Paulo, sofreu importantes alterações nos últimos meses e retomou seu cronograma com a abertura da licitação e um novo valor de referência de R$ 748 milhões.
Em entrevista ao Diário do Comércio, Marcos Monteiro, secretário municipal de Infraestrutura Urbana e Obras, diz não enxergar outra possibilidade para solucionar os gargalos de trânsito na região. Após a contratação da empresa vencedora, a próxima fase será a elaboração do projeto executivo e a expectativa é de que haja uma maior clareza sobre os prazos de entrega a partir de março de 2026.
Uma das principais revisões do projeto foi motivada pela preocupação com o corte de árvores e a preservação do corredor verde. Para mitigar o impacto, Monteiro detalha que o túnel foi encurtado tanto na entrada quanto na saída, garantindo a preservação de árvores simbólicas da região e que ainda haverá um plano de compensação ambiental na região. Acompanhe a entrevista:
Diário do Comércio - Qual é o status atual da obra do túnel da Avenida Sena Madureira? Poderia detalhar o novo cronograma do projeto e a data de entrega esperada?
Marcos Monteiro - O projeto está em fase de licitação. O desenho do projeto é composto por dois túneis (Norte e Sul) para integrar os bairros Ipiranga, Saúde, Vila Mariana, Itaim Bibi e Morumbi. O cronograma envolveu duas audiências públicas em setembro. Em 13 de outubro, publicamos a licitação. Os envelopes serão abertos no dia 5 de dezembro e, a partir daí, entramos em uma nova fase. Eu acredito que a partir de março de 2026 teremos uma clareza maior sobre prazos. Vale lembrar que a partir do momento em que a empresa for contratada, teremos a organização de um projeto executivo, então, ainda teremos um tempinho até avançar para a retomada desse canteiro de obras.
Quais foram as principais revisões no projeto e o que elas implicam na funcionalidade e no prazo da obra?
Monteiro - Uma das situações mais presentes é a questão do corte das árvores e do corredor verde. Nesse sentido, uma das medidas foi encurtar um pouco o túnel tanto na entrada como na saída. Isso nos fez preservar árvores emblemáticas da região. Com essa atualização, a pista Norte passou de 770 metros para 560 metros e a pista Sul foi de 510 metros para 420 metros. Com esse novo traçado, tivemos uma preservação adicional de 73 árvores e vamos plantar 377 árvores e mais 1 mil mudas no bairro, além de transplantar outras 25 árvores.
Ainda no ambiental, tivemos outra questão referente à Licença Ambiental (concedida em 2024), que mostramos estar válida. Também fomos apurar a informação de que o túnel destruiria a nascente (do Córrego Embuaçu). Consultamos todos os documentos existentes e as visitas de nossas equipes da Secretaria do Verde e Meio Ambiente confirmaram que não há registro dessa nascente. O que existe naquele lugar é uma rede de drenagem que, em épocas de chuva, acaba por acumular água, que aparenta ser algo além disso. Mas há períodos do ano em que o local fica seco. Portanto, não foi detectado nenhum ponto ou indício de nascente.
Também fizemos um acordo com a Secretaria do Verde e Meio Ambiente para fortalecer esse plano de compensação. A cidade de São Paulo está trabalhando em um novo inventário arbóreo e acordamos começar esse inventário pela região da Vila Mariana. A ideia é ter um diagnóstico melhor para tomar decisões efetivas para esse novo plantio e fortalecer esse corredor verde.
E como está a questão da remoção e reassentamento das famílias das comunidades que serão impactadas pelo projeto?
Monteiro - Esse trabalho já havia sido iniciado e muitos dos que moram ali já entenderam a importância da obra. Em geral, as famílias são notificadas e esse atendimento é feito por indenização ou aluguel social vinculado a um empreendimento de Habitação de Interesse Social (HIS). Ocorre que na Comunidade Souza Ramos ainda temos muita dificuldade em avançar. Ali, são 103 imóveis e eles não nos permitem nem o acesso para dar sequência ao cronograma. Já na comunidade Coronel Luís Alves, os moradores querem indenização a preço de mercado e 63 imóveis foram selados. Esse processo de selagem em comunidades é uma etapa que permite aos órgãos públicos terem um controle exato de quem vive no local e em quais condições com o objetivo de cadastrar formalmente os imóveis e seus ocupantes para garantir que tenham acesso aos direitos de compensação ou reassentamento.
Como a Secretaria de Obras enxerga a questão de mobilidade, sendo que associações e representantes do bairro apresentaram diferentes sugestões?
Monteiro - Alguns movimentos apontam que o túnel poderia ser substituído por uma rotatória, mas não tem nem comparação - os estudos mostram que ela até pioraria o trânsito. Sei que existe o discurso de que essa obra é rodoviarista, mas temos a obrigação de melhorar gargalos. O transporte público vem sendo melhorado, mas daí para uma pessoa deixar o carro em casa e mudar o modal de transporte é um processo, uma mudança cultural que precisa de tempo. Não posso deixar a cidade travada. Vamos atacar esses gargalos da cidade. É para facilitar um fluxo e dar nova alternativa para chegar, por exemplo, à rodovia dos Imigrantes, que hoje praticamente tem como única opção a avenida dos Bandeirantes.
Também foi estudada a questão dos corredores de ônibus. Mostramos um plano viário antigo que previa a Sena Madureira como corredor de ônibus, mas a malha viária não tem mais esse interesse e vimos nesse estudo que a rota de ônibus está bem resolvida na região. Agora, falando em ciclovias, dá para dizer que temos alternativas interessantes na região, mas ainda há um buraco na Chácara Klabin e junto à Secretaria de Transportes vamos melhorar isso.
Houve alterações no orçamento previsto devido a paralisações, multas e modificações no projeto. Qual o valor atualizado?
Monteiro - O valor de referência da obra agora é de R$ 748 milhões. Esse é o valor de planilha, sem descontos, e a expectativa é de que, com a licitação, ele caia um pouco. Como disse, entendemos que até março, no máximo, teremos o início do contrato. Uma coisa importante a se dizer é que firmamos um compromisso nessa nova licitação de iniciar pela implantação dos compromissos ambientais e todas as compensações que assumimos em relação a isso. Vamos começar pelas árvores.
Como a Secretaria tem se articulado com os moradores da Vila Mariana e ativistas que protestam contra a obra?
Monteiro - Na primeira audiência pública que fizemos não sabíamos bem o que esperar. Era uma reunião densa, com muitos detalhes técnicos, novidades sobre a revisão. Queríamos realmente mostrar os ajustes do projeto e estávamos abertos aos pontos de crítica de quem lá estava. Preparamos um auditório, mas recebemos um volume muito maior do que ele poderia comportar. Tínhamos um anexo no centro de eventos para quem quisesse acompanhar do lado de fora, mas chegou muita gente. E, ao que nos pareceu, muitos que, inclusive, forçaram a entrada no auditório causando tumulto, chegaram com o objetivo claro de não deixar que aquela audiência fosse realizada, mobilizando mais gente até o local, ainda que sem relação com a região. Não teve como. A partir disso, acordamos que haveria uma segunda audiência e, mesmo assim, não pareceu o suficiente para atender a todos que queriam falar. Mas, a partir dessa escuta, tivemos muitas alterações, como detalhei anteriormente.
Falando sobre as audiências públicas, estão previstas novas reuniões ou canais de diálogo?
Monteiro - Sei que, pela própria dinâmica da cidade de São Paulo, muitos não conseguiram participar das audiências públicas, mas vai haver muito diálogo durante esse processo. As equipes irão visitar prédios e comércios repassando as eventuais informações e como tudo vai funcionar. Estamos acostumados com obras grandes e sabemos como fazer isso. Sempre vai ter alguém para dizer que não soube de algo, pois, de fato, há desencontros, mas temos tido muita compreensão e colaboração. Toda obra traz inconvenientes, mas exemplos como o da avenida Santo Amaro mostram como isso valoriza e melhora o fluxo de veículos, permite novos empreendimentos e, hoje, com fios enterrados, calçadas alargadas, tudo ficou melhor. É importante dizer que ninguém vai acordar com a obra encampada da noite para o dia. Ainda não começamos a falar com os comerciantes porque estamos seguindo o cronograma. Mas essa hora vai chegar.
Alguns comerciantes citam o caso da requalificação da avenida Santo Amaro como um exemplo mal conduzido, em que muitos negócios foram prejudicados. Como é possível melhorar a experiência na Sena Madureira?
Monteiro - A execução da Santo Amaro foi um desafio enorme. Ocorreu que, durante a obra, tivemos que tomar uma decisão. O plano de ataque das obras nos indicava uma intervenção menor do que imaginávamos e sustentar esse cenário começou a trazer inúmeras dificuldades para o andamento da obra. Para explicar de forma ilustrativa, tínhamos as máquinas que, para fazer as escavações, precisam girar e nesse movimento acabam jogando terra. E os ônibus passavam muito perto de onde isso acontecia - é um risco muito grande. Então, tínhamos duas possibilidades: seguir naquele ritmo e alongar o prazo de entrega ou ampliar a intervenção e acelerar a obra, e fomos por esse caminho. Entendo essa decisão como acertada e acredito que hoje, os comerciantes também, porque o cenário melhorou muito.
O que se pode fazer é ser o mais transparente possível e fazer um acompanhamento de perto do quanto esses estabelecimentos estão sendo afetados, pois essas alterações são comuns. Essa semana recebi uma comissão de comerciantes da rua Direita e da XV de Novembro, no Centro, preocupados com os ajustes das obras do calçadão. Estamos atentos e não será diferente com a Sena Madureira.
Outro apontamento dos comerciantes se dá em torno de uma possível política de compensação por perdas, como uma isenção de IPTU parcial para determinados empreendimentos. Seria uma possibilidade?
Monteiro - É um direito do cidadão e compensações podem ser feitas. Apesar de não saber os detalhes, a legislação municipal de São Paulo prevê essa possibilidade para imóveis que comprovem algum tipo de impossibilidade ou prejuízos causados por obras públicas. Esse requerimento passa pela Subprefeitura mais próxima ou pela Secretaria Municipal da Fazenda (SMF). O que posso dizer é que a Prefeitura está atenta e sabe como lidar com isso.
A Prefeitura considera a possibilidade de revisar o projeto para uma alternativa viária de menor impacto que o túnel, ou nos impactos da obra em questão?
Não. Está decidido e não voltaremos atrás. O grande desafio no impacto dessa obra é que o túnel passa por baixo da linha do Metrô. O projeto já foi apresentado a eles e já temos essa aprovação. O sistema de túnel demanda detalhes, como ventilação, extração de fumaça em caso de acidentes, uma ligação para saída de emergência, entre outras atualizações para atender aos órgãos pertinentes. Do ponto em que estamos, não é possível reduzir esse impacto em mais nada e acredito que reduzimos tudo o que era possível. Além disso, todas as secretarias entendem que o túnel traz a melhor solução e a CET tem estudos que corroboram com a decisão e o Instituto de Engenharia lançou um material com sugestões que serão consideradas durante o processo. Entretanto, o corpo da obra será esse mesmo.
IMAGEM: ACSP

